Política

O integralismo brasileiro nunca deixou de existir

O movimento fascista liderado por Plínio Salgado em 1937 continua a respirar.

Por Marie Declercq; ilustração por Felipe Pessanha
21 Fevereiro 2019, 12:14pm

Ilustração: Felipe Pessanha

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

Uma publicação a 27 de Janeiro último no Facebook sobre uma reunião da Frente Integralista Mineira causou uma certa perturbação entre a esquerda e até alguns sectores da direita. As fotos da reunião mostram dois homens a falar ao microfone, numa reunião entre integralistas do estado de Minas Gerais, Brasil. Um deles, fardado e com o símbolo do sigma costurado na manga, ostenta um corte de cabelo moderno para não deixar dúvidas que a foto é de 2019 e não dos anos 1930. "Foi um sucesso o evento realizado ontem em Belo Horizonte, no qual comemorámos o aniversário de Plínio Salgado e fundámos oficialmente o Núcleo Integralista de Minas Gerais", começa a publicação.

O choque em torno da descoberta dessa reunião foi maior do que o próprio sucesso do encontro de simpatizantes de Plínio Salgado. Trata-se de um pequeno grupo, sim, mas deixou muita gente preocupada com um possível regresso do integralismo ao Brasil. A questão é: o integralismo não precisa de voltar, porque nunca sequer deixou de existir.

O integralismo foi fundado em 1932 por Plínio Salgado através da Acção Integralista Brasileira e inspirou-se nas ideologias fascistas que estavam em ascensão na Europa na mesma época. Os camisas verdes, como ficaram conhecidos no Brasil, tinham como principais membros (além de Plínio) Miguel Reale e Gustavo Barroso, também considerados os principais contribuintes para a literatura integralista. No seu auge nos anos 1930, o movimento chegou a despertar alguma simpatia na classe média e até do próprio presidente Getúlio Vargas, mas a sua existência foi proibida pelo próprio em 1937, quando vetou por lei todas agremiações políticas, no início do Estado Novo.

O grupo deixou alguns legados na história do Brasil como a saudação “Anauê” com a mão direita estendida, em clara alusão às saudações fascistas da Alemanha e Itália; a Revoada dos Galinhas Verdes, chamada de “Batalha da Sé”, quando anti-fascistas "desceram o cacete" nos integralistas em 1934; e também o próprio Plínio Salgado, o seu líder máximo, que continuou a actuar politicamente durante a ditadura militar no ARENA. Salgado tinha inclusive admiração por membros de alto escalão do regime, como Alfredo Buzaid, que foi Ministro da Justiça durante o mandato do general do Exército Emílio Garrastazu Médici, de 1969 a 1974 - o ex-ditador chamava Salgado de "Chefe".

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Integralistas fogem dos anti-fascistas na Praça da Sé, em 1934. Imagem via.

Mesmo com a morte de Plínio em 1975, o movimento não se desfez como previsto. Segundo Odilon Caldeira Neto, historiador, investigador de doutoramento da Universidade Federal de Santa Maria e autor do livro Sob o Signo do Sigma: Integralismo, Neointegralismo e o Antissemitismo, o movimento pode ter perdido a força e o viço que tinha na década de 1930, porém, ideologicamente, sempre permaneceu vivo entre os membros das pequenas organizações e simpatizantes. Em 1945, os membros remanescentes da AIB criaram o Partido de Representação Popular, o PRP, pelo qual o próprio Plínio se candidatou à presidência em 1955. Durante a ditadura militar, grande parte dos afiliados rumaram ao ARENA, inclusive Salgado que foi eleito deputado federal por São Paulo. Após a redemocratização, houve aproximações dos integralistas ao PRONA e ao Partido Militar Brasileiro, o qual inclusive gerou o movimento nado-morto da Frente Nacionalista.

O facto de todos líderes do movimento terem morrido há décadas não afectou o integralismo. Inclusive, como o próprio Caldeira frisa, os neo-integralistas do século XXI mantêm-se fieis aos ideais de Salgado, que permanece no campo sobrenatural como o máximo líder da ideologia. Na terra, cabe aos membros vivos disputarem quem carregará a herança de Plínio em nome do grupo.

A própria Frente Integralista Brasileira, por exemplo, não passou a existir após a recente ascensão da extrema-direita brasileira, mas sim em 2001, quando ocorreu o primeiro congresso integralista para o século XXI. “A FIB é a mais fiel às ideias do integralismo entre guerras. Desde a sua criação, ela nunca parou de ter actividades e a sua actuação costuma ser mais restrita, sobretudo em São Paulo, Rio de Janeiro e em algumas regiões do sul”, explica.


Vê: "O Mito de Bolsonaro"


A FIB está longe de ser uma agremiação de massas, mas é bem organizada e tem bem claro que os ideais de Plínio Salgado sempre nortearão os rumos do grupo. Com as redes sociais e as manifestações de 2013, o grupo passou a estender a sua actuação e a mapear as possibilidades políticas na extrema-direita brasileira. “Desde as marchas contra Dilma Rousseff eles voltaram a actuar nas ruas, a Internet sempre foi a principal forma de articulação”, salienta Caldeira Neto.

Com a eleição de Bolsonaro em 2019, os neo-integralistas encontraram finalmente um governo com quem se podem identificar - com algumas ressalvas, claro. Os pontos em comum são os alicerces da extrema-direita: morais e bons costumes cristãos, propriedade privada, família e um fetiche de preservação da identidade e cultura nacional.

Divisão anti-semita

No entanto, há pontos de tensão entre o governo de Bolsonaro e os integralistas. Especialmente a aproximação do Brasil a Israel, que gerou até algumas celeumas no cenário internacional. Aos olhos destes grupos, essa proximidade vai de encontro a algumas ideias e visões de mundo que ganham contornos conspiracionistas e são declaradamente anti-semitas, especialmente as de Gustavo Barroso.

“O conspiracionismo foi uma arma utilizada constantemente pelos integralistas. No geral, para uma organização fascista com uma afeição totalitária, existe uma necessidade de interpretar a identidade do grupo ou mesmo a identidade nacional em projecção contrastante ao outro. Esse outro pode ser construído a partir de diversas categorias. Podem ser os comunistas, podem ser outros adversários políticos e, em algumas instâncias, também os judeus”, conta Caldeira.

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Um das manchetes sobre a Batalha da Sé. Imagem via.

A coisa de se criar uma narrativa conspiracionista para conjurar um grande inimigo à espreita, com objectivos secretos de destruir a moralidade e soberania de um país, seria sim um ponto em comum com o governo Bolsonaro e a ascensão da extrema-direita brasileira. Já o anti-semitismo, não. Barroso não era apenas uma cara bonita no integralismo, mas um dos maiores contribuintes para a literatura da ideologia. Nos seus escritos, o anti-semitismo era um aspecto primordial, enquanto nos textos de Miguel Reale e Salgado eram tópicos mais secundários.

“No caso de Barroso, dentro desse anti-semitismo estava articulada também uma perspectiva conspiracionista, a denúncia de teorias da conspiração. Afinal de contas, Barroso foi o primeiro tradutor e apóstolo dos Protocolos dos Sábios de Sião na língua portuguesa do Brasil. Ou seja, ele é uma figura central não somente para articular o anti-semitismo, como também para o difundir e às suas teorias conspiratórias na sociedade brasileira”, diz.

Com o pós-guerra, o anti-semitismo tornou-se, evidentemente, um problema em todas as alçadas sociais e, com isso, os neo-integralistas começaram um “apagão” do anti-semitismo na doutrina. “É, aparentemente, algo dúbio, porque apagam-se aspectos caros aos escritos integralistas e anti-semitas e conspiracionistas, mas mantém-se a ideia de que o Brasil estaria a sofrer prováveis riscos à sua soberania através de grupos desconhecidos e outras nações”, frisa Odilon.

Embora Bolsonaro e os integralistas sejam primos ideológicos por conta das críticas contra a esquerda e todas as pautas de moral e bons costumes, ainda há pontos de tensão. Além da aproximação de Bolsonaro com o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, há também divergências econômicas como a pauta ultraliberal adotada pelo governo Bolsonaro. “Não existe um apoio completo [ao Bolsonaro], eles não o enxergam como representação dos ideais integralistas, mas sim como um líder político que traz ideias próximos ao integralismo,” explica.

Um dos posts na página da Frente Integralista Brasileira a criticar a privatização da Embraer. Política económica neoliberal é um dos pontos de discordância entre os neo-integralistas e o governo de Bolsonaro.

De facto, o momento que o Brasil vive é propício para os neo-integralistas partirem para a próxima fase, sendo ela uma criação de um partido político nos moldes democráticos, ou até mais um degrau para um governo integralista. Entretanto, os neo-integralistas ainda se resumem a pequenos grupos históricos, cujos líderes definharam há muito tempo nos seus respectivos túmulos. O que não significa que os seus próximos passos não devam ser observados.

Todavia, não foi a ascensão da extrema-direita que os ressuscitou. “O integralismo nunca deixou de existir. O que existe é, actualmente, uma maior articulação - e isso também não quer dizer que Bolsonaro seja integralista. Até porque a eleição de Bolsonaro ainda é pouco para eles. O integralismo na sua auto-percepção é um movimento revolucionário para a regeneração nacional e uma forma de nova política de um estado integral. Os seus adeptos vêem com bons olhos este momento, porque as pautas conservadoras são a ordem do dia e há possibilidade da inserção dos ideais integralistas dentro deste governo que se desenha neste momento. Isso não significa que eles se vão organizar para entrar no campo democrático, mas vão colocar pressão”, conclui.


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