Saúde

Como se cuida da saúde mental durante o Carnaval do Brasil

Especialistas falam como lidar com a ansiedade, depressão, fobia social e a multidão durante a época carnavalesca.

Por Bruno Costa
12 Fevereiro 2018, 3:30pm

Imagem ilustrativa. Foto: Rodrigo Zaim/R.U.A. Coletivo/VICE originalmente feita para este artigo.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado a português europeu.

No período mais alucicrazy do ano, torna-se difícil driblar as más ondas decorrentes do clima festivo do Carnaval. "As pessoas não falam sobre saúde mental no Carnaval, porque é uma época em que há a concessão para o prazer e o sofrimento psíquico não casa com prazer e alegria", comenta a psicóloga clínica Juliana Picoli.

"É inegável que existe uma pressão por parte do círculo de convivência e dos media neste período e, nestes casos, pessoas ansiosas ou deprimidas podem novamente ser acometidas por sentimentos profundos de solidão, exactamente por não conseguirem desfrutar de tudo o que se passa à sua volta", acrescenta Picoli. Para a psicóloga é importante falar do assunto, por mais difícil que seja. "As relações de confiança são tão importantes, bem como, em situações de crise, a oferta de serviços de apoio e acolhimento, como por exemplo o CVV - Centro de Valorização da Vida, que oferece atendimento gratuito, tanto telefónico, como presencial".

Com isto em mente, falámos com especialistas que explicaram como podemos enfrentar o peso da depressão, ansiedade e fobias em geral, num período de festa e diversão.

Carnaval sem brilho

Segundo a Organização Mundial de Saúde, o Brasil é o país da América Latina com o maior número de pessoas que sofrem de depressão. E como é o Carnaval para essas pessoas? O psicólogo e professor da FADISP, Luiz Antonio, explica que “quando uma pessoa sofre de depressão, está com a sua estrutura psicológica subjectiva sensível, de acordo com o grau de depressão há um grau de sensibilidade”.

E o psicólogo realça: “Este tipo de celebração, de comemoração, é como um estímulo aversivo, porque aquilo que já está sensível, com a sensibilidade magoada, acaba por ser provocado. Quanto maior é a estimulação da pessoa com algum transtorno, ou alguma dificuldade psíquica for exposta, mais dolorosa, mais angustiante e prejudicial vai ser”. Luiz recomenda que, nesses momentos, pessoas com o quadro clínico de depressão precisam de cuidado, reflexão e algo que as afaste dos estímulos.

Dosear a ansiedade

A preparação do Carnaval é contagiante. Muita gente mal vê o momento para que o momento chegue e, de repente, a ansiedade apodera-se. A psicóloga e coach de saúde e bem-estar, Sharon Feder, salienta que há dois quadros comuns de ansiedade: os introvertidos, com certa aversão à multidão e as pessoas com fobias, que sofrem com ansiedade a um nível mais grave.

No primeiro caso, o ideal é que “essas pessoas procurem festas mais pequenas, nos prédios onde vivem, nos clubes, festas da empresa, happy hour. É importante que, se a pessoa ainda tem um desejo ou interesse, alguma forma de curiosidade, se insira nesse contexto de eventos de menor dimensão”, realça Sharon. O "segredo" é que nada seja obrigatório, sem ser forçado, para evitar mais a aversão à extroversão.

Nos quadros mais graves, a psicóloga indica que as pessoas “não podem sequer participar em pequenos eventos”. No entanto, a profissional de psicologia alerta que ficar trancado dentro de casa também não é benéfico, porque pode aumentar ainda mais a ansiedade, a tensão. “Procurem pensar em programas alternativos. Sair das grandes cidades, das metrópoles, tentar encontrar esses lugares mais em sintonia com a Natureza, que tragam mais tranquilidade e que reduzam essa ansiedade”, aconselha Sharon.

Trabalhar no Carnaval nem sempre é festa

Sharon coloca em evidência que existem alguns estudos, não especificamente sobre o Carnaval, que mostram que algumas profissões que lidam com muitas multidões e muita tensão - por exemplo, o de condutores de autocarros -, podem “trazer problemas e a tendência é que isso pode gerar agressão, violência, coisas que podem ser consequências dessas tensões”.

Não é uma regra, explica a psicóloga, mas é possível que essas actividades “criem um tipo ou aumento de tensão e a pessoa se sinta mais ansiosa, aversiva. Há profissionais que não querem trabalhar durante esta época, devido a referências negativas no passado, [devido a] essa exposição”.

Relembrando o que aconteceu em São Paulo nas "prévias carnavalescas" deste ano, quando um funcionário de um posto de gasolina disparou sobre dois foliões que pediam para urinar, a coach salienta que “as tensões nesta época têm tendência para aumentar. As pessoas estão na rua, à procura de confusão, quem tem de trabalhar nesta altura tem que tentar levar a coisa de uma forma mais leve, levar na brincadeira, não entrar em discussões, não responder a comunicação violenta, tentar evitar qualquer tipo de transtorno, porque as pessoas estão com a adrenalina lá em cima, hormonas à flor da pele. É preciso evitar qualquer confusão, qualquer confronto possível”.

Álcool, drogas & Carnaval

O Carnaval é um caminho certeiro para o abuso de álcool e drogas. Sharon explica que "existe uma tendência, não só no Carnaval, mas que há muitos cenários relativos a populações de pessoas que são mais tímidas, introvertidas, de irem atrás deste tipo de recurso e que acabam por abusar das substâncias e não aproveitam o momento. Ao invés de ser algo divertido, acaba por aumentar ainda mais a pressão. É importante que tudo seja moderado, que a pessoa vá com a cabeça para se divertir, para que seja algo prazeroso e não uma situação em que possa correr riscos".

E, como é a saúde pública em relação à saúde mental neste período?

Sharon expõe que a "saúde mental é uma coisa muito séria, só que, ao mesmo tempo, há muito preconceito sobre o assunto, portanto anão vemos campanhas públicas e até privadas a referirem-se a esta questão". A psicóloga lembra que ainda existe muito preconceito quando se fala de ansiedade e depressão. E justifica: "As pessoas não têm acesso, os órgãos públicos não divulgam esse tipo de informação de uma forma constante, de uma forma que a pessoa se sinta realmente confortável e saiba o que está a acontecer. E isso acaba por gerar o preconceito".

Para além disso, "no Carnaval, por exemplo, não há divulgação sobre um posto a que recorrer caso a pessoa se sinta angustiada. Se ela se sentir sufocada na multidão, pode procurar alguém? Não se fala disso, só de ambulâncias, mas as ambulâncias são para algo clínico, físico, nunca para algo mental. E se a pessoa tiver realmente um ataque de pânico, o que pode fazes? Não sabemos e a pessoa corre o risco de não ter recursos e fazer o pior, ou seja fazer-se valer dos piores recursos possíveis".

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Se tens algum familiar ou passas por uma situação delicada, não fiques em silêncio. Pede ajuda, fale com alguém, procura um profissional.

Se estás no Brasil a passar o Carnaval e te vires aflito, podes sempre recorrer ao Centro de Valorização da Vida (CVV). A instituição é uma das mais sérias do país. Começou em 1962 na cidade de São Paulo e hoje tem 70 postos de atendimento em todo o território. Os voluntários colocam-se à disposição para ouvir sem julgamentos ou sermões.

Acede ao site cvv.org.br, ou liga 141.


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