análise

Precisamos falar sobre o massacre das forças israelenses em Gaza

Palestinos que vivem em Gaza estão sujeitos a condições quase presidiárias, e agora estão sendo assassinados às dezenas.
15.5.18
A cidade de Khuza'ah, sul da Faixa de Gaza. (Foto por Muhammad Sabah, 6 de abril de 2018.)

Por mais de uma década, a Faixa de Gaza está sujeita a um cerco brutal ao estilo medieval. Imposto por Israel depois da eleição do governo do Hamas em 2006, o suposto objetivo do cerco era “guerra econômica”: bloquear todas as atividades econômicas em Gaza e assim voltar a população civil contra sua liderança.

Para esse fim, importações foram restritas ao que os burocratas israelenses consideram necessidades humanitárias, enquanto as exportações foram quase totalmente proibidas. Ao mesmo tempo, o número de permissões de saídas emitidas aos moradores da região foi drasticamente reduzido. Com sua economia sufocada e o padrão de vida despencando, as pessoas de Gaza, presas em suas terras pelo ar e mar, não podem nem fugir. Na verdade, Gaza foi transformada – nas palavras do ex-primeiro-ministro britânico David Cameron – num “campo de prisioneiros”.

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Quanto aos detidos nesse campo de prisioneiros, Gaza é uma das áreas mais densamente povoadas do planeta, com aproximadamente 2 milhões de pessoas espremidas numa estreita faixa de terra ao longo da costa do Mediterrâneo. Mais de 70% da população de Gaza é de refugiados, pessoas que, em 1948, foram despejadas de suas casas, junto com seus descendentes. Esta terça-feira, 15 de maio, marca 70 anos dessa perda existencial e tormento contínuo. Mais de metade da população de Gaza é de crianças menores de 18 anos. Essas realidades humanas precisam ser confrontadas honestamente, em vez de discutidas atrás de abstrações reconfortantes. Seja lá quais misérias Israel e seus cúmplices estão causando à população de Gaza, estão causando principalmente a crianças.

Em 2015, a taxa de pobreza de Gaza atingiu 39%, apesar de 80% da população receber ajuda humanitária, enquanto o desemprego já chega a 43% – provavelmente o mais alto do mundo. O desemprego entre os jovens, chocantes 60%, é o maior da região. Em 2008-9 e 2014, ataques militares de Israel em larga escala deixaram mais de 2.500 mortos – principalmente civis, incluindo 900 crianças – e cerca de 24 mil casas destruídas. Mais fundamental, a própria capacidade do território de sustentar habitações humanas em larga escala foi minada. Agora, 96% de toda a água de torneira de Gaza é imprópria para consumo humano, e o único aquífero de água potável da região está no limiar de uma contaminação irreversível. A ONU alertou em 2015 que Gaza pode acabar fisicamente “inabitável” até 2020. A chefia da inteligência militar israelense concordou com essa afirmação, mas uma atualização de julho de 2017 da ONU descobriu que essa projeção na verdade era otimista.

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Nas últimas sete semanas, as pessoas de Gaza vêm se mobilizando às dezenas de milhares para protestar contra o destino ao qual a humanidade, conscientemente e na vista de todos, os entregou. Como as avaliações da ONU deixam claro, os palestinos em Gaza não estão só lutando por seus direitos, mas para evitar sua expiração coletiva. A Marcha do Grande Retorno, como é conhecida, é um conjunto de marchas, reuniões e manifestações principalmente pacíficas. Diante de provocações extremas de Israel, nenhum foguete foi disparado contra Israel pelo Hamas ou qualquer outra facção palestina; na verdade, apesar de tentativas cada vez mais desesperadas do governo israelense e de seus propagandistas de retratar os protestos como uma ameaça militar, Israel não sofreu nenhuma morte.

O campo de refugiados al-Bureij, no centro da Faixa de Gaza. Foto por Khaled al-'Azayzeh, 13 de abril de 2018.

Não se pode dizer que Israel vem respondendo da mesma forma. Durante o que a Anistia Internacional descreve como um “ataque homicida” contra “manifestantes que não representam ameaça”, as forças israelenses até hoje, dia 15 de maio, mataram 60 palestinos, incluindo cinco crianças, e feriram mais de 6.800 pessoas, 2 mil com munição direta. Na maioria dos casos fatais examinados pela Anistia, as vítimas foram baleadas na parte superior do corpo, incluindo cabeça e peito, enquanto algumas foram alvejadas pelas costas. Na segunda-feira, enquanto escrevo isto, mais 38 palestinos (e o número está subindo) foram mortos e 900 acabaram feridos – 450 deles com tiros diretos – enquanto o protesto avança para a embaixada dos EUA em Jerusalém. O comprometimento dos manifestantes com a não-violência no meio desse massacre é uma amostra impressionante de coragem e determinação coletiva.

A matança de Israel não é acidental nem resultado de iniciativas individuais da parte dos soldados israelenses. Quando, como a organização de direitos humanos israelense B'Tselem descobriu, “soldados – incluindo franco-atiradores – dispararam por horas contra manifestantes”, eles estavam implementando a política oficial. Depois da primeira manifestação, o chefe da equipe militar de Israel anunciou que 100 franco-atiradores seriam mobilizados na fronteira. “As ordens são para usar muita força”, ele alertou. O ministro da Defesa israelense declarou que “qualquer um que se aproximar da cerca está colocando sua vida em risco” e depois disse que “não há inocentes em Gaza”. “Os soldados israelenses não estão apenas usando força excessiva”, concluiu a Human Rights Watch, “mas aparentemente agindo sob ordens que garantem uma resposta militar sangrenta a manifestações palestinas”.

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Recitando de seu manual de relações-públicas padrão, Israel tem justificado sua política letal em Gaza com base em autodefesa. Mas sob as leis internacionais, Israel não tem direito de usar violência para manter uma ocupação ilegal ou um cerco criminoso. Organizações de direitos humanos do mundo todo condenaram o cerco a Gaza como “punição coletiva” (Comitê Internacional da Cruz Vermelha) imposto “numa violação flagrante da lei internacional” (Anistia Internacional). Um inquérito do Conselho de Direitos Humanos da ONU, de autoria de um juiz do estado de Nova York, exigia que o bloqueio de Gaza fosse retirado “imediata e incondicionalmente”, uma exigência que em abril de 2018 foi reiterada pela maioria do parlamento europeu.

Alternativas políticas concretas em linha com a lei internacional estão disponíveis. No nível mais básico, a melhor alternativa a atirar em crianças foi sugerida pelo coordenador especial de Processo de Paz no Oriente Médio da ONU: “Parem de atirar em crianças”. Mais amplamente, há anos o Hamas vem comunicando a Israel seu desejo de firmar um cessar-fogo recíproco de longo prazo para dar fim ao cerco ilegal. “As exigências e condições nunca foram discutidas”, relatou um correspondente militar israelense, “já que Israel se recusa a falar com o Hamas”. De maneira mais geral, Israel pode acabar com seu repúdio pelo consenso internacional de uma solução dos dois estados e assim tornar possível uma resolução pacífica para o conflito. Enquanto se recusa a tomar esses passos, Israel não pode caracterizar sua violência em Gaza, ou mesmo na Cisjordânia, como defensiva. Em vez disso, o massacre em Gaza está sendo perpetrado para manter um regime ilegal.

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A Marcha do Grande Retorno deve culminar com uma tentativa de fuga em massa hoje no Nakba, no dia 15 de maio. Cerca de 100 mil pessoas vão se reunir desarmadas na cerca do perímetro. Muitas delas podem tentar atravessar para poder, mesmo que por um momento, e mesmo às custas de suas vidas, respirar de novo. Israel está se preparando para mobilizar 11 batalhões ao longo da cerca. Se os eventos das últimas sextas se repetirem, milhares de manifestantes desarmados serão baleados, feridos e mortos. Se a atenção internacional estiver voltada para outro lugar – distraída pela abertura da Embaixada dos EUA em Jerusalém, por exemplo – Gaza pode testemunhar um banho de sangue.

Os palestinos vivem escutando sobre os méritos de Gandhi. O esforço em Gaza será visto como um teste sobre a eficácia da abordagem não-violenta; seu sucesso ou fracasso vai ajudar a determinar o caráter dos futuros esforços para acabar com a ocupação. Mas como a manchete do Guardian coloca de maneira sucinta: “A não-violência palestina exige o não-silêncio global”. As pessoas de Gaza dependem de nós para tornar a estratégia da não-violência viável aqui, em seu momento de maior necessidade. Se as manifestações em Gaza receberem amostras de solidariedade de todo o mundo, Israel pode ser induzida a mudar sua abordagem em Gaza e um futuro melhor para a região pode estar ao alcance. Quanta pressão exatamente é necessária para que as forças israelenses recuem é difícil prever. Mas uma coisa é certa: enquanto os moradores de Gaza tentam escapar de seu campo de prisioneiros, a única proteção deles, sua única armadura, sua única defesa contra um muro de franco-atiradores israelenses, somos nós.

Muhammad Shehada é um escritor e ativista da Faixa de Gaza. Ele faz Estudos de Desenvolvimento na Universidade Lund, Suécia, e foi pesquisador de campo e chefe de relações-públicas no escritório de Gaza do Euro-Med Monitor for Human Rights.

Jamie Stern-Weiner é britânico-israelense e editor de Moment of Truth: Tackling Israel-Palestine's Toughest Questions (OR Books, 2018).

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