Estes caras fizeram à mão os álbuns das três primeiras Copas do Mundo
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Estes caras fizeram à mão os álbuns das três primeiras Copas do Mundo

Inexistentes até então, livros ilustrados foram criados por um quarteto de pesquisadores brasileiros.
13.6.18

Heriberto Machado é louco por álbuns de figurinhas de Copas do Mundo. Em sua coleção existem 231, todos completamente preenchidos. Apesar de tantas relíquias, não seria possível reunir álbuns de todos os Mundiais, já que o primeiro foi lançado somente em 1950, no torneio do Brasil. Daí que ele próprio resolveu essa questão com ajuda de amigos.

Heriberto e o também pesquisador Rogério Michailev perceberam, em 2009, que uma obra iconográfica sobre as Copas do Mundo da fase pré-Segunda Guerra - de 1930, 1934 e 1938 - seria pioneira. Juntamente com Armando Kolbe Júnior e Luís Evaristo, o quarteto de Curitiba partiu atrás de fotografias dos jogadores que disputaram as competições.

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Alguns anos de garimpo depois, o grupo editou álbuns de figurinhas dos três torneios. Cada publicação possui cerca de 40 páginas, com imagens de todos os 22 jogadores inscritos em cada seleção, além dos escudos. "Foi uma iniciativa inédita no mundo", exalta Heriberto, de 68 anos, professor aposentado e pesquisador de futebol há meio século.

A empolgação dele se justifica. Ao todo, os álbuns exibem quase mil rostos de jogadores - alguns desconhecidos até mesmo entre pesquisadores de seus países. São 262 figurinhas na edição de 1930, 366 em 1934 e 348 em 1938. Conseguir tantas fotos de oito décadas atrás foi uma trabalheira monstra. "Escrevemos para deus e o mundo", relata Heriberto.

Cada álbum do grupo é vendido por R$ 250, mais R$ 10 para taxas de frete. Esse valor é inferior ao necessário para comprar as 682 figurinhas do álbum oficial da Copa do Mundo de 2018, que teoricamente sairia por R$ 272 na improvável condição de completá-lo sem achar nenhum cromo repetido.

"Não temos em mente receber um ganho comercial expressivo, mas apenas recuperar os custos de produção física, já que o pagamento pelos nove anos de pesquisa jamais existirá. É só a satisfação de ter mais um trabalho histórico-documental publicado", aponta Heriberto, autor de 34 livros.

"É só a satisfação de ter mais um trabalho histórico-documental publicado"

Até aqui, já foram vendidos cerca de 300 álbuns. Com a boa recepção, os amigos ampliaram o projeto, passando a fazer edições das Copas do Mundo seguintes que não contaram com álbum oficial da Fifa, até 1966. As publicações de 1950 (com 304 cromos) e 1954 (com 382) já foram finalizadas, e no momento a versão de 1958 (com 384) está em produção.

Apesar do esforço, não foi possível conseguir fotos de todos os atletas, sendo preciso apelar a algumas ilustrações. Com isso, os pesquisadores adotaram uma política de recall, enviando novas figurinhas quando encontram fotografias. "Imagens de Chantraine, da Bélgica, e Tassin, da França, de 1930, só apareceram depois", exemplifica Heriberto.

Esse empenho conquistou os colecionadores que abraçaram a ideia. Foi o caso do bibliotecário Ademir Takara, de São Paulo. "O trabalho é incrível, tanto a pesquisa iconográfica quanto o acabamento fotográfico. E o compromisso em continuar procurando fotos com melhor qualidade é fantástico", parabeniza o paulista de 40 anos.

Preencher os álbuns foi um prazer para Ademir, que estreou sua coleção de figurinhas com o livro ilustrado da Copa União de 1987 e, nos últimos anos, retomou com força a paixão de infância. "Sou meio que viciado em álbuns de Copas do Mundo. Colei as figurinhas dos três que comprei durante as férias, em casa", relembra.

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Finalizada a peleja, Ademir doou os álbuns ao Centro de Referência do Futebol Brasileiro, do Museu do Futebol, no estádio do Pacaembu, do qual é administrador. Agora, as publicações estão entre as atrações da maior biblioteca de futebol aberta ao público no país. "Achei uma pena deixar os álbuns escondidos em casa", explica.

Se colar figurinhas de jogadores dos anos 30 foi uma diversão para alguém nascido quatro décadas depois, imagina para quem foi quase contemporâneo daqueles craques. "Guardei um exemplar de cada álbum que produzimos. Colei as figurinhas sozinho, no meu 'canto' de trabalho, como se fosse um menininho adolescente", conta Heriberto.

O namoro com a Panini

De certo modo, a iniciativa dos quatro amigos se assemelha ao pioneirismo dos irmãos Benito e Giuseppe Panini, donos de uma banca de revistas em Modena, na Itália, que em 1961 lançaram o primeiro álbum de figurinhas do Campeonato Italiano. Meio século depois, a Panini hoje é líder mundial do segmento, com faturamento anual de R$ 2,5 bilhões.

Os pesquisadores estiveram na sede da empresa no Brasil, em São Paulo, em 2017, para apresentar sua produção. E ouviram muitos elogios. "Sem dúvida, esse é um material riquíssimo. Foi uma pesquisa gigantesca, minuciosa, que merece nossos parabéns", destaca Vilson Manfrinati, responsável pela área de futebol da Panini no país.

Porém, colecionadores não devem criar a expectativa de ver uma edição retrô dos álbuns de Copas do Mundo. A parceria de cinco décadas com a Fifa contempla os direitos de publicação somente a partir de 1970. "A gente tinha interesse nesse produto, mas seria necessária a autorização de todos os envolvidos. Não temos como viabilizar", lamenta.

A alternativa, adianta Vilson, seria a inclusão do material ao livro da Panini que reúne os álbuns lançados até 2018, publicação vendida na Europa. "Em função da proteção a liberdade de informação, não haveria no livro o impedimento quanto aos direitos autorais, diferentemente dos álbuns. Aí, caberia a Panini conseguir o aval da Fifa", pontua.

Os autores têm um entendimento legal diferente. "A lei brasileira garante os direitos autorais por 70 anos. Assim, os álbuns das Copas de 1930 a 1938 estão sob domínio público, por isso podemos produzir", diverge Heriberto. "Já os álbuns de 1950 até 1966 poderão sofrer as sanções da lei, caso algum parente queira pleitear direitos", reconhece.

Como pretendem seguir com o projeto com ou sem apoio da Panini, os pesquisadores fazem um apelo para que familiares dos atletas compreendam o valor histórico dos álbuns. "Esperamos que eles entendam que estamos fazendo justiça aos 'velhos' jogadores com a nossa documentação", almeja Heriberto. Fãs de figurinhas ficam na torcida.

Serviço:
Álbuns de figurinhas das Copas do Mundo de 1930, 1934, 1938, 1950 e 1954
Autores: Heriberto Machado, 68 anos, professor aposentado e escritor; Luís Evaristo, 52, contador; Armando Kolbe Júnior, 52, professor/doutor em EaD; e Rogério Michailev, 42, professor de Educação Física.
Páginas: 40 a 41 (com figurinhas destacáveis colantes).
Preço: R$ 250, mais R$ 10 para frete.
Contato para compra: (41) 3338.4510 e machado50h@gmail.com.

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