Há entre 39 e 85 por cento de probabilidade de estarmos sozinhos no Universo

Um novo relatório descobriu que existe uma grande possibilidade de que sejamos mesmo a única forma de vida inteligente no Universo.

Por Daniel Oberhaus; Traduzido por Madalena Maltez
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jul 20 2018, 1:58pm

Imagem: NASA/Composição: Motherboard US.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Motherboard.

Será que estamos sozinhos no Universo? Esta pergunta atormenta as mentes de filósofos e cientistas há muitos e muitos anos. Contudo, nas últimas cinco décadas, responder-lhe tornou-se o propósito exclusivo da Busca por Inteligência Extraterrestre (SETI, na sigla em inglês), uma iniciativa científica dedicada à busca de vestígios de vida alienígena no Universo.

Desde o início da SETI moderna, nos anos 1960, que a coisa parecia bastante promissora. Existem biliõe de estrelas no Universo e agora sabemos que muitas delas provavelmente abrigam planetas. A probabilidade de que pelo menos um desses planetas fosse o lar de uma civilização alienígena parecia boa — era só uma questão de o encontrar.


Vê: "Deve a Humanidade tentar contactar civilizações alienígenas?"


No entanto, praticamente 60 anos depois do Projecto Ozma começar a utilizar pela primeira vez um radiotelescópio para vasculhar o Universo em busca de mensagens alienígenas, ainda temos de continuar a procurar provas de que não estamos sozinhos. Alguns investigadores do SETI, como Seth Shostak, estão optimistas de que o primeiro contacto acontecerá a qualquer momento, contudo, de acordo com uma nova investigação do Instituto para o Futuro da Humanidade de Oxford, pode ser que isso nunca aconteça - porque há grande probabilidade de sermos as únicas criaturas inteligentes no Universo observável.

Solipsismo cósmico?

Em 1950, o físico Enrico Fermi estava bastante ocupado a desenvolver a bomba de hidrogénio no Laboratório Nacional de Los Alamos, mas ainda arranjou tempo para contemplar o Universo nos momentos em que não estava envolvido na criação de uma das armas mais destrutivas alguma construídas no Mundo. Tendo em consideração o quão grande é o Universo, Fermi deduziu que deveria estar a fervilhar de vida inteligente. É estranho que, até então, nenhuma civilização extraterrestre tenha feito contacto com a Terra, ou nem mesmo deixado o mínimo vestígio da sua existência.

Esse improvável silêncio do Universo ficou conhecido como o Paradoxo Fermi. Ainda que Fermi não tenha perseguido essa noção mais além de uma experiência inicial, e parafraseando Lorde Kelvin, não é ciência se não existirem alguns números. Felizmente, uma década mais tarde, o cientista planetário Frank Drake transformou o Paradoxo Fermi de uma parábola para física, com a agora famosa equação de Drake, utilizada pelos investigadores do SETI, de forma a estimar a probabilidade de vida na Via Láctea.

Para estimar o número de civilizações inteligentes no Universo, a equação de Drake combina a taxa de formação de estrelas por ano, a fracção das estrelas com planetas, o número de planetas considerados habitáveis, a fracção de planetas habitáveis com vida, a fracção com vida que possa desenvolver inteligência, a fracção de civilizações inteligentes que são detectáveis e a longevidade dessas civilizações detectáveis.

Quando Drake apresentou essa equação aos colegas, na conferência de Green Bank, em 1961, acompanhando o fim do Projecto Ozma, eles estimaram que a Via Láctea poderia ser habitada por algo entre mil e 100 mil civilizações inteligentes (o próprio Drake estimou que poderia haver 10 mil civilizações inteligentes e capazes de se comunicarem na nossa galáxia). É uma extensão enorme, mas porque a maioria dos valores da equação são palpites. Os únicos valores sobre os quais os cientistas têm dados reais, são a formação de estrelas e a quantidade de exoplanetas.

Fora isso, os resultados da equação de Drake dependem, em grande parte, de quão optimista és sobre a formação de vida e da sobrevivência com a sua própria inteligência (neste momento, muitos físicos talentosos do Mundo inteiro estão a trabalhar em armas nucleares). Conforme aponta o astrónomo Steven J. Dick, “talvez nunca na história da ciência uma equação tenha sido desenvolvida com a produção de valores que diferem em oito ordens de magnitude. Cada cientista parece ter os seus próprios preconceitos sobre as hipóteses do problema”. O próprio Drake admitiu os problemas da equação, que foi desenvolvida unicamente para articular as direcções de pesquisa no SETI e não para apresentar um número concreto sobre a prevalência de vida extraterrestre no Universo.

SETI científico

Num artigo publicado no arXiv no início deste mês, investigadores do Instituto para o Futuro da Humanidade da Universidade de Oxford argumentam que, quanto muito, o facto de que as estimativas com a equação de Drake variem só em oito ordens de magnitude é surpreendente. Por causa dos desvios dos cientistas que utilizam a equação, essa faixa podia ser muito maior. De forma a compreender o paradoxo de Fermi, os investigadores argumentam que os valores da equação de Drake não devem ser concretos, mas variações ou distribuição de probabilidade. Ao observar o uso de distribuição de valores, descobriram que o Paradoxo de Fermi não é bem um paradoxo, porque as probabilidades de que estamos, de facto, sozinhos na galáxia - e até mesmo no Universo - são muito grandes.

O problema, de acordo com os investigadores, é que inserir valores na equação de Drake como “melhor aposta” implica a certeza e resultados em estimativas incorrectas. A distribuição de probabilidades, por outro lado, permite que a incerteza seja capturada na equação. Para estimar a probabilidade de estarmos sozinhos na galáxia e/ou no universo observável, os investigadores utilizaram dois métodos diferentes. Um deles estudou o estado actual do conhecimento científico sobre as diferentes variáveis da equação de Drake (por exemplo, a probabilidade de emergência de vida numa sopa escaldante pré-histórica). O outro método analisou artigos científicos publicados, que utilizaram a equação de Drake para quantificar a incerteza de cada variável de acordo com o conhecimento científico atual.

Os resultados desses métodos foram comparados e ambos sugeriram que existe uma probabilidade substancial de que estejamos sozinhos. De acordo com os investigadores, existe entre 39 e 85 por cento de probabilidade de que estejamos sozinhos no Universo visível e entre 53 e 99,6 por cento de que estejamos sozinhos na nossa galáxia.

São resultados sensatos, mas os investigadores advertem também contra qualquer pessimismo cósmico. “Esta conclusão não significa que estejamos sozinhos, só que isso é cientificamente plausível e não nos deveria surpreender”, afirmam. E acrescentam: “É uma declaração sobre a situação do nosso conhecimento, não uma nova medição”.

Por outras palavras, não há motivos para tristeza - ainda. Quanto mais aprendemos sobre o Universo e o nosso próprio Planeta, mais nos afastamos da incerteza latente na equação de Drake. Por exemplo, a nossa incapacidade de detectar civilizações extraterrestres ao longo das décadas pode aumentar a nossa certeza de que estamos sozinhos, mas, uma vez mais, o Universo pode estar repleto de sinais extraterrestres que, simplesmente, não sabemos reconhecer. Contudo, por enquanto, os investigadores sugerem que, se houver aliens por aí, eles estão “provavelmente muito longe e provavelmente muito além do horizonte cósmico e, assim, inalcançáveis para sempre”.


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