Como vivem as pessoas que dizem ser alérgicas a wifi

Como vivem as pessoas que dizem ser alérgicas a wifi

Passei um dia com pessoas com “hipersensibilidade eletromagnética” — gente que diz sofrer quando expostas a radiação eletrônica.
Tim Fraanje
Amsterdam, NL
MS
Traduzido por Marina Schnoor

Matéria originalmente publicada na VICE UK.

Parte da condição humana moderna é estar sempre na internet e ficar fisicamente desconfortável e estressado com tudo que a gente vê e lê. No entanto, há um grupo de pessoas cujos níveis de stress explodem muito antes delas conseguirem ler uma palavra online — pessoas que dizem que o fato da internet simplesmente existir já tem um impacto negativo em sua saúde. Essas pessoas lidam com uma condição chamada hipersensibilidade eletromagnética (EHS em inglês), o que significa, segundo elas, sofrer uma variedade de sintomas físicos quando expostas a campos eletromagnéticos de coisas como roteadores, celulares e aparelhos de TV.

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Nem todo mundo na comunidade médica está convencido de que EHS é uma condição médica real. Um estudo de 2007 da Universidade de Essex descobriu que os participantes que diziam ter EHS só experimentavam os sintomas quando ouviam que uma antena de telefone próxima estava “ligada”. Quando os participantes não sabiam se a antena estava ligada ou não, os sinais aparentemente não afetavam a saúde deles.

Ainda assim, isso não diminui o fato de que cerca de 5% da população do Reino Unido, por exemplo, se acha afetada por EHS. Se a condição parece familiar, provavelmente é porque você viu isso no spinoff de Breaking Bad Better Call Saul, onde o irmão de Saul, Chuck, se esconde em sua casa para se proteger de todos os sinais eletromagnéticos que o mundo manda na direção dele.

Como não consigo nem imaginar viver num mundo civilizado sem internet, fiquei interessando em saber como é a vida quando você acredita que energia elétrica pode te deixar fisicamente doente. Para descobrir, entrei em contato com Nanny e Martine, duas mulheres que lidam com a EHS, que me convidaram para passar um dia em seus bunkers livres de wifi.

Martine me busca na estação de trem de Steensel, uma cidadezinha no sul da Holanda. Assim que entro no carro dela, ela pede educadamente que eu desligue meu celular — ou, pelo menos, coloque no modo avião. Como não quero fazer ela se sentir mal e estou aqui para viver a experiência, faço o que ela me pede.

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Martine, que tem quarenta e poucos anos, trabalhava no departamento legal de uma organização conhecida de apoio a refugiados em Amsterdã. Que foi onde ela começou a sentir os sintomas do que considerava uma overdose de wifi e radiação, e decidiu fugir da cidade.

“Fiquei completamente desgastada”, me conta Martine. “Você meio que se obriga a continuar até que algo quebra dentro de você.”

A cozinha de Nanny é coberta de papel-alumínio para proteger sua casa do wifi dos vizinhos. Tanto Nanny como Martine pediram para não serem fotografadas para esta matéria.

Martine diz que ela é uma das poucas pessoas na Holanda a conseguir seguro-desemprego baseado em seus sintomas — apesar das autoridades que garantiram o benefício não terem declarado oficialmente que radiação eletromagnética era a causa de seus sintomas. Hoje ela fornece ajuda legal para outras pessoas com EHS. Não tem sido fácil. Isso porque muitos pesquisadores do campo acreditam que EHS é uma questão psicológica, com alguns especialistas dizendo que o medo de radiação em si pode ser insalubre. Martine descarta essa noção, apontando que outros estudos provam que a radiação é prejudicial.

Chegamos à casa de Martine — uma casa de madeira construída ao lado da casa dos pais dela. O pai dela, um cientista, também diz ter EHS, e se considera um especialista em bloquear radiação. A amiga de Martine, Nanny, que tem 50 e poucos, estava hospedada na casa dela há alguns dias para dar uma pausa dos campos magnéticos de sua própria casa. Ela coordena o site EHS Zichtbaar, na busca por conscientizar sobre o que ela acha que são efeitos prejudiciais do wifi sempre presente nas nossas vidas. Seu marido a ajudar a comandar o site, apesar de seu amor por gadgets às vezes acabar vencendo. “O John adora seu smartwatch”, diz Nanny. “Mas o relógio me faz passar tão mal que agora ele mora numa gaveta.” Nanny não odeia tecnologia, mas ela quer ver o wifi substituído por algo mais saudável.

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Nanny nunca sai de casa sem seu chapéu de proteção, que parece o de um apicultor feito com uma malha prateada. Encomendar o acessório já foi difícil – Nanny não pode usar um computador ou falar num celular sem ficar se sentindo mal o resto do dia.

Nanny me leva para um passeio pela mata atrás da casa de Martine, e explica por que ela acha que a radiação é o novo amianto. “Muita gente acha que isso é seguro e já foi testado, ou nem querem pensar nisso”, ela diz. “Tem tantas coisas horríveis acontecendo no mundo, e entendo por que as pessoas só querem seguir suas vidas sem ter que se preocupar com poluição de radiação. Estar preocupado o tempo todo também não é saudável.”

Nanny vive em um pequeno trailer instalado em seu jardim para fugir dos sinais externos.

De volta à casa, nós três fazemos um almoço leve e temos uma discussão intensa sobre o impacto negativo da obsessão da nossa sociedade com as redes sociais. Na metade da conversa, Nanny começa a ficar muito nervosa e pega um pequeno aparelho para conferir o nível de radiação na sala.

Da minha parte, fico tenso quando a longa antena do equipamento passa por cima do meu notebook. “Só olhando rápido aqui para ter certeza”, diz Nanny, numa tentativa de me deixar confortável. Felizmente é um alarme falso. Pergunto se posso testar o aparelho para ver se ele realmente funciona. Martine me dá permissão para ligar meu celular por alguns segundos.

Quando desligo o modo avião, mensagens do mundo exterior começam a inundar meu celular. Logo depois, o medidor de radiação começa a apitar histericamente, com luzes de alarme vermelhas piscando. Constrangido, desligo o 4G e o detector silencia. Alguns segundos depois, ligo secretamente meu celular para ter certeza de que o medidor não estava sendo operado manualmente por Nanny ou Martine. Mas como antes, ele grita e pisca, detectando o campo magnético do telefone.

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Nanny normalmente mora com sua família em Gelrop, uma cidade há meia hora de distância. Mas de vez em quando, quando sente que a radiação eletromagnética ao seu redor é demais, Nanny visita Martine e o marido para se recuperar por alguns dias. Ela vai voltar para casa hoje depois de cinco dias com a amiga, e me convida para ir com ela. Enquanto Martine dirige, começo a pensar quão desconfortável Nanny deve se sentir, deixando a relativa segurança da mata para voltar para um ambiente que ela tem certeza que a deixa doente. Seguimos principalmente por estradas rurais, o mais longe possível de torres de transmissão. “Em certo ponto, você começa a ver as torres em todo lugar”, diz Martine.

O marido de Nanny, John, suas duas filhas adolescentes, sua sogra — que está de visita — e o cachorro da família estão na porta para recebê-la. “Nanny, não sente aí”, sua sogra alerta assim que ela entra. “John e eu medimos mais cedo e é o pior ponto da casa inteira.”

Me mostrando sua casa, Nanny me diz que as paredes foram pintadas com uma tinta especial antirradiação e que a cozinha é coberta em papel-alumínio para bloquear o wifi dos vizinhos. Nanny diz que isso ainda não é o suficiente para livrar a casa totalmente da radiação, porque “há um campo eletromagnético na caixa de fusíveis”. Então Nanny mora num trailer no jardim, mas entra todo dia para o jantar.

“Era divertido no começo”, ela explica. “Era como estar de férias. Mas agora eu adoraria voltar definitivamente para dentro de casa.”

As camisetas antirradiação de Nanny.

Por mais fascinante que eu tenha achado a vida sem wifi de Nanny e Martine, sinto muita falta da minha existência normal, por mais radiação que possa ter. Quando estou prestes a ir embora, Nanny traz sua linha de camisetas, que ela criou com o marido para vender no site. As camisetas têm slogans antirradiação como “Quer ter filhos? Não foda com seu celular” e “Feeling Blue-tooth?”

Depois de me despedir, Nanny pede às filhas para me escoltar até o ponto de ônibus mais próximo. Pergunto como elas se sentem com a mãe longe por tanto tempo. “É legal ter wifi por alguns dias”, elas me dizem, “mas no final das contas, é mais legal ter sua mãe por perto”.

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