Feminisme

A bailarina polonesa que atirou em nazistas no caminho para a câmara de gás

O ato de resistência de Franceska Mann em Auschwitz se tornou uma lenda do Holocausto.
9.1.18
Foto de Franceska Mann via Wikimedia Commons; fotos de líderes do partido nazista cortesia do US National Archives and Records Administration.

Matéria originalmente publicada no Broadly .

O que você faria diante da morte certa? Aceitaria seu destino ou lutaria até o último suspiro? Para Franceska Mann, ou Franciszka Mannówna, um dançaria judia polonesa a caminho da câmara de gás de Auschwitz, a resposta veio fácil.

Franceska Mann foi uma linda e talentosa dançarina que participou de vários espetáculos e competições de prestígio, incluindo a Competição Internacional de Dança de Bruxelas de maio de 1939, na qual ela ficou em quarto lugar. Ela dançava regularmente no clube noturno Melody Palace em Varsóvia antes do começo da Segunda Guerra Mundial e sua prisão no Gueto de Varsóvia. Em 1943, ela foi transportada para fora da Polônia, possivelmente em conexão com o Caso Hotel Polski, onde judeus que esperavam escapar para a América do Sul com passaportes estrangeiros foram enganados e mandados para Auschwitz.

Segundo relatos, os envolvidos disseram aos judeus que eles tinham chegado a Bergau para serem desinfetados antes de cruzar a fronteira para a Suíça, até serem levados para um vestiário ao lado da câmara de gás. Há muitas variações da história de Franceska Mann, mas talvez a mais sensacional seja a contada pela historiadora do Holocausto Cynthia Southern. Enquanto se despia, Mann teria seduzido dois guardas com um striptease, ao levantar sua saia para expor suas coxas para Josef Schillinger e Wilhelm Emmerich, e tirado sedutoramente a blusa.

Então ela rapidamente chutou um sapato na testa de Schllinger, antes de puxar a arma dele e disparar dois tiros fatais no estômago do soldado e outro na perna de Emmerich. As outras mulheres no vestiário se juntaram à revolta, mas nenhuma conseguiu escapar.

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Quando o usuário do Twitter @xnulz escreveu “Diga uma mina mais foda que Taylor Swift” em novembro de 2017, não foi surpresa quando essa versão da crônica de Franceska Mann, tuitada por @moviehistories, tenha ficado entre as mais populares (mais de 35 mil RTs e contando) em uma inundação de respostas celebrando heroínas muitos mais impressionantes da história. Mas quanto desse relato é corroborado com provas reais? Para ter uma imagem mais clara, falei com um dos maiores especialistas em Holocausto: o escritor, professor e historiador Dr. Robert Jan van Pelt.

“É muito difícil estabelecer a verdade sobre o que aconteceu naquele vestiário em uma data de outubro de 1943. A linha de provas é muito tênue”, ele me disse. “Sabemos que uma revolta aconteceu na chegada do transporte, porque um documento alemão de dezembro de 1943 diz que dois homens da SS que ajudaram a controlar a revolta, Rudolf Grimm e Fritz Lackner, receberam uma medalha por isso. Mas o documento não descreve a natureza da revolta, ou qualquer outro detalhe.”

Segundo o Dr. van Pelt há três relatos-chave a se considerar: O fugitivo de Auschwitz “Jerzy Wesoloski (ou “Tabeau”) descreve o incidente no relatório que escreveu depois da fuga. O relatório foi publicado como parte dos Protocolos de Auschwitz no final de 1944 pelo Comitê de Refugiados de Guerra. Os pontos-chave do relatório são que as mulheres se defenderam, e um certo soldado da SS chamado 'Schiller' morreu. A mulher que disparou o revólver não foi identificada.

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“Rudolf Höss mencionou o incidente em uma declaração de 14 de março de 1946 — logo depois de ser capturados pelos britânicos. Ele sugere que quem se revoltou foram as mulheres, mas não dá detalhes. Em abril de 1945, Stanislaw Jankowski deu um depoimento na Polônia mencionando que uma mulher teria roubado um revólver de [Walter] Quackernack [um guarda nazista que vigiava o crematório] e atirado em Schillinger.”

Crianças sobreviventes de Auschwitz. Foto via Wikimedia Commons

Apesar de não podermos identificar de maneira conclusiva que a mulher em questão era Franceska Mann, saber que ela era dançarina torna a história mais plausível. “A ideia de que a mulher podia ser uma dançarina, até onde eu sei, foi mencionada pela primeira vez em 1946 por Eugen Kogon [sobrevivente do Holocausto e historiador], que não estava em Auschwitz mas em Buchenwald”, acrescenta o Dr. Van Pelt.

Mesmo sendo difícil peneirar os fatos, sabemos que um incrível ato de resistência aconteceu naquele dia, por uma mulher que teve a coragem de contra-atacar. Como o sobrevivente de Auschwitz Wieslaw Kielar diz em seu livro de memórias, Anus Mundi: Five Years em Auschwitz: “O incidente foi passado de boca a boca e logo se tornou uma lenda. Sem dúvida, esse ato heroico de uma mulher fraca diante da morte deu apoio moral para cada prisioneiro. Percebemos que se ousássemos levantar a mão contra eles, essa mão poderia matar; eles também eram mortais”.

Como todas as grandes lendas, a história de Mann viveu na ficção. O romance de 1964 de Arnošt Lustig A Prayer for Katerina Horovitzova — adaptado num filme em 1965 — se centra numa jovem dançarina feita refém pelas autoridades alemãs durante a guerra na Itália. Percebendo que vai morrer no final, ela atira em seus captores na porta da câmara de gás. O romance do sobrevivente de Auschwitz Tadeusz Borowski This Way for the Gas, Ladies and Gentlemen inclui o conto The Death of Schillinger, onde um guarda é enganado por uma mulher atraente que atira nele com sua própria arma.

Fato ou ficção, você não tem nada mais foda que isso.

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