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A arte subtil de hierarquizar o lineup de festivais

Falámos com organizadores de festivais sobre porque é que o tamanho da letra do nome da banda é tão importante.

Por Danny Wright
19 Fevereiro 2019, 6:58pm

O público do festival AMP Lost & Found em 2017. (Foto por Matt Eachus via RP.)

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Noisey.

Para mim, o destaque do documentário da Netflix sobre o Fyre Festival não foi o gajo que destruiu todas as tendas à volta da dele para não ter vizinhos, nem a cena da Evian (que é hilariante). O ponto alto é quando Samuel Krost, de 22 anos, contratado para agendar os artistas e, obviamente sem noção do tamanho da tarefa, está a falar ao telefone com um agente. Com os olhos vidrados, ele faz uma pausa e murmura, exasperado: “Tipo, é só um tamanho de letra”.

Ah, Sammy, meu inocente amiguinho. Para olhos destreinados, cartazes de festival - com os nomes das MEGA ESTRELAS no topo e que vão lentamente diminuindo até precisares de um microscópio para ler as bandas na base - pode parecer que segue um padrão. Mas, há muita arte, ciência e ponderação, sem falar em diplomacia, no ajuste dos 50 ou 60 artistas que vês no cartaz.


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Essa obsessão com posicionamento e tamanho da letra pode parecer ridícula, mas há boas razões para artistas e agentes que os representam darem tanta importância a esses cartazes. A posição de um artista ou banda na nuvem de tags de um festival afecta como serão posicionados no próximo cartaz. Pode também influenciar coisas um pouco nebulosas, como o hype que rodeia o concerto, até questões mais tangíveis, como o preço dos bilhetes e os preços de cachet que os artistas podem cobrar aos organizadores no futuro. O que torna os dias e horas antes do anúncio do lineup de um festival um período delicado: um momento onde egos e prazos colidem.

Para saber mais, falámos com alguns organizadores de festivais que entendem as negociações complexas, litigiosas e tensas que entram no posicionamento dos artistas num festival, a arte do cartaz e, claro, o tamanho da letra. Um responsável por esta decisão disse-nos que a sua equipa lhe mandou responder “sem comentários”. Para alguns, como Adam, do The Great Escape, em Brighton, as coisas geralmente não se mostram difíceis. Quatro outros organizadores aceitaram falar, mas três preferiram permanecer anónimos - chamámos a esses responsáveis de festivais de Organizadores X, Y e Z. Aqui vai o que eles nos tinham a dizer.

“Em alguns anos, tivemos que deixar o nome dos artistas menos legíveis para os podermos colocar uma linha acima”

“Pensamos numa mistura de coisas quando decidimos a ordem: quem mais vende bilhetes em Londres e na região, qual é o espectáculo mais importante para o nosso público, quanto estamos a pagar à banda, quem tem mais hype no momento, quem está em ascensão e em que palcos vão tocar no festival.

“Temos pedidos para aumentar o espaço entre as letras do cartaz, para artistas com nomes mais curtos ocuparem tanto espaço como os artistas com nomes mais longos. Em alguns anos, tivemos que deixar o nome dos artistas menos legíveis para os podermos colocar uma linha acima. Alguns agentes também dizem que outros artistas não vão ligar se são colocados para baixo para, assim, acomodarem os artistas deles mais no topo”. - Organizador Y, Londres.

“Alguém ficou com o trabalho de trocar os nomes dos artistas nas redes sociais entre esquerda e direita todos os dias”

“Decidimos, simplesmente, colocar os artistas por ordem alfabética, o que tornou a vida muito mais fácil, não precisamos de falar com os agentes sobre onde metemos a pessoa, ou ter os agentes a dizerem que o seu artista teria de ficar mais no alto... Portanto, quando os agentes dizem que querem que o nome esteja mais acima, dizemos 'Desculpa, é o nosso procedimento', e 99por cento das vezes não se importam.

Com a maioria dos artistas com quem trabalhei, tivemos sorte de a questão ser mais sobre com quem vão tocar do que a posição no cartaz. Não temos um grande destaque e essa foi uma decisão libertadora, porque não tentamos atrair toda a gente para um concerto – o ethos aqui é que são todos iguais. Não há 'um' grande artista.

Antes de anunciar os artistas, a arte do cartaz tem que ir para os agentes. Se fazemos a arte com 50 nomes, demora tempo a ter a resposta de toda a gente. Tens de deixar felizes as pessoas com quem trabalhas regularmente. Algumas coisas perdem-se na comunicação e eles dizem 'Vocês não disseram que iam fazer isto', mas acabas sempre por fazer as coisas funcionarem.

Num sítio onde trabalhei há muito tempo, dois nomes grandes estavam no mesmo cartaz e os agentes envolvidos não concordavam com quem deveria ser o destaque, o que é ridículo, portanto demos aos dois o estatuto de destaque. Mas, isso não foi suficiente e – e isto não é mentira – alguém ficou com o trabalho de trocar os nomes dos artistas nas redes sociais entre esquerda e direita todos os dias. Foi ridículo”. - Organizador Z, Londres

“O Great Escape é um evento de descoberta, portanto podemos trabalhar com artistas que as pessoas ainda não conhecem”

“Enquanto evento de música nova, tentamos evitar essa conversa a qualquer preço. Agendar 500 artistas já é suficientemente difícil sem ter que trabalhar numa hierarquia. Se essa conversa surge e parece um ponto importante, pensamos noutras formas de dar uma exposição adicional ao artista, já que a maioria da nossa arte apresenta os músicos por ordem alfabética.

Quando selecciono 25 artistas para o nosso vídeo de lançamento, tento colocar uma mistura de géneros e países, em vez de começar com os espectáculos que vendem mais bilhetes. O Great Escape é um evento de descoberta, portanto podemos trabalhar com artistas que as pessoas ainda não conhecem.

O nosso público confia em nós para lhes apresentar o melhor da música nova. Garantimos que todos os artistas têm arte personalizada para partilharem nas redes sociais. Essa arte é assinada pelo agente, empresário ou artista – e entendo a importância do posicionamento para um artista. Mas, esse é um pesadelo que tento evitar a qualquer custo”. - Adam Ryan, The Great Escape

“Quase chorei quando descobri que os dois artistas em questão tinham o mesmo empresário”

“Além dos destaques, não concordamos com o posicionamento dos artistas no cartaz com antecedência. O que é meio ridículo quando pensas na dor de cabeça que isso pode causar mais à frente. Mas, acho que o trabalho aqui é agendar o artista para o festival e não queremos abrir uma caixa de Pandora nesse ponto... O que faria sentido seria agendar com base nos concertos que mais venderam bilhetes na região. Mas, isso voa pela janela quando estás a lidar com um artista com ascensão meteórica versus uma banda icónica que existe há décadas e cuja importância pode ter caído um pouco e eles se recusam a aceitar.

Na verdade, poucos artistas têm uma cláusula de aprovação nos seus contratos. Todavia, aprendi a poupar-me a dores de cabeça de última hora e mando o cartaz para os maiores egos, desculpem AGENTES, o mais cedo possível. É preferível passar alguns dias para trás e para a frente a discutir o posicionamento e conseguir uma aprovação de maneira relaxada, do que ter só alguns minutos para decidir se toda a tua campanha de marketing cuidadosamente pensada, cara e meticulosa deve ser atirada ao lixo e repensada, só porque alguém não gostou de como o seu nome ficou no cartaz.

Mas isso ainda acontece. Já nos pediram para produzir duas versões da arte com dois destaques diferentes no primeiro posto – que 'trocavam' de lugar no site e nos anúncios de imprensa. Também houve uma vez em que dois artistas estavam a discutir sobre o posicionamento, recusando-se a aparecer um depois do outro. Quase chorei quando descobri que os dois artistas em questão tinham o mesmo empresário. Estavam literalmente a lutar entre si! Às vezes acabo no meio de uma discussão entre dois artistas que, simplesmente, não gostam um do outro e cada um quer ser percebido como mais importante que o outro. Devo acrescentar que os agentes querem o melhor possível para os seus artistas. Percepção é importante para músicos e o posicionamento deles num cartaz pode afectar subtilmente as coisas para eles, como os preços dos bilhetes e nas taxas que cobram aos promotores no futuro”. - Organizador X, Londres

“Se és transparente na hora de fechar o acordo, vais ter menos problemas no momento de fechar o cartaz”

“Geralmente, tu e o agente vão ter uma ideia semelhante do status do artista e levar em conta o resto do lineup como um todo, como parte das discussões preliminares onde fazes a tua oferta. A parte complicada é lidar com artistas que acreditam que deveriam receber uma posição mais alta que artistas que vês como iguais a eles ou que têm mais peso.

Em termos de posicionamento, o conceito do estatuto do artista é mais ou menos quantificável – podes usar medidas como fluxos de mercado, vendas de bilhetes, etc. A vendabilidade de um artista é, obviamente, um grande factor, mas não é tudo quando se trata do posicionamento. Maior prestígio ou artistas de nicho devem receber um posicionamento mais alto do que o seu valor como destaque autónomo, por exemplo, mas tem tudo a ver com a 'curadoria' geral e como eles se encaixam no conceito do evento.

Quando se trata da arte para o cartaz principal, ao fim e ao cabo esse é o conceito do organizador, portanto não deverias ter que pedir 'aprovação' do design, mas, para o posicionamento, os artistas no topo querem, geralmente, dar a sua aprovação. Mas, normalmente, se és transparente na hora de fechar o acordo, vais ter menos problemas no momento de fechar o cartaz”. - Chris Tyler, Liverpool Music Week Festival


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