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A Copa da Rússia tem tudo para ser a mais treteira de todos os tempos

Uma análise tática e histórica dos brigões que vão para o Mundial.
Briga entre brasileiros e ingleses durante a Copa de 2014. Foto: Gabriel Uchida

Tem gente que gosta de cheirar cocaína, tem gente que gosta de fazer racha de carro, tem gente que curte trocar socos em dia de futebol. Tem gosto para tudo e dizem que, se é proibido, é ainda mais gostoso. Acontece que, no futebol, esse peculiar prazer pela porrada é fundamentado em uma vasta cultura rica em tradições, costumes e décadas de história. E se a Copa do Mundo é o evento mais importante para esse esporte, é também o acontecimento mais ilustre para os torcedores treteiros de todo o planeta.

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O diferencial deste ano é que o Mundial acontece na casa daqueles que são hoje o “dream team” do hooliganismo: os russos. A Rússia é um país grande, forte, militarizado e bem intolerante - exatamente como seus torcedores violentos. Os hooligans lá são extremamente organizados e bem treinados fisicamente, quase como um exército. Além disso, o sentimento patriótico junto com os ideais de direita permitem que as rivalidades nacionais sejam deixadas de lado para concentrar toda a força contra os inimigos estrangeiros. A parada é tão séria que no ano passado o deputado de ultra-direita Igor Lebedev sugeriu legalizar as brigas antes das partidas. Esse mesmo parlamentar chegou a parabenizar os russos depois de terem tocado o terror na França durante a Eurocopa de 2016. E se naquele ano eles já fizeram um belo estrago, dessa vez estarão em número muito maior e em casa. Então a não ser que o chefe Putin tire uma carta mágica da manga, a Copa deste ano tem tudo para a violência comer solta nas ruas. Se os hooligans russos fossem um time, teriam Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo no ataque. Já que essa é a seleção favorita, vamos analisar também os demais grupos do Mundial - mas sob a perspectiva da trocação de porrada.

Além do Grupo A, que pertence e será dominado pelos donos da casa, o Grupo B tem espanhóis e portugueses, ambos com torcedores (neste caso, os chamados “ultras”) que também gostam de confusão mas que não tem tanta potência, ou seja, são quase figurantes. O azarão aqui é o Marrocos, que recentemente teve uma explosão do movimento ultra no país e hoje é um novato prodígio na cena das arquibancadas mundiais, contudo, a distância e a situação econômica do país dificultam a possibilidade dos seus torcedores brilharem no Mundial. O Grupo C é quase tranquilo, se não fosse a presença da Dinamarca. Apesar de ser um país rico, limpo, organizado e desenvolvido, sua sociedade tem também uma pequena parcela suja por torcedores loucos por porrada e confusão. Contudo, por estarem em número muito menor que os demais, dificilmente vão ter papel principal na Copa.

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Já no Grupo D as coisas ficam mais animadas. Os croatas figuram dentre os grupos de hooligans de maior destaque no mundo. Já os argentinos vão com dois propósitos bem específicos. A torcida com a nata dos barra bravas de vários clubes, as Hinchadas Unidas, se fizeram presentes nos últimos Mundiais, porém, perderam a força e estão fora de jogo. Isso deixa o caminho totalmente aberto para a famosa La 12 do Boca Juniors, que se dizem a torcida oficial da seleção e até já tem camisas com os dizeres: “Os donos da história” - uma clara demonstração de poder. Então os objetivos dos barra bravas são claros: mostrar para os rivais portenhos que a La 12 é a mais poderosa do país e sentar a porrada sem dó nem piedade nos ingleses - fato esse que já vamos explicar. E acontece que a La 12 é orquestrada pela lenda Rafa Di Zeo, o poderoso chefão versão tango e vinho, que é também o cabeça da torcida do Boca Juniors. Ainda que o governo tenha enviado uma lista com 670 nomes de torcedores “indesejáveis” para o Mundial, os barra bravas são peritos em organizar suas aparições. Em 2014 o Brasil também recebeu uma relação dos brigões, mas mesmo assim eles se fizeram presentes. Na ocasião, o grupo de Rafa Di Zeo inclusive teve sua estadia no Rio de Janeiro com apoio do núcleo principal da organizada Força Jovem do Vasco. Como agora a Copa é do outro lado do mundo, já no começo deste ano o mesmo grupo do Di Zeo recebeu uma comitiva de hooligans russos em Buenos Aires. O encontro seria para tratar da logística dos argentinos na competição e debater o ódio por um alvo em comum: os ingleses.

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Seguindo os demais grupos, o E tem um nome de peso: Sérvia. Certamente, os hooligans sérvios entrariam hoje em qualquer seleção com os melhores brigões do mundo. O destaque no grupo F é a Alemanha, que tem uma boa tradição de porrada e onde os brigões de quase todo o país se juntam pela seleção - e também porque boa parte deles compartilha os ideais conservadores de direita, ou extrema-direita em muitos casos.

Grupo de briguentos durante a Copa de 2014 no Brasil. Foto: Gabriel Uchida

Já o Grupo G tem a pobre Inglaterra. O grande pecado dos ingleses foi ter inventado a cultura hooligan e ter acumulado anos de fama por isso. Para entender, imagine que você é fanático por basquete. Com quem você gostaria de jogar? Com as estrelas da NBA, é claro. No hooliganismo é igual. Já que os britânicos por muito tempo espalharam o terror e garrafas quebradas por competições de todo o mundo, os brigões de outros países querem enfrentar quem começou e “brilhou” com essa história toda. Na Copa de 2014, quando a Inglaterra jogou em São Paulo, um grupo de cerca de 50 torcedores saiu pelas ruas da cidade à procura dos famosos ingleses. O curioso daquele time era que a maioria já passava dos 30, 40 anos, quase todos “aposentados” de torcidas organizadas. *Rafael Medeiros, de 39 anos, participou no dia e conta: “A maioria ali nem ia mais para jogo, nosso tempo já foi, mas a gente queria ver se os hooligans são tudo isso mesmo. Acabamos nem brigando com ninguém porque só encontramos torcedor comum, o que a gente queria eram os caras certos deles”.

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O problema para os súditos da rainha é que o hooliganismo inglês é mais um rolê de se vestir bem com as marcas ligadas à cultura casual, encher a cara com os amigos e criar confusão. Só que para os russos e vários outros torcedores, é mais organização, treinamento físico e porrada. Então o que acontece muitas vezes nas praças e ruas antes dos jogos é o encontro de jovens e tiozões ingleses, todos devidamente bêbados e orgulhosos, contra jovens que treinam artes marciais e tratam aquilo de maneira tão profissional que provavelmente nem vão beber álcool para ter um rendimento melhor na treta.

Uruguai e Inglaterra jogaram em São Paulo no dia 19 de junho pela de Copa de 2014. Horas antes da partida, uma horda de britânicos bebia cerveja e cantava no centro da cidade. Entre eles, figuras que seguiam todos os símbolos da cultura treteira futebolística: homens maiores, cabeças raspadas, tatuagens, tênis e roupas de marcas específicas. Não restavam dúvidas, eram os famosos hooligans ingleses. Até que um grupo de cerca de 40 jovens se aproximou. Todos treinavam ou conheciam artes marciais, alguns tinham até protetor bucal. Estavam de capuz e foram se posicionando. “Tava na cara que eram os brigões deles, então cercamos sem chamar muita atenção, demos o ‘play’ e começou a trocação de porrada. Quando eles começaram a recuar, invadimos o bar e pegamos as faixas e bandeiras e fugimos porque a polícia começou a chegar”, conta Fred da Silva, de 33 anos, e que integrava o grupo formado por torcedores de vários clubes paulistas.

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Tretas em São Paulo entre brasileiros e ingleses. Foto: Gabriel Uchida

Além disso, temos o caso específico da Argentina, que é menos sobre futebol e mais sobre uma revanche geopolítica. Sim, torcedores de futebol vão trocar socos por um conflito histórico. Em 1982 aconteceu a Guerra das Malvinas entre Argentina e Reino Unido. Os latinos perderam mais de 600 soldados e um arquipélago ao sul do país - o que resultou também em um ódio pela Inglaterra. Poucos anos depois, na Copa do México em 1986, a La 12 do Boca Juniors também viajou com um propósito bem definido: arrebentar os ingleses. Na ocasião, alguns compatriotas de outros times também se juntaram ao pelotão argentino e saíram atacando os britânicos e roubando suas bandeiras - posteriormente, muitas foram exibidas e queimadas nas arquibancadas da Bombonera. Desde então, já que as Malvinas seguem sendo território inglês, os barra bravas seguem caçando os hooligans da rainha.

Por fim, temos o Grupo H, que conta com a Polônia, bem fraca na bola e incrivelmente forte na treta. Um embate entre poloneses e russos hoje seria como um Floyd Mayweather x McGregor.

E, claro, tem o Brasil. Pela distância e custos (mais de 4 mil reais só a passagem), fica impossível qualquer movimentação com quantidade para causar grandes problemas e ganhar manchetes de jornais - pelo menos no que diz respeito a confusões sérias. *Johnny Santos, de 27 anos, esteve na briga com os britânicos no centro de São Paulo na última Copa e vai viajar com dez amigos: “A gente está há quatro meses em contato com os russos. Depois que mostramos as fotos da briga com os ingleses e as bandeiras roubadas deles aqui em São Paulo, eles falaram que deveríamos fazer o mesmo na Rússia e que eles até nos ajudariam, inclusive vão dar abrigo pra gente lá”. No cenário internacional de torcedores treteiros não existe grandes rivalidades com os tupiniquins. Contudo, o hooligan russo *Max Fyodorov, de 25 anos, pondera: “Nunca tivemos problemas com brasileiros, mas a gente vê as notícias e fotos das torcidas de vocês. Aqui não queremos problema com torcedor normal, mas se quiser briga ou não tiver respeito, ai vão ter confusão.”

Não resta dúvidas: a Copa de 2018 tem tudo para ser a mais treteira de todos os tempos.

*nomes fictícios para proteger as fontes

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