Sexo

Como é fazer sexo quando sofres de perda auditiva

Consegui abraçar as minhas limitações de audição ao erotizá-las.

Por Anna Pulley; Traduzido por Madalena Maltez
21 Junho 2019, 9:26am

Ilustração por Koji Yamamoto.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Nestes 15 anos que levo a tentar viver com aparelho auditivo, já consultei uma dezena de médicos, otorrinolaringologistas e fonoaudiólogos. Em todos esses encontros, zero deles abordaram o tema de como fazer sexo quando se usa um aparelho auditivo. Quando decidi perguntar, a resposta geral que recebi pareceu-me demasiado simples e nada satisfatória: basta tirar o aparelho.

Fora dos consultórios, a única referência que encontrei sobre sexo e aparelhos auditivos estava num livro, que é, na generalidade, excelente noutros temas, chamado Living Better with Hearing Loss: A Guide to Health, Happiness, Love, Sex, Work, Friends... and Hearing Aids, de Katherine Bouton. Apesar do “sexo” no título, essa parte tem apenas cerca de 100 palavras. “Posso fazer sexo com o aparelho auditivo posto?”, questiona Bouton. E responde: “No geral, a resposta parece ser 'melhor tirar'. Se o tirares,c omo é que comunicas – especialmente no escuro? Há algumas formas, como toda a gente sabe”. Está bem e quais são essas formas? O capítulo acaba aqui, juntamente com uma frase a relembrar-te de avisares o teu parceiro sobre a tua perda auditiva e trabalhares na comunicação. E, sim, toda a gente podia comunicar mais e melhor sobre as limitações na cama, mas faltam conselhos concretos de como navegar pelo mundo desconhecido do sexo com perda auditiva.


Vê: "O controverso mundo do sexo medicamente assistido"


Como escritora e entusiasta de sexo, passei anos a experimentar formas diferentes de lidar com sexo, consentimento e comunicação quando se usa aparelhos auditivos. Aqui vão as minhas principais dicas, quer uses aparelho dentro da orelha (ITE), aparelho implantado cirurgicamente, ou atrás da orelha (BTE) como eu. Apesar de todos terem componentes externos que podem ser removidos, aparelhos diferentes vêm com níveis diferentes de conforto e exigem diferentes posições e técnicas.

Devo tirar o aparelho para fazer sexo?

Podes tirar o teu aparelho auditivo para pinar, que é o que muita gente faz. Com base em entrevistas a pessoas com perda auditiva, registo que algumas adoram fazer sexo sem aparelho, porque a falta de distracção auditiva ajuda-as a focarem-se melhor e mais facilmente na sensação física e a serem mais atentas com o parceiro.

Tirar o aparelho auditivo evita que ele acabe molhado e, consequentemente, danificado. Nos EUA, aparelhos auditivos podem custar entre três mil e sete mil dólares o par (e isso descola para entre 30 a 50 mil para implante coclear) e raramente são cobertos pelos seguros de saúde, por isso dar cabo do aparelho não é uma boa ideia, por mais que gostes que alguém se venha na tua cara.

Tirar o aparelho também garante que outra pessoa não vai acidentalmente arrancá-lo da tua cabeça num momento de paixão desenfreada, para depois o perderes ou acabares a pisá-lo. Para evitar isso, Suzanne Baptiste, uma especialista em aparelhos auditivos de São Francisco, recomenda ter um dispositivo que se encaixe bem para evitar perdê-lo nos lençóis. E tirá-lo garante que não vais ouvir aquele som horroroso de feedback caso o teu parceiro ou parceira, por exemplo, aperte as coxas contra as tuas orelhas quando lhe estás a fazer sexo oral.

Mas, também há várias desvantagens em tirar o aparelho. Sendo que, a maior e mais óbvia é que não vais conseguir ouvir bem, o que tem um impacto na tua capacidade de comunicar, dar e receber informação de consentimento e usar dicas auditivas do parceiro. Baptiste aconselha a não tirares o aparelho durante a actividade sexual, tendo em conta a importância da comunicação. “Os aparelhos auditivos modernos são muito mais resistentes à humidade do que eram antes”, assegura. E acrescenta: “Não posso falar de todos os aparelhos, mas se o teu tiver menos de dois ou três anos, não há problema com o suor, por exemplo”.

Tirar o aparelho auditivo para o sexo nunca foi uma boa opção para mim. Descobri que sinto muita ansiedade ao pensar em concordar acidentalmente com alguma coisa que não quero fazer, ou fazer algo que o meu parceiro não queira, porque não ouvi bem. Além disso, não há nada mais sexy do que ouvir a outra pessoa a gemer. Mesmo que, para mim, o sexo geralmente seja muito suado, descobri que um pouco de bom senso pode fazer maravilhas quando se trata de usar o meu aparelho durante actividades molhadas (claro que, nada de sexo no chuveiro nem water sports!). Nunca cheguei a estragá-lo nem um bocadinho. Escolhe o que funciona para ti – podes sempre tirar e voltar a pôr se precisares.

Encontra maneiras alternativas de comunicar e dar consentimento

Consentimento e comunicação durante o sexo podem ser uma coisa complicada para qualquer pessoa, não só para pessoas com perda auditiva. Há limites que às vezes são cruzados acidentalmente, mesmo com o parceiro mais bem-intencionado e respeitoso. O lado bom do sexo com aparelho auditivo é que isso obriga o casal a ser muito mais explícito, intencional e directo, particularmente quando estão a navegar pela experiência pela primeira vez.

Para esse fim, precisas sempre, sempre, sempre de dizer ao teu parceiro que tens dificuldade em ouvir. Revelar a tua perda auditiva nunca vai ser mais estranho do que desrespeitar consentimento do parceiro. Além disso, ser directo e honesto sobre a tua perda auditiva retira-lhe um pouco do estigma. Se não contares ao teu parceiro que usas aparelho auditivo, a pessoa não vai poder acomodar-se às tuas necessidades.

Quando e como deves comentar a tua perda auditiva com um parceiro depende de ti, mas recomendo que seja antes de começarem a beijar-se. Se não falares, corres o risco de o parceiro te agarrar a cara no cinema para te beijar e acabar por te tirar o aparelho, obrigando-te a procurá-lo pelo chão todo sujo de pipocas e refrigerantes com a lanterna do teu telemóvel (isto é um cenário hipotético, claro).

Em relação a comunicar durante o sexo quando alguém usa aparelho auditivo, descobri que é uma boa sacar dicas dos fetiches, usando palavras de segurança, sinais e gestos para comunicar. Se uma pessoa está amordaçada, por exemplo, vai ser difícil usar palavras. Mas, podes apertar a mão do parceiro, fazer que sim com a cabeça três vezes ou empregar um sinal táctil ou visual.

A mesma linha de pensamento pode ser aplicada ao sexo com aparelho auditivo, independentemente de quão básico for. Sinais com a cabeça e contacto visual são óptimos e, se precisares de ir mais devagar ou mais rápido, geralmente podes indicar isso apenas com o corpo. Também curto usar o básico dedo polegar para cima/para baixo, se não tiver as mãos amarradas, por exemplo (também sou conhecida por dar high-fives durante o sexo, pelo que se percebe que gosto muito de gestos visuais).

Aceita os momentos constrangedores – e que, provavelmente, vais ter de pedir à pessoa para repetir o que acabou de dizer

A primeira dica, apesar de mais relevante para o sexo com aparelho auditivo, aplica-se a qualquer tipo de sexo e envolve humor. Sexo é constrangedor. Se nunca tiveste uma leve concussão a bater com a cabeça na cabeceira ou deste acidentalmente uma cotovelada nos genitais de alguém, provavelmente não tens feito sexo assim tão bom.

Independentemente do teu género, a coisa mais anti-tesão do mundo é a ansiedade. Se estás constantemente a tentar antecipar cada movimento para que o teu amante não te toque acidentalmente no aparelho auditivo, não vais aproveitar muito o sexo em si. Podes reconhecer que coisas constrangedoras acontecem, rir e seguir em frente – ou, podes ignorar o que aconteceu e mesmo assim seguir em frente. A acção depende de ti, mas eu prefiro rir, como uma parceira e eu fizemos uma vez em que eu achei que ela tinha dito “Posso cuspir-te no ouvido?”, quando na verdade ela tinha dito “Posso sussurrar-te ao ouvido?” Foi um momento que ajudou a formar um laço entre nós – o que significou melhor sexo dali em diante.

Como evitar feedback no teu aparelho auditivo durante o sexo

O feedback é um cabrão. Para mim, pelo menos, o feedback acontece em momentos aleatórios. Às vezes um abraço ao de leve é suficiente para o meu aparelho gritar, mas sexo vigoroso não. Às vezes tirar os óculos de sol resulta em feedback, outras vezes, acontece ao ouvir Jewel nos headphones (pára lá de julgar o meu gosto musical!).

Dito isto, há certas posições a que se devem prestar atenção para evitar o feedback. Por exemplo, as posições que colocam pressão nas orelhas ou perto delas, como durante o sexo oral que descrevi acima e o 69 preguiçoso, em que a tua cabeça fica a descansar na coxa do parceiro. Missionário pode ser arriscado, se o teu parceiro gostar de pressionar o rosto e pescoço contra os teus quando está por cima. No geral, posições em que a pessoa com aparelho auditivo fica por cima são óptimas, porque permitem controlar mais aspectos do sexo e, portanto, ajuda a não dar passos em falso. A experimentação é chave para descobrir o que funciona e o que não funciona para cada um.

Se o feedback acontecer apesar das tuas manobras, podes sempre tirar um ou os dois aparelhos, ou passar para outra actividade durante um tempo. O principal é saberes perdoar-te a ti própria e ao outro. És um ser biónico! Melhoras tecnológicas vêm sempre com dificuldades técnicas.

Incorporar limitações auditivas nas brincadeiras eróticas

Abraçar as minhas limitações foi algo que consegui, de maneira meio contra-intuitiva, ao erotizá-las. Brincar intencionalmente com algo sobre o qual me disseram que me deveria sentir mal, ensinou-me que não estou “estragada”, que não sou “deficiente” nem “estou a perder alguma coisa”. Esta perda nem sempre precisa de ser uma perda. Quando abordo a minha perda auditiva explícita e intencionalmente durante o sexo para que se torne uma brincadeira, sinto-me mais compreendida e apreciada de uma maneira que poucas coisas me conseguem fazer. Em parte porque isso é tabu e muitos tabus são eróticos. Se um amante me morde ou chupa as orelhas (o que tem que ser negociado antes, porque: consentimento!) – mesmo se ainda estou a usar o aparelho, ou que resulte em feedback – o acto faz-me sentir reconhecida, como se a pessoa estivesse a dizer “Vejo a tua limitação e não te desejo menos por isso”.

Também gosto de brincar com a audição do parceiro (que tenha audição normal), porque isso iguala um pouco o campo de jogo e dá-lhe um vislumbre de como o sexo é para mim. Tirar qualquer sentido – com uma venda, tampões de ouvido, ou headphones isoladores – aumenta os teus outros sentidos e permite-te experimentar o sexo de novas maneiras. Jogar com cheiros e gostos é mais difícil, mas podes tirar os cheiros do ar ao colocar um pouco de mentol debaixo do nariz da pessoa ou fazê-la usar uma mordaça ou um lenço com cheiro sobre a boca. Para o toque, a pessoa pode ser amarrada. Também podes enrolar o parceiro num tecido em particular, como cetim (agradável) ou juta (desagradável).

Quando treinas os teus sentidos para sentir coisas diferentes, sensações diferentes e comunicar de outras maneiras, ficas mais curioso e em sintonia com o teu corpo e o corpo do parceiro.

Gere a potencial vergonha decorrente das dificuldades auditivas

Uma barreira menos aparente do sexo com aparelho auditivo é enfrentar a vergonha, que é um subproduto infeliz de vivermos num mundo capacitista, que muitas vezes não acomoda quem é diferente. Há um estigma em torno da perda auditiva e surdez, particularmente quando és jovem. A vergonha, tal como a ansiedade, é muito anti-tesão.

Aprender a estar-se nas tintas ajuda, mas leva tempo, paciência e, às vezes, terapia. Enquanto trabalhas nisso, enfrenta a vergonha através do reconhecimento das tuas vulnerabilidade. Se não sabes que palavras ou acções desencadeiam a tua vergonha, então não terás como as evitar. A minha vergonha geralmente é desencadeada por dirty talk, algo de que gosto muito – mas que já não posso fazer. Uma vez, uma pessoa sugeriu-me fazer sexo pelo telefone e evitei as chamadas dela durante um ano, porque sentia muita ansiedade em relação a isso. Talvez a tecnologia de closed caption ao vivo me ajude a voltar à dirty talk no futuro, mas, por enquanto, digo aos meus parceiros para usarem menos palavras e mais gestos visuais se não querem que eu diga “O quê?” mil vezes.

Quando percebes quais as coisas que desencadeiam a tua vergonha, podes falar com os teus parceiros para evitar que isso te atrapalhe no futuro. Acidentes acontecem e, mesmo os parceiros mais respeitosos podem pisar o risco às vezes. Mas, é assim que se aprende. Evitar ou esconder o que és ou te dá vergonha só dá mais poder a essas coisas. Não deixes que isso aconteça. A vergonha é uma treta e não merece estar na cama contigo.


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