Saúde

Fiz uma dieta de três dias de ovo cozido e vinho, para ficar bonita

Nos anos 70, a Vogue publicou uma dieta tão alucinada que, agora, se transformou em meme e lá fui eu à aventura.

Por Aleksandra Bliszczyk; Traduzido por Madalena Maltez
05 Dezembro 2018, 11:50am

Todas as fotos por Nick Buckley.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Austrália.

Em 1977, a Vogue publicou esta “dieta rápida” para mulheres, que podes ver abaixo. A receita apareceu originalmente em 1962, no best-seller do New York Times, Sex and the Single Girl: The Unmarried Woman's Guide to Men, da escritora norte-americana (mais tarde editora da Cosmopolitan) Helen Gurley Brown.

O livro dava conselhos de namoro, “amizades-coloridas”, casos, como equilibrar a vida e o trabalho, economia, moda, alimentação e como beber. A dieta foi publicada de novo no Vogue Body and Beauty Book, em 1977 e, bastante mais tarde, voltou a surgir como meme no Facebook - foi aí que a encontrei.

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A dieta de Gurley Brown era para ser feita em dois dias e, recomendava ela, convinha que fosse no fim-de-semana porque podias sentir-te “meio tonta”. Por outro lado, prometia que, se consumisses apenas ovos, carne e café, podias perder 2,5 quilos.

Por isso decidi tentar viver durante três dias como uma socialite dos anos 1970.

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Dia 1, domingo: 60,9 quilos

Comecei por ir ao talho comprar três bifes de 150g. A rapariga que me atendeu teve de cortar a carne quatro vezes até os bifes ficarem do tamanho certo. Depois, fui à loja de vinhos local para comprar Chablis, que é um vinho chique de uma região específica de França. Lá, descobri que o Chablis mais barato custava 78 dólares australianos [cerca de 50 euros], por isso comprei um vinho mais simples, “branco seco clássico”, de 14 dólares [nove euros].

Quando cheguei a casa, o meu namorado Nick (que estava de ressaca) ofereceu-me os seus peidos como alimento. Nem tinha começado e já estava de mau humor. “Será que *vamos* conseguir?”, perguntou ele. Eu queria o meu ovo.

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Nick comeu abacate, queijo de cabra e presunto, o cabrão. Eu, engoli o ovo cortado em quatro que nem uma foca de circo. “Não tenhas pressa, lembra-te que é a única coisa que podes comer”, disse Alex, o meu colega de casa.

O vinho? Sabia a bílis de gato, mas, pelo menos, curei a minha própria ressaca. Meia alegre numa manhã de domingo, a vida era boa.

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14h00

Ao almoço comi mais um ovo, mas mais ovo era a última coisa que me apetecia. O problema já não era estar com fome, mas sim os ovos serem a única coisa a absorver um estômago cheio de ácido. Estava também a prolongar a tortura ao beber os meus dois copos de vinho bastante devagar. Deixei de me sentir meio alegre e a energia acabou - estava a sentir todo o efeito depressivo do álcool.

19h00

Quem diria que bife com limão podia ser tão bom? A esta altura, já nem tinha fome, até me custou um bocadinho comer tudo. Mas, assim que acabei, senti-me óptima. O meu corpo alegrou-se. Depois de passar o dia inteiro a sentir-me exausta, tive uma explosão de energia, que usei para me ficar a rir meio ébria até quinar às 10 da noite.

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Dia 2, segunda-feira (a trabalhar de casa): 60,3 quilos

Normalmente, levanto-me mal o meu despertador toca, mas, nessa manhã, senti-me exausta, como da vez em que apanhei uma gripe tropical no Vietname. No entanto, a minha barriga estava bem mais lisa do que 24 horas antes.

Esta dieta era vendida como a resposta para abrir caminho para a felicidade e confiança. “Se já tens peso a mais, precisas de fazer alguma coisa, ou não vais conseguir ser uma solteira feliz”, escreveu Gurley Brown. Mas, quando me levantei senti uma pontada nos rins. E o meu intestino estava preso. Uma imagem nada feliz.

10h00

A minha colega de apartamento, Erin, fez um bolo. Cortei os ovos ao meio desta vez, para ser mais rápido. Acontece que ter meio ovo às voltas na boca é tão mau como um prato de ovo em papa. A taça de vinho do pequeno-almoço provou ser uma fonte de energia confiável. Depois do café, surpreendentemente, já não estava com fome! Talvez seja assim que a dieta funciona, uma dieta só de inibidores de apetite. Mas, 20 minutos depois estava esfomeada e o meu estômago ardia. Os barulhos que fazia mudaram de um borbulhar irritante para um canto de baleia agudo.

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Mais tarde naquele dia, encontrei um arquivo online de capas da Vogue norte-americana de 1977, o ano em que publicaram a dieta. Apesar de a maioria do texto nas capas daquele ano ser sobre maquilhagem, o subtítulo de Julho era “Como ficar linda, como se sentir viva!”. Tinha a certeza que a dieta não me estava a tornar linda nem a fazer-me sentir viva, mas as modelos sorridentes nas capas da Vogue pareciam atraentes sem qualquer esforço. “Como posso ser assim?”, perguntavam todas as mulheres norte-americanas em 1977.

14h00

Ovos cortados em quatro pedaços é, definitivamente, a melhor maneira de fazer isto. Só ovo cozido sem nenhum tempero é meio nojento e tive que tapar o nariz para conseguir comer. Talvez seja assim que a dieta funciona: acabas a preferir não comer nada durante três dias. Uma amiga bioquímica disse-me que uma dieta só de água provavelmente seria melhor. “Vinho e ovos não faz o menor sentido”, garantiu-me.

Não me senti a ficar tocada com o vinho como tinha sentido com o copo matinal. O meu humor entrou em espiral depois do almoço.

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16h30

Já não conseguia trabalhar. Fui para a cama com uma enorme dor de cabeça, mas “ficar na cama [sozinha] é sexy”, escreveu Gurley Brown. Onde que é isso é sexy?

19h00

“Não olhes para mim com esses olhos sem vida”, disse-me Nick, enquanto comia um pacote inteiro de batatas fritas.

Depois do jantar estava já meio bêbada, mas era um novo tipo de embriaguez, que não era muito divertida. Sentia-me muito tonta e desconectada do meu eu físico, como se me estivesse a habituar a um corpo em segunda mão, doado por alguém com problemas de fígado. O meu estômago borbulhava e não conseguia parar de arrotar. Sentia as pálpebras pesadas, por isso fui dormir às nove da noite.

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Dia 3, terça-feira (no escritório): 59,7 quilos

Acordei a sentir-me abatida e cansada, fisicamente fraca e sem fôlego. A minha dor no estômago tinha-se tornado tipo uma dor geral, comum a todos os órgãos.

Parecia mais magra e cinzenta. Mas, magra.

O livro de Gurley Brown tinha uma capítulo intitulado “Como ser sexy”, em que ela, basicamente, listava os sins e nãos de como ganhar a aprovação dos homens. “Carne que não está firme nos ossos” não é sexy, escreveu. Li isso, sentindo-me a definhar, como se a minha pele fosse cair a qualquer minuto. Sei lá onde é que ela queria chegar.

Depois, escreveu que os homens que dizem que gostam de mulheres “cheinhas”, “não estão seguros da sua masculinidade”. Portanto, segundo Gurley, mulheres esqueletos fazem os homens sentirem-se mais homens? Maravilha.

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9h10

Alguns amigos do trabalho sabiam o que eu estava a fazer, mas não contei aos chefes para não ter que explicar porque é que estava a beber no trabalho. Portanto, bebi o meu vinho do pequeno-almoço na secretária, disfarçado dentro de uma garrafa térmica.

Bebi o vinho, passei fome e tentei concentrar-me, mas as letras do meu teclado dançavam como se tivesse comido cogumelos mágicos. “Estás a sentir-te bêbada?”, brincou um colega que sabia da situação. Estava tão cansada que já nem sabia. Não sabia se estava bêbada, ou só num limbo. O Riesling melhorzinho que comprei para o último dia tinha sabor a vinagre puro, as minhas papilas gustativas estavam a escolher sentir só os sabores ácidos para me avisar: Pára. De. Comer. Ácido.

12h00

Estava a tornar-se muito difícil respirar normalmente. O meu estômago, intestino e rins doíam, estava com dores de cabeça, os meus dentes e maxilar também doíam e vacilava ao andar. Ouvia a voz da Gurley Brown na minha cabeça: “Conseguir sentar-se bem quieta é sexy”.

Ela aconselhava fazer esta dieta no fim-de-semana. Mas, eu não estava deitada no sofá de casa a fumar e a ler a Vogue, estava a tentar trabalhar. “Saúde é sexy. Mulheres cansadas são cansativas”, escreveu Gurley Brown. “Conheço um homem que diz que se casou com a esposa porque ela tinha muita vitalidade”.

O QUE É QUE QUERES DE MIM, HELEN?! O QUE É QUE VOCÊS QUEREM DE MIM, HOMENS?!

13h30

Cada golo de vinho revirava-me o estômago até que, finalmente, desisti. Fui à casa-de-banho tentar vomitar, mas não saiu nada. Tentar vomitar à força no trabalho? Não é normal, não é na boa.

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Contei ao Nick o que me estava a acontecer com lágrimas nos olhos e ele disse-me para comer o abacate que estava na minha mesa. Quebrei a dieta antes da hora porque a) sim, senti todos os seus efeitos e b) não queria causar mais dor a mim mesma.

“Literalmente já pareces estar melhor”, disse-me a minha colega, depois de eu ter comido um pouco de abacate. Estava a afogar-me em alívio.

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O que aprendi com isto tudo?

Parei com a dieta oito horas antes, mesmo assim perdi 500 gramas – bem longe dos 2,5 quilos que me prometeram. Mas, emocionalmente a dieta bateu-me como uma avalanche de nove mil toneladas.

É inacreditável que, durante quase uma década, aconselhassem as mulheres a fazerem esta dieta. Aqui tens como passar a ilusão de sensualidade enquanto te sentes o lodo no fundo de um caixote de lixo.

No capítulo “Como ser sexy”, Gurley Brown escreveu que “ser sexy significa aceitar que todas as partes do teu corpo são válidas e dignas de amor”. Mas, ser pressionada a aguentar esta dor não é igual a ser sexy. Em vez disso, resolvi “aceitar todas as partes do meu corpo como válidas e dignas de amor”. Que se foda o patriarcado, que se fodam os padrões de beleza e que se foda também o vinho branco manhoso.


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