Passei 80 dias tentando conseguir um tanquinho e fodi com a minha vida
Imagens de antes e depois por Nicole Bazuin.
Saúde

Passei 80 dias tentando conseguir um tanquinho e fodi com a minha vida

Perdi 13 quilos e um quarto da minha gordura corporal e isso custou minha vida social, meu relacionamento e qualquer alegria que eu tinha.
4.1.18

Matéria originalmente publicada na VICE Canadá.

Tem uma foto do Hugh Jackman circulando na internet. É uma imagem lado a lado comparando o físico de Jackman no primeiro filme X-Men e no último da franquia. Na primeira foto, o ator está razoavelmente musculoso com um abdômen liso. Na segunda, Jackman parece um personagem de desenho animado. Ele está impossivelmente veiudo e seu torso parece uma letra V desidratada. Há comparações similares com The Rock pré e pós Hollywood. Chris Evans em Quarteto Fantástico e Chris Evans em Capitão América. Até o Paul Rudd — cuja carreira é baseada no seu retrato de um homem descuidado — tem essas fotos de antes e depois. Em Hollywood, atores que passam por transformações físicas dramáticas é algo comum nas últimas décadas, coincidindo diretamente com a ascensão dos filmes de super-herói na cultura pop. Os protagonistas cada vez mais precisam parecer os personagens dos quadrinhos. E isso está redefinindo nosso conceito de corpo ideal e quem está ou não em forma.

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O melhor exemplo disso é Chris Pratt. A transformação do corpo de Pratt para Guardiões da Galáxia dominou as notícias sobre o filme: de corpo de paizão para corpo gostosão, de comediante pançudo para protagonista esculpido, etc. A narrativa repetida era que antes de ele conseguir seu tanquinho, o corpo do ator era usado como piada. Ele era um ajudante fora de forma e descuidado. Se faz tempo que você não vê fotos (ou gifs) da era Parks and Recreation de Pratt, clique em um dos links. Surpreso? Apesar do que te disseram várias vezes, ele parece bem normal. O Pratt antes do Starlord fica melhor sem camisa que muitos caras que conheço. Se esse é o padrão de cara gordinho, o que isso diz sobre o resto de nós? É o suficiente para mexer com a sua cabeça.

Quando era adolescente, eu sofria com o meu peso. Uma puberdade precoce me inchou para 100 quilos com onze anos, o que me rendeu o apelido hilário e cruel ki d tits. Essas brincadeiras me deixaram com um transtorno alimentar severo quando entrei de fato na adolescência. O peso se tornou uma fixação e lembro claramente do dia em que deixei de ter peitos como um dos mais felizes da minha adolescência. Enquanto eu passava muito tempo falando com terapeutas sobre minha imagem corporal, os efeitos do meu transtorno alimentar se mostravam em tudo, desde meu pequeno vício em refrigerante até na minha habilidade perturbadora de acabar com um saco de salgadinho independente do tamanho. Essa base complicou meu relacionamento com comida e exercícios, e em momentos ruins eu ainda baseio meu valor próprio em como pareço nu.

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No começo do ano passado, durante uma desventura como freelance, caí numa espiral de vídeos fitness no YouTube. Assisti horas de ex-gordos falando sobre as alegrias de seus novos corpos. Pseudocientistas falavam sobre pílulas e shakes milagrosos. Até assisti monólogos motivacionais dublados toscamente sobre trilhas sonoras de nu-metal. A experiência me deixou imaginando o que é realmente necessário para passar por uma transformação corporal. Eu estava convencido de que um abdômen definido era algo que só acontecia com os outros, mas como com não ter dívidas e se apaixonar, será que eu conseguiria lidar com o trabalho, o trabalho real, para conseguir uma barriga tanquinho? E considerando meu passado, essa era uma coisa que eu devia mesmo tentar?

Essas questões ficaram na minha cabeça por meses enquanto eu fazia quarenta minutos meia-boca numa bicicleta elíptica ou comia tacos de madrugada depois de encher a cara. Me vi voltando sempre para os vídeos de transformação corporal e comecei a procurar em sites por dietas e conselhos de nutrição. Quando abordava o assunto com amigos, eles hesitavam respeitosamente. Eles temiam que colocar uma janela de tempo em perda de peso e ultrapassar limites inevitavelmente me deixaria numa posição ruim. Eles sugeriram uma abordagem mais prática, mas a verdade é que sempre tentei uma abordagem prática durante minha vida adulta. Eu já frequentava a academia algumas vezes por semana. Eu bebia shakes de proteína. Baixava vídeos de ioga promovidos por ex-lutadores profissionais e até testei uma coisa chamada Insanity, um programa que, pelo que entendi, promove perda de peso com uma combinação de pensamento positivo e ficar pulando. Eu não queria outra abordagem casual. Eu queria uma porra de um tanquinho.

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O aplicativo My Fitness Pal.

Depois de meses deliberando, finalmente decidi tentar uma transformação corporal. Decidi pelo processo de conseguir um tanquinho em oitenta dias. Eu queria resultados perceptíveis nesse período de tempo, o que parece difícil mas possível. Durante onze semanas e meia, consegui entrar na melhor forma da minha vida. Também consegui alienar pessoas próximas de mim, causar um grande dano no meu relacionamento e me cagar. Duas vezes. A seguir você lê minha tentativa de oitenta dias de conseguir um abdômen definido:

Semana 1: 95 quilos. 22,3% de gordura corporal.

Para me acompanhar na minha transformação corporal, o profissional fitness Geoff Girvitz me acompanhou. Girvitz é o dono da Bang Fitness, uma academia que ajuda desde mães até lutadores profissionais a alcançarem seus objetivos físicos. Conheço o Geoff há bastante tempo. Ele é paciente, sábio e espirituoso. Tipo um Sr. Miyagi escrito pelo Wes Anderson. Se alguém podia me levar até meu objetivo era ele.

Quando abordei o Geoff com a ideia, ele me disse que em circunstâncias normais não aceitaria esse projeto. Como meus amigos, ele defendia uma abordagem de longo prazo, equipando clientes com pequenos hábitos fitness, e levando a uma mudança de estilo de vida maior e mais sustentável. A resposta rápida que eu queria gerava expectativas irreais. Ele me disse que era mais provável isso resultar numa experiência de aprendizado que num tanquinho. Ainda assim, Girvitz concordou em me colocar numa rotina de exercícios e num plano de dieta, desde que eu fosse honesto com ele sobre a experiência.

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Quando contei a Geoff meus antigos problemas com meu corpo, ele lançou uma série de perguntas. “Por que você quer ter um abdômen definido em primeiro lugar?” Respondi algumas frases ensaiadas sobre dedicação e o valor de sair da sua zona de conforto. O que eu achava que pessoas com tanquinho tinham que eu não tinha? Falei sobre querer me sentir mais atraente e melhorar minha vida sexual. Eu estava usando um abdômen definido como proxy para confiança de verdade? Claro, provavelmente, mas todo mundo usa alguma coisa como proxy para confiança de verdade, né? Geoff balançou a cabeça e riu. Depois me pediu para subir na balança.

A balança da Bang Fitness era metálica e brilhante, ligada a um computador rudimentar que mostrava que ela era do passado e do futuro ao mesmo tempo. Quando você pisa na balança ela faz um barulho de ping. O computador então mostra uma série de gráficos com meu peso total, porcentagem de gordura corporal e massa magra. Os gráficos então são impressos como um suvenir da experiência. Minha pesagem no primeiro dia mostrava que eu estava com 95 quilos. Minha gordura corporal era de 22,3%. Geoff conferiu os números, me informando que meus músculos só seriam visíveis se eu cortasse minha gordura corporal pela metade. Comecei a pensar em como seria, mas me distraí quando a balança fez outro ping.

No dia seguinte eu ia fazer a sessão de fotos do antes com a fotógrafa/diretora Nicole Bazuin. Querendo fugir das fotos típicas de fitness, Bazuin sugeriu ir mais longe acrescentando um tema. Decidi por salgadinhos. Nas duas horas seguintes eu joguei Doritos no meu peito. Inflei minha barriga e tomei banho de refrigerante de laranja. Achamos a pior iluminação e os piores ângulos. Era uma sessão sexy onde o objetivo era me fazer parecer incomível. A sessão de fotos em si foi muito divertida. Até aquele momento, em todas as fotos que tirei sempre tentei parecer bem. Achar posturas horríveis e tentar parecer nojento foi libertador. Encerrando a coisa toda eu estava de bom humor. Mas quando Nicole me deixou ver as fotos, tudo mudou. Não sei o que eu esperava, mas as imagens eram grotescas. Tentei lembrar a mim mesmo que fotos grotescas eram o objetivo, mas por dentro temi que tivesse cometido um erro.

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Semana 3: 93 quilos. 20,5% de gordura corporal.

Eu levava quarenta e cinco minutos para ir do meu apartamento até a Bang Fitness. Seis dias por semana, eu acordava às 7h30 e rastejava com os outros passageiros matinais num ônibus lotado, depois no metrô e aí num bonde. Quando finalmente chegava à academia, eu passava uma hora e meia levantando coisas pesadas. As vezes puxando um trenó e ficando na posição de plank até esquecer como era não estar nessa posição. Tudo que eu consumia era jogado num aplicativo no meu celular, para que minhas escolhas de o quê/quando/por que de alimentação pudessem ser analisadas depois e melhoradas. O prazer que eu tirava de comer foi substituído por funcionalidade.

Antes de começar o projeto eu não sabia quanto da minha vida social girava em torno de comida ou álcool. Fora do trabalho, a maioria das minhas interações com outros humanos eram em bares ou restaurantes. Enquanto o aspecto do consumo dessas interações geralmente é secundário, se abster de certas coisas — álcool não é permitido na dieta e ela não dá muito espaço para carboidratos — é isolador de um jeito que eu não esperava. E isso ficou mais aparente com a minha namorada. Como ela também escreve, ela entendia a necessidade constante de criar conteúdo com que você quer trabalhar, mas logo ficou desiludida com meu projeto. Meus novos hábitos limitavam onde podíamos ir. Eles cortaram nossa cerveja noturna, quando geralmente discutíamos nosso dia e relaxávamos. A dieta tornou cozinhar um para o outro mais difícil.

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Uma manhã eu estava saindo da cama do apartamento da minha namorada, vestindo um suéter para ir para a academia, quando ela perguntou se eu achava que o projeto do tanquinho seria mais fácil se eu fosse solteiro. Não consegui saber se ela estava fazendo uma pergunta ou uma ameaça. Ela explicou que já estava feliz com a minha aparência. Ela disse que eu parecia estressado e cansado. Ela imaginava se o que eu estava fazendo era saudável e perguntou se deveria se preocupar. Em resposta, dei um beijo na testa dela. Eu precisava ir. Eu não queria perder a consulta com meu treinador.

Semana 5: 93 quilos. 21% de gordura corporal.

Na quinta semana eu me caguei. Aconteceu sem aviso. Eu estava carregando minha roupa lavada para casa — ir para a academia seis dias por semana significa que você está constantemente lavando roupa — e do nada a coisa saiu de mim. Sem explosão. Sem som. A pepita solitária deslizou do meu ânus e se depositou na minha calça. Andando o meio quarteirão que faltava até meu apartamento, tentei entender que parte da nova dieta poderia ter causado isso. Seria a couve-de-folhas? A proteína adicional? O stress? Também fiquei imaginando se cagar na calça era parte de uma jornada normal para ter um tanquinho. Talvez fosse uma tendência que eu pudesse vender para as massas. Emagreça Cagando. Como perder peso perdendo o controle do seu intestino.

Enquanto eu tentava fazer piada com a coisa toda, a vergonha que senti me cagando foi compartimentada pelo fato de que minha última pesagem não tinha ido bem. Eu tinha ganhado gordura corporal. Nas transformações do YouTube, ganhar gordura corporal era resultado de um erro: algumas noites bebendo demais, um evento do trabalho do qual você não pode fugir, ou uma mentalidade de foda-se depois de comer uma pizza inteira. Mas eu não tinha cometido nenhum erro. Nada que fosse assim tão óbvio. Não deixei de malhar, eu estava tomando vitaminas, e o mais perto que cheguei de indulgência foram alguns minibiscoitos de gengibre. Eu estava me esforçando o máximo. E em retorno tinha perdido só 1,8 quilo.

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Semana 7: 92 quilos. 19,4% de gordura corporal.

Durante o experimento, Geoff e eu fazíamos consultas semanais. Desenvolvemos um roteiro. Ele olhava os gráficos da balança enquanto eu fazia piada sobre como mataria alguém para tomar uma cidra, como sentia mais falta de pão que de certos parentes mortos, ou como agachamentos faziam minhas pernas tentarem violentamente se emancipar do meu corpo. O tom dos encontros era amistoso e jovial. Mas no meio do projeto as coisas deram uma guinada. Entrei no escritório para nossa reunião semanal. Suado e sem fôlego depois de fazer exercícios de remo, desabando na cadeira e tentando fazer uma piada. Geoff estava quieto. Ele fechou a porta atrás dele e começou.

Começamos com as boas notícias. Separado do contexto do desafio, o progresso que eu tinha feito era ótimo. Geoff aplaudiu as mudanças de dieta que implementei e minha consistência na malhação. Ele disse que admirava minha curiosidade e capacidade de me desafiar. Aí ele partiu para a parte mais difícil. Se eu queria conseguir músculos visíveis no tempo previsto, eu estava atrasado. Geoff pegou o aplicativo de comida e apontou as inconsistências (“Você acha que esse experimento tem lugar para a indulgência calórica de grãos de proteína com cacau?”) Ele apontou como eu parecia miserável nas últimas semanas e perguntou se me sentir tão mal assim valia a pena. Ele disse que era OK desistir.

Expliquei, o melhor que pude, que desistir não era uma opção. Como um freelance investindo nesse projeto por dois meses, desistir seria financeiramente desastroso. Eu disse a ele que se desistisse agora, as fotos do antes me assombrariam toda vez que eu tentasse malhar. Passei por toda a lista de sacrifícios idiotas que eu já tinha feito por esse maldito experimento do tanquinho e disse ao Geoff que todo esse sacrifício tinha que valer de alguma coisa.

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Geoff me lembrou que as circunstâncias que eu tinha colocado para mim não eram normais e ecoou seus primeiros comentários sobre como transformações corporais dão uma perspectiva torta do que realmente é preciso para entrar em forma. Aí ele me perguntou de novo: “Por que você quer um tanquinho afinal de contas?”

Eu não tinha uma boa resposta. Se perder peso deveria me deixar feliz, não estava funcionando. Se deveria melhorar minha vida sexual, não deveria me afastar da minha parceira. Toda confiança que eu tinha ganhado foi anulada instantaneamente quando me caguei. Eu não sabia o que esperava alcançar com isso. Eu só sabia que, seja lá por qual razão, eu precisava ir até o fim.

Depois da reunião, Geoff e eu resetamos e começamos a planejar os próximos passos. Ele não sabia se o tanquinho era possível naquele ponto, mas se dobrasse meus esforços eu poderia ver um resultado real. Foi depois dessa conversa que comecei a pesar minha comida. E também começar a ir para a academia duas vezes por dia.

Semana 9: 90 quilos. 18,1% de gordura corporal.

De manhã eu tinha minha rotina de puxar ferro na Bang. Aí eu passava minhas noites na máquina de escada rolante, subindo por horas sem sair do lugar. Eu me sentia como Sísifo. A escada rolante ficava numa academia de um shopping decadente. Para chegar na academia eu passava por duas lojas de donuts e um McDonalds. No dia em que fiz minha matrícula, a academia estava dando pizza.

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Toda minha comida agora vinha de um serviço especializado de entrega para atletas. Nas quartas e domingos eles entregavam pequenos contêineres de plástico com carne e vegetais verdes que eu não conseguia pronunciar o nome. Era tudo tão gostoso quanto parece.

O projeto tanquinho tinha se tornado uma característica definidora na minha vida. Minha agenda era ditada por quando ir à academia e quando comer. Minha vida social estava pausada, fora algumas noites em que eu visitava minha namorada. Apesar de que entre a regimentação do meu plano e os prazos de entrega dela, mesmo esses encontros foram rareando. Eu me sentia sozinho. Eu estava com fome e irritado o tempo todo. Mas o novo plano estava funcionando. Pela primeira vez na vida pesei menos de 90 quilos. Meus pneuzinhos estavam começando a encolher e eu conseguia ver estrias se formando nas áreas onde eu carreguei mais peso. Geoff estava me encorajando muito pelos avanços. Ele disse que eu estava finalmente entendendo o esforço exigido para se ter um tanquinho.

Um dia, depois da meia-noite na academia do shopping, eu estava sozinho no vestiário. Tomei banho e fiquei pelado na frente do espelho por alguns minutos. Foi a primeira vez desde que comecei o projeto que realmente me observei. Depois de todo o esforço, e foi muito esforço, o que olhava de volta para mim era um homem moderadamente em forma. Fiquei desapontado. Virei de lado murchei a barriga, procurando as costelas do mesmo jeito que eu fazia depois de vomitar uma refeição. Na parede roxa atrás do espelho tinha um estêncil gigante dizendo Área Livre de Julgamento.

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Semana 10: 84 quilos. 17,2% de gordura corporal.

Na décima semana me caguei de novo. Para os últimos dias do projeto tanquinho, Geoff me mandou para um médico que trabalha principalmente com fisiculturistas. Pelo telefone, o médico me passou os detalhes do meu novo plano de dieta. Que consistia principalmente de peito de frango, espinafre e medo. Para energia eu tinha que tomar uma mistura de aspirina, efedrina e pílulas de cafeína. Eu tinha que continuar malhando duas vezes por dia e comecei a me pesar diariamente para ver meu progresso.

No segundo dia do novo programa, animado com a mistura de efedrina e um shake de pó de proteína e folhas verdes, fui para a academia fazer agachamentos. Com uma barra pesada nas costas, eu descia o mais perto do chão que pudesse. Enquanto a primeira cagada foi como um suspiro pela boca, essa merda veio como um grito molhado. Eu conseguia sentir o cheiro enquanto levantava para terminar o exercício. Corri para o vestiário e tomei banho.

O novo plano de dieta fechava em menos de 1300 calorias por dia. Mesmo comendo bastante (250 gramas de proteína e menos de 30 gramas de carboidratos pelas últimas duas semanas) a regimentação parecia um tipo diferente de transtorno alimentar. Inicialmente, o plano que comecei com a Bang, assim como o ritmo, era difícil mas fazível. Me esforçar ainda mais para conseguir resultados rápido parecia um tipo socialmente aceito da minha doença. No dia em que me caguei também postei uma foto na academia nas redes sociais. Meu celular ganhou vida com validações. As pessoas me diziam que eu estava ótimo. E isso me fez sentir bem.

Imagem por Geoff Girvitz.

Semana 11: 82 quilos. 15% de gordura corporal.

Na última semana do projeto eu tinha perdido 13 quilos e cortado minha gordura corporal pra um terço. Eu ainda não estava nem perto de ter um tanquinho. Nos últimos dias antes da sessão de fotos tive problemas para dormir. Em vez de descansar, comecei a mexer no celular e acabei topando com os vídeos do YouTube que começaram minha fascinação com transformações corporais. Tentei assistir alguns vídeos diferentes antes de desligar meu celular e ficar deitado lá no escuro. Pensei na inevitável seção de comentários que acompanharia esta matéria. Fiquei pensando nos trolls tirando sarro da minha aparência e comentaristas de sofá me dizendo que eu poderia ter feito melhor. Pensei na equipe da Bang que tinha me ajudado no projeto e fiquei preocupado que a falta de um tanquinho pudesse refletir mal para eles. Eu não tinha nada de positivo para dizer sobre imagem corporal ou entrar em forma. O projeto começou difícil e continuou difícil até o final. No final não consegui atingir meus objetivos e não achava que tinha valido a pena.

Na minha última reunião com o Geoff ele me perguntou se eu tinha conseguido o que queria com o projeto. Tentei fazer uma cara contente mas acabei derramando minha negatividade. Comecei a dar um piti sobre a mídia e seus retratos falsos de tipos de corpos e chamei Chris Pratt de filho da puta. Geoff riu e me deu um conselho: As pessoas acham que transformações corporais são uma bala de prata para curar a infelicidade, mas não são. Mas mesmo sem o tanquinho, perder tanta gordura corporal é algo que muita gente fala mas nunca faz. Eu tinha conseguido muitas melhoras. Eu devia comemorar isso. Enquanto eu saía do escritório, Geoff me deu um tapinhas nas costas e um cookie de proteína. Ele disse que eu tinha merecido.

O dia seguinte era a sessão de fotos do depois. Nicole, nossa fotógrafa, fez tudo que pode para que eu estivesse na minha melhor aparência. Para contrastar com as fotos do antes, ela trouxe vários vegetais para que eu posasse com eles. Antes de o assistente de iluminação montar seus equipamentos, ele comeu um Quarteirão e um Kit Kat extragrande. Com o cheiro de fast food no ar, fiz abdominais e tentei me focar no conselho de Geoff. Para o bem ou para o mal, em uma hora o projeto estaria acabado. Finalmente, depois de um tempo, estávamos prontos para começar. Só de cueca, flexionei meus músculos e o flash da câmera disparou. Olhei para as fotos de teste. Estavam boas. Eu me senti OK.

Fotos de antes e depois por Nicole Bazuin.

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