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As tuas amigas fazem-te melhor à saúde do que estares casada

"Ter uma relação com um homem não te traz nada de bom à saúde, independentemente do teu género e ter uma relação com uma mulher faz-te muito bem à saúde, independentemente do teu género”.

Por Madalena Maltez
10 Outubro 2018, 11:44am

Foto por Elevate no Unsplash.

Tal como nos dizem todos os livros, músicas e comédias românticas de domingo à tarde, a vida é para ser vivida em conjunto. Até na jornada incansável de conexão absoluta com a Natureza e renúncia total aos bens materiais do filme Into the Wild, a conclusão é a de que a felicidade só é real quando partilhada. Do ponto de vista psicoterapêutico e científico, são vários os estudos que comprovam que a exclusão social é má para a saúde e, consequentemente, são diversos os problemas que se enfrentam em conjunto por essa mesma razão, em grupos como Alcoólicos Anónimos, terapia familiar ou qualquer outro cujo foco seja juntar pessoas que estejam a passar por situações parecidas.

“O isolamento social é tão mau para a saúde como fumar ou ter níveis de colesterol muito altos”, afirma David Spiegel, professor e Director Associado do Centro de Psicologia e Ciência Comportamental da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, numa apresentação dos resultados do seu estudo científico de 2010 [vídeo abaixo], que confirmou a forte relação entre apoio social e longevidade, através da formação de um grupo de apoio para mulheres que sofrem de cancro da mama.



Mas, dentro do espectro da inclusão social, há relações mais fortes e consistentes que outras e que, por isso, contribuem mais para o nosso bem-estar. “O tipo de relação social benéfica para a saúde, se fores homem, é estar casado com uma mulher; enquanto a relação social mais benéfica para a saúde no caso das mulheres não é ser casada: são as suas relações com outras mulheres”, afirma Spiegel [ver à 1h40m do vídeo acima], enquanto mostra os variados estudos que serviram de base a esta observação. E continua: “O que me leva à triste conclusão de que ter uma relação com um homem não te traz nada de bom à saúde, independentemente do teu género e ter uma relação com uma mulher faz-te muito bem à saúde, independentemente do teu género”.

Desde o teu sutiã preferido, ao primeiro beijinho, à primeira vez que te apareceu o período, passando pelo momento em que os teus pais se separaram, o que todas estas situações têm em comum é que as contaste - todas! - às tuas melhores amigas. E contaste-as em detalhe, na intimidade secreta que só melhores amigas podem ter, sem esconderes a emoção que sentias, ou a tristeza, tornando-te quase transparente aos olhos destas outras mulheres com quem partilhas a tua vida, talvez ainda mais abertamente do que com a tua própria família.

Quando o teu namorado não te ouve, ou quando a tua sogra te trata como se fosses tonta, quando não sabes o que vestir ou queres companhia para ir à casa-de-banho; quando te sentes incompreendida ou tens uma entrevista de trabalho, ou quando choras a ver o Diário da Nossa Paixão pela milésima vez, porque não há nada melhor quando se está triste do que insistir na tristeza, partilhas tudo isto com as tuas melhores amigas e elas dedicam-se a dar-te conselhos, a consolar-te, a relembrar-te de coisas sobre ti que tu própria já tinhas esquecido. São absorvidas pelas tuas histórias como se das delas se tratassem. Vivem-nas contigo da melhor maneira que sabem e conseguem, sempre, por mais fodida que seja a situação, ser as pessoas mais capazes de te compreender. E isto, pelos vistos, não é só uma sensação. É a ciência que diz!


Vê: "O que é que se passa com o amor?"


A verdade é que, se o teu namorado fizer merda, recorres imediatamente às tuas amigas para conselhos e desabafos. Mas, se for uma amiga tua a fazer merda, recorres a outra amiga para conselhos e desabafos sobre essa tal amiga porque, se recorreres ao teu namorado, ele vai ouvir-te mas não te vai satisfazer essa sede por uma conversa exageradamente detalhada, em que estudam as várias hipóteses de causas e desfechos, passando por todos os pormenores da zanga e relendo todas as mensagens com olhos de ver, para poderem interpretar exactamente o que será que ela queria dizer com aquele ponto e vírgula.

Para entender melhor estas conclusões, contactei o próprio David Spiegel. Ao telefone, o especialista explica-me que, esta diferença na importância que têm as relações na saúde de cada género, deve-se ao facto de "as mulheres comunicarem a um nível muito mais íntimo". Tendem a expressar mais sentimentos do que os homens, de maneira mais aberta, de forma mais imediata e muitíssimo mais frequente. As relações entre mulheres baseiam-se, na maioria das vezes, em criar laços comuns ao partilharem histórias privadas, enquanto os homens se podem tornar próximos sem partilharem intimidades – falam de desporto, de interesses comuns, de sexo, o que for, mas sem nunca sentirem a necessidade de fundamentar essas conversas com exemplos específicos da sua vida privada. "A pessoa com quem os homens se abrem mais sobre as suas frustrações e com quem se mostram mais vulneráveis é principalmente com a mulher com quem se casam, ou, no caso de não serem casados, com a mãe ou irmã", garante Spiegel.

“O nosso corpo está preparado para lutar ou fugir. O apoio social é o moderador entre os dois”, realça Spiegel, que acrescenta que "ter uma rede de apoio social melhora-nos a saúde, por duas razões principais: na prática, porque temos pessoas atentas a nós e dispostas a ajudar-nos, que no caso de estarmos doentes nos levam ao médico e tratam de nos conseguir cuidados melhores e mais imediatos; e na vertente psicológica, porque a vida é um emaranhado de problemas, obstáculos e stress, tornando-se muitas vezes esmagadora e usamos os nossos amigos e as nossas relações sociais como um amortecedor para esse stress, para nos ajudar a cooperar e a lidar com seja o que for que precisemos de lidar".

Quando lhe perguntei se os homens poderiam ser melhores "apoios", caso treinassem a sua forma de comunicar, ao torná-la mais frequente e pessoal, Spiegel salienta que "talvez pudessem melhorar um pouco, mas não significativamente, porque não é só o fluxo de comunicação que está em jogo, mas também a forma como comunicamos e o seu efeito nos outros". E conclui: “Por exemplo, as mulheres quando estão irritadas tendem a chorar, enquanto os homens tendem a gritar. Quando se chora, abre-se a possibilidade de resolução de conflito, porque se mostra sensibilidade, enquanto ao gritar se fecham mais portas e se pode piorar ainda mais a situação”.

Esta diferença na forma de os géneros se relacionarem, segundo me explica o presidente da Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica, psicólogo e psicoterapeuta, Jorge Gravanita, deve-se em grande parte ao facto de "as mulheres terem sido, histórica e culturalmente, menos expostas à esfera social, estando mais restringidas a uma esfera doméstica". Assim, explica Gravanita, "foram sofisticando as relações e ganhando uma maior habilidade para descodificar emoções". E acrescenta: “Isto também tem o reverso da moeda - as mulheres sentem-se mais facilmente traídas quando uma amiga as desilude de alguma forma e é algo que lhes pesa muito quando acontece”.

Portanto, minhas caras, agarremo-nos bem umas às outras, cultivemos estas nossas relações tão íntimas e saudáveis, sejamos companheiras entre nós e, já agora, prestemos uma boa atenção aos homens na nossa vida – pelos vistos eles precisam muito da nossa rede de apoio. Mas, quando o teu namorado - ou até o teu pai - embirrar por, mais uma vez, ires “sair com elas”, diz-lhes logo de caras que, não só queres, como tens mesmo que ir – afinal de contas, faz bem à saúde!


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