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Saúde

Passei 80 dias a tentar ficar com abdominais definidos e dei cabo da minha vida

Perdi 13 quilos e um quarto da minha gordura corporal e isso custou-me a minha vida social, a minha relação e qualquer alegria que me restava.

Por Graham Isador
05 Janeiro 2018, 1:36pm

Imagens de antes e depois por Nicole Bazuin.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Canadá.

Há uma certa foto de Hugh Jackman a circular na Internet. São duas imagemns, lado a lado, que comparam o físico de Jackman no primeiro filme X-Men e no último. Na primeira fotografia, o actor aparece razoavelmente musculado, com um abdómen liso. Na segunda, Jackman parece um personagem de desenho animado. Está impossivelmente em forma e o seu torso parece uma letra V desidratada.

Há comparações semelhantes com The Rock pré e pós Hollywood. Chris Evans em Quarteto Fantástico e Chris Evans em Capitão América. Até Paul Rudd - cuja carreira é baseada no seu retrato de homem descuidado - tem essas fotos de antes e depois. Em Hollywood, nas últimas décadas é comum vermos actores que passam por transformações físicas dramáticas, coincidindo directamente com a ascensão dos filmes de super-heróis na cultura pop. Cada vez mais, os protagonistas têm de se parecer com os personagens da banda desenhada. E isso está a redefinir o nosso conceito de corpo ideal e quem está ou não em forma.


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O melhor exemplo deste estado de coisas é Chris Pratt. A transformação do corpo de Pratt para Guardiões da Galáxia dominou as notícias sobre o filme: de corpo desleixado, para corpo desejado, de comediante barrigudo, para protagonista escultural e por aí fora. A narrativa repetida era a de que, antes de conseguir o seu "six pack", o corpo do actor era usado como fonte de humor. Era um secundário fora de forma e descuidado.

Se há já algum tempo não vês fotos (ou gifs) da era Parks and Recreation de Pratt, clica num dos links. Surpreendido? Apesar do que ouviste várias vezes, ele até parece bastante normal. O Pratt antes de Starlord fica melhor sem t-shirt que muitos gajos que conheço. Se é esse o padrão de tipo gordinho, o que é que isso diz sobre o resto de nós? É o suficiente para te mexer com a cabeça.

Quando era adolescente, sofria com o meu peso. Uma puberdade precoce fez com que "inchasse" para quase 100 quilos com apenas onze anos, o que me rendeu a alcunha tão hilariante como cruel de kid tits. Essas brincadeiras valeram-me um transtorno alimentar severo quando entrei de facto na adolescência. O peso tornou-se uma fixação e lembro-me claramente do dia em que deixei de ter peitos, como um dos mais felizes da minha adolescência.

Enquanto passava muito tempo a falar com terapeutas sobre a minha imagem corporal, os efeitos do meu transtorno alimentar faziam-se ver em tudo, desde o pequeno vício em refrigerantes até à capacidade perturbadora de acabar com uma embalagem de snacks independentemente do tamanho. Tudo isto complicou a minha relação com a comida e com o exercícios físico e, em momentos menos bons, ainda baseio o meu valor próprio na minha aparência sem roupa.

No início do ano passado, durante uma desventura como freelancer, caí numa espiral de consumo de vídeos fitness no YouTube. Vi horas a fio de ex-gordos a falarem sobre as alegrias dos seus novos corpos. Pseudocientistas falavam sobre comprimidos e batidos milagrosos. Vi até monólogos motivacionais dobrados às três pancadas sobre bandas sonoras de nu-metal.

A experiência deixou-me a pensar no que é realmente necessário para passar por uma transformação corporal. Estava convencido de que um abdómen definido era algo que só acontecia aos outros, mas, como acontece com o "não teres dívidas" e o "apaixonares-te", será que conseguiria lidar com o trabalho, o trabalho real, para conseguir uma barriga "six pack"? E, tendo em conta o meu passado, seria uma coisa que devia mesmo tentar?

Estas questões estiveram na minha cabeça durante meses, enquanto fazia 40 minutos numa bicicleta elíptica ou comia tacos de madrugada depois de me embebedar. Dei por mim a regressar constantemente aos vídeos de transformação corporal e comecei a procurar por dietas e conselhos de nutrição em vários sites. Quando abordava o assunto com amigos, eles hesitavam respeitosamente em relação ao que me haviam de dizer. Temiam que colocar um limite de tempo para a perda de peso e ultrapassar limites, deixar-me-ia, inevitavelmente, numa má posição.

Sugeriram-me, por isso, uma abordagem mais prática, mas a verdade é que sempre tentei uma abordagem prática durante a minha vida adulta. Já frequentava o ginásio algumas vezes por semana. Bebia batidos de proteína. Via vídeos de yoga promovidos por ex-lutadores profissionais e até testei uma coisa chamada Insanity, um programa que, pelo que entendi, promove a perda de peso com uma combinação de pensamento positivo e saltos. Não queria outra abordagem casual. Queria um sacana de um "six pack".

A aplicação My Fitness Pal.

Depois de meses em deliberação, decidi finalmente tentar uma transformação corporal. Optei pelo processo de conseguir abdominais definidos em 80 dias. Queria resultados perceptíveis nesse período de tempo, o que parece difícil, mas possível. Durante 11 semanas e meia, consegui a melhor forma da minha vida. Também consegui alienar pessoas próximas de mim, causar um grande dano na minha relação e borrar-me todo. Duas vezes. A seguir podes ler como foi a minha tentativa de 80 dias para conseguir um abdómen perfeito.

Semana 1: 95 quilos. 22,3% de gordura corporal

Para me acompanhar na transformação corporal, tive o apoio do profissional de fitness Geoff Girvitz. Girvitz é o dono da Bang Fitness, um ginásio que ajuda desde mães até lutadores profissionais a alcançarem os seus objectivos físicos. Conheço-o há bastante tempo. É paciente, sábio e espirituoso. Tipo um Mr. Miyagi escrito por Wes Anderson. Se alguém podia levar-me a atingir o meu objectivo, seria ele.

Quando o abordei com a ideia, Geoff disse-me que, em circunstâncias normais, não aceitaria tal projecto. Tal como os meus amigos, ele defende uma abordagem de longo prazo, equipando clientes com pequenos hábitos de fitness e levando, assim, a uma mudança de estilo de vida mais ampla e mais sustentável. A resposta rápida que eu queria gerava expectativas irreais. Ele disse-me que era mais provável que a coisa acabasse por resultar mais numa experiência de aprendizagem, que propriamente num "six pack". Ainda assim, Girvitz concordou em meter-me numa rotina de exercícios e num plano de dieta, desde que eu fosse honesto com ele sobre a experiência.

Quando contei a Geoff os meus antigos problemas com o corpo, ele lançou-me uma série de perguntas. “Em primeiro lugar, porque é que queres ter um abdómen definido?”. Respondi-lhe algumas frases feitas sobre dedicação e o valor de se sair da zona de conforto. "O que é que achas que pessoas com abdominais definidos têm que tu não tens?". Falei sobre o facto de querer sentir-me mais atraente e melhorar a minha vida sexual. "Estarás a usar um abdómen definido como proxy para verdadeira confiança?". Claro, provavelmente, mas toda a gente usa alguma coisa como proxy para verdadeira confiança não é? Geoff abanou a cabeça e riu-se. Depois, pediu-se para subir à balança.

A balança da Bang Fitness era metálica e brilhante, ligada a um computador rudimentar que mostrava que era algo do passado e do futuro ao mesmo tempo. Quando pisas a balança ela faz um barulho de ping. Depois, o computador mostra uma série de gráficos com o meu peso total, percentagem de gordura corporal e massa magra. Os gráficos são depois impressos como um souvenir da experiência. A pesagem no primeiro dia mostrava que eu estava com 95 quilos. A minha gordura corporal era de 22,3 por cento. Geoff conferiu os números e informou-me que os meus músculos só seriam visíveis se cortasse a minha gordura corporal pela metade. Comecei a pensar em como seria, mas distraí-me quando a balança fez outro ping.

No dia seguinte ia fazer a sessão de fotos do antes com a fotógrafa/realizadora Nicole Bazuin. Querendo fugir das fotos típicas de fitness, Bazuin sugeriu ir mais longe, acrescentando um tema. Decidi-me por snacks. Nas duas horas seguintes espalhei Doritos no meu peito. Enchi a barriga e tomei banho em refrigerante de laranja. Tentámos a pior iluminação e os piores ângulos. Era uma sessão sexy, onde o objectivo era fazer-me parecer absolutamente "não comestível".

A sessão de fotos em si foi muito divertida. Até àquele momento, em todas as fotos que tirei sempre tentei parecer bem. Encontrar poses horríveis e tentar parecer nojento foi libertador. No final, estava de bom humor. Mas, quando Nicole me deixou ver as fotos, tudo mudou. Não sei o que é que esperava, mas as imagens eram grotescas. Tentei lembrar a mim mesmo que fotos grotescas eram o objectivo, mas, por dentro, temi que tivesse cometido um erro.

Semana 3: 93 quilos. 20,5% de gordura corporal

Demorava 45 minutos para ir do meu apartamento até ao Bang Fitness. Seis dias por semana, acordava às 7h30 e rastejava com os outros passageiros matinais num autocarro lotado, depois no metro e ainda no eléctrico. Quando finalmente chegava ao ginásio, passava uma hora e meia a levantar coisas pesadas. Às vezes puxava um trenó e ficava na posição de plank até me esquecer de como era não estar nessa posição. Tudo o que consumia era passado para uma app no meu telefone, para que as minhas escolhas de o quê/quando/porquê em termos alimentares pudessem depois ser analisadas e melhoradas. O prazer que retirava de comer foi substituído por funcionalidade.

Antes de começar o projecto não sabia quanto da minha vida social girava em torno de comida ou álcool. Fora do trabalho, a maioria das minhas interacções com outros humanos aconteciam em bares ou restaurantes. Enquanto o aspecto do consumo dessas interacções geralmente é secundário, absteres-te de certas coisas - álcool não é permitido na dieta e não há também muito espaço para hidratos de carbono - é isolador de uma forma que não esperava. E isso tornou-se mais óbvio na relação com a minha namorada. Como ela também escreve, entendia a necessidade constante de criar conteúdo com que queiras trabalhar, mas não tardou a ficar desiludida com o meu projecto. Os meus novos hábitos limitavam até onde podíamos ir. Cortaram A nossa cerveja nocturna, momento em que geralmente discutíamos o nosso dia e relaxávamos. A dieta tornou cozinhar um para o outro mais difícil.


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Uma manhã, estava eu a sair da cama do apartamento da minha namorada para ir para o ginásio, quando ela me perguntou se eu achava que o projecto do "six pack" seria mais fácil se fosse solteiro. Não consegui perceber se era uma pergunta ou uma ameaça. Ela explicou que já estava feliz com a minha aparência. Disse-me que parecia stressado e cansado. Tinha dúvidas sobre se o que eu estava a fazer era saudável e perguntou-me se deveria estar preocupada. Em resposta, dei-lhe um beijo na testa. Tinha de sair. Não queria perder a consulta com o meu treinador.

Semana 5: 93 quilos. 21% de gordura corporal

Na quinta semana borrei-me todo. Aconteceu sem aviso. Estava a levar a minha roupa lavada para casa - ir ao ginásio seis dias por semana, significa que tens de lavar roupa constantemente - e, do nada, a coisa saiu de mim. Sem explosão. Sem som. A "pepita" solitária deslizou do meu ânus e depositou-se nas minhas calças. Ao caminhar o meio quarteirão que faltava até ao apartamento, tentei entender que parte da nova dieta poderia ter causado isto. Seria a couve? A proteína adicional? O stress? Também comecei a pensar se defecar nas calças era parte de uma jornada normal para ter um abdómen perfeito. Talvez fosse uma tendência que pudesse vender às massas. Emagrece a Cagar. Como perder peso perdendo o controlo do intestino.

Enquanto tentava fazer piadas com a situação, a vergonha que senti foi compartimentada pelo facto de que a minha última pesagem não tinha corrido bem. Tinha ganho gordura corporal. Nas transformações do YouTube, ganhar gordura corporal era resultado de um erro: algumas noites a beber demasiado, um evento do trabalho do qual não podes fugir, ou uma mentalidade de "que se foda" depois de comer uma pizza inteira. Mas, não tinha cometido nenhum erro. Nada que fosse assim tão óbvio. Não deixei de "malhar", estava a tomar as vitaminas e o mais perto que cheguei de um acto de indulgência resumiu-se ao consumo de alguns mini biscoitos de gengibre. Estava a esforçar-me ao máximo. Em retorno tinha perdido apenas 1,8 quilo.

Semana 7: 92 quilos. 19,4% de gordura corporal

Durante a experiência, Geoff e eu fazíamos consultas semanais. Desenvolvemos um guião. Ele via os gráficos da balança, enquanto eu fazia piadas sobre como mataria alguém para beber uma cidra, como sentia mais falta de pão que de certos familiares mortos, ou como os agachamentos faziam as minhas pernas tentarem violentamente emanciparem-se do meu corpo. O tom dos encontros era amigável e jovial. Mas, a meio do projecto as coisas deram uma volta. Entrei no escritório para a nossa reunião semanal. Suado e sem fôlego, depois de fazer exercícios de remo, caí na cadeira e tenter fazer uma piada. Geoff estava quieto. Fechou a porta atrás dele e começou.

Começamos com as boas notícias. Separado do contexto do desafio, o progresso que eu tinha feito era óptimo. Geoff aplaudiu as mudanças de dieta que implementei e a minha consistência no exercício. Disse que admirava a minha curiosidade e capacidade de me desafiar. Depois, partiu para a parte mais difícil. Se queria conseguir músculos visíveis no tempo previsto, estava atrasado. Geoff pegou na aplicação de comida e apontou as inconsistências (“Achas que esta experiência tem espaço para a indulgência calórica de grãos de proteína com cacau?”).Realçou o quão miserável eu parecia estar nas últimas semanas e perguntou-me se sentir-me assim tão mal valia a pena. Disse-me que não fazia mal desistir.

Expliquei-lhe, o melhor que pude, que desistir não era opção. Como freelancer a investir neste projecto há dois meses, desistir seria financeiramente desastroso. Disse-lhe que, se desistisse agora, as fotos do antes assombrar-me-iam sempre que tentasse fazer exercício. Passei por toda a lista de sacrifícios idiotas que já tinha feito por causa desta maldita experiência do "six pack" e disse a Geoff que todo este sacrifício tinha de valer de alguma coisa.

Ele lembrou-me que as circunstâncias que eu tinha colocado a mim próprio não eram normais e fez eco dos seus primeiros comentários sobre como transformações corporais dão uma perspectiva errónea do que realmente é preciso para ficar em forma. Depois, perguntou-me outra vez: “Porque é que, afinal de contas, queres abdominais definidos?”.

Não tinha uma boa resposta. Se perder peso deveria deixar-me feliz, não estava a funcionar. Se deveria melhorar a minha vida sexual, não deveria afastar-me da minha parceira. Toda a confiança que tinha conquistado foi instantaneamente anulada quando me borrei nas calças. Não sabia o que estava à espera de alcançar com isto. Só sabia que, seja lá por que razão, tinha de ir até ao fim.

Depois da reunião, Geoff e eu fizemos reset e começámos a planear os próximos passos. Ele não sabia se o "six pack" era possível naquele ponto, mas, se duplicasse os meus esforços, poderia, pelo menos, ver um resultado real. Foi depois dessa conversa que comecei a pesar a minha comida. E também comecei a ir ao ginásio duas vezes por dia.

Semana 9: 90 quilos. 18,1% de gordura corporal

De manhã tinha a minha rotina de puxar ferro no Bang. Depois, passava as noites na máquina de escada rolante, a subir durante horas sem sair do sítio. Sentia-me como Sísifo. A escada rolante ficava num ginásio de um shopping decadente. Para lá chegar, passava por duas lojas de donuts e um McDonalds. No dia em que fiz a minha matrícula, o ginásio estava a oferecer pizza.

Toda a minha comida vinha agora de um serviço especializado de entrega para atletas. Às quartas e domingos entregavam pequenas caixas de plástico com carne e vegetais verdes, cujos nomes não conseguia pronunciar. Era tudo tão bom como parece.


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O projecto "six pack" tinha-se tornado uma característica definidora na minha vida. A minha agenda era ditada pelas idas ao ginásio e pelos momentos de comer. A minha vida social estava em pausa, fora algumas noites em que visitava a minha namorada. Ainda assim, entre o cumprimento do meu plano e os prazos de entrega de trabalhos dela, até esses encontros foram escasseando. Sentia-me sozinho. Estava sempre com fome e irritado. Mas, o novo plano estava a funcionar. Pela primeira vez na vida pesei menos de 90 quilos. Os meus pneuzinhos estavam a começar a encolher e conseguia ver estrias a formarem-se nas áreas onde antes carregavai mais peso. Geoff estava a encorajar-me muito pelos avanços. Disse que eu estava finalmente a entender o esforço exigido para se ter um abdómen perfeito.

Um dia, depois da meia-noite no ginásio do shopping, estava sozinho no balneário. Tomei banho e fiquei nu em frente ao espelho por alguns minutos. Foi a primeira vez desde que comecei o projecto que realmente me observei. Depois de todo o esforço - e foi muito esforço -, o que via era um homem moderadamente em forma. Fiquei desapontado. Virei-me de lado, murchei a barriga e procurei as costelas da mesma forma que fazia depois de vomitar uma refeição. Na parede roxa atrás do espelho lia-se uma frase gigante: Área Livre de Julgamento.

Semana 10: 84 quilos. 17,2% de gordura corporal

Na décima semana borrei-me outra vez. Para os últimos dias do projecto, Geoff recomendou-me a um médico que trabalha principalmente com culturistas. Ao telefone, o médico passou-me os detalhes do meu novo plano de dieta. Que consistia principalmente em peito de frango, espinafres e medo. Para energia tinha que tomar uma mistura de aspirina, efedrina e comprimidos de cafeína. Tinha que continuar a "malhar" duas vezes por dia e comecei a pesar-me diariamente para ver os progressos.

No segundo dia do novo programa, animado com a mistura de efedrina e um batido de pó de proteína e folhas verdes, fui ao ginásio para fazer agachamentos. Com uma barra pesada nas costas, descia o mais perto do chão que pudesse. Enquanto a primeira vez foi como um suspiro pela boca, este "descuido" veio como um grito molhado. Conseguia sentir-lhe o cheiro enquanto me levantava para terminar o exercício. Corri para o balneário e tomei banho.

O novo plano de dieta tinha menos de 1300 calorias por dia. Mesmo comendo bastante (250 gramas de proteína e menos de 30 gramas de hidratos de carbono nas últimas duas semanas), parecia um tipo diferente de transtorno alimentar. Inicialmente, o plano que comecei com o Bang, assim como o ritmo, era difícil mas fazível. Esforçar-me ainda mais para conseguir resultados rápido parecia um tipo socialmente aceite da minha doença. No dia em que me borrei também postei uma foto no ginásio nas redes sociais. O meu telefone ganhou vida com inúmeras validações. As pessoas diziam-me que eu estava óptimo. E isso fez-me sentir bem.

Imagem por Geoff Girvitz.

Semana 11: 82 quilos. 15% de gordura corporal

Na última semana do projecto tinha perdido 13 quilos e cortado a minha gordura corporal para um terço. Ainda não estava nem perto de ter um "six pack". Nos últimos dias antes da sessão de fotos tive problemas para dormir. Em vez de descansar, comecei a mexer no telefone e acabei por me deparar com os vídeos do YouTube que deram início ao meu fascínio por transformações corporais.

Tentei ver alguns vídeos diferentes antes de desligar o telemóvel e ficar deitado no escuro. Pensei na inevitável secção de comentários que acompanharia este artigo. Fiquei a pensar nos trolls a gozarem com a minha aparência e comentadores de sofá a dizerem-me que poderia ter feito melhor. Pensei na equipa do Bang que me tinha ajudado no projecto e fiquei preocupado que a falta de abdominais pudesse reflectir-se negativamente para eles. Não tinha nada de positivo para dizer sobre imagem corporal ou sobre ficar em forma. O projecto começou difícil e continuou difícil até ao final. No fim não consegui atingir os meus objectivos e não achava que tivesse valido a pena.

Na minha última reunião com Geoff ele perguntou-me se eu tinha conseguido o que queria. Tentei fazer uma cara de satisfação, mas acabei por expressar a minha sensação negativa. Comecei a falar sobre os media e os seus falsos retratos de tipos de corpos e chamei filho da puta a Chris Pratt. Geoff riu-se e deu-me um conselho: "As pessoas acham que transformações corporais são uma bala de prata para curar a infelicidade, mas não são. Mas, mesmo sem o 'six pack', perder tanta gordura corporal é algo que muita gente tenta mas nunca consegue". Eu tinha conseguido muitas melhorias. Devia comemorar. Enquanto saía do escritório, Geoff deu-me uma palmadinha nas costas e uma cookie de proteína. Disse que eu tinha merecido.

No dia seguinte era a sessão de fotos do depois. Nicole, a nossa fotógrafa, fez tudo o que podia para que eu estivesse na minha melhor aparência. Para contrastar com as fotos do antes, ela trouxe vários vegetais para eu posar com eles. Antes de o assistente de iluminação montar os seus equipamentos, comeu um mega hamburger e um Kit Kat gigante. Com o cheiro de fast food no ar, fiz abdominais e tentei focar-me no conselho de Geoff. Para o bem ou para o mal, dentro de uma hora o projecto estaria terminado. Finalmente, depois de algum tempo, estávamos prontos para começar. Só de cuecas, flexionei os meus músculos e o flash da câmera disparou. Olhei para as fotos de teste. Estavam boas. Senti-me bem.

Fotos de antes e depois por Nicole Bazuin.


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