Saúde

Quanto mais me permitia sentir a ansiedade, menos ela me incomodava

O meu mecanismo para lidar com a ansiedade sempre foi a evasão.
30 January 2019, 5:35pm
Woman lying on bed with hands over her eyes.
Anthony Tran 

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Tonic.

Durante anos, achei que estava a lidar muito bem com o meu transtorno de ansiedade. Apesar de ter sido diagnosticada com Transtorno de Stress Pós-Traumático (TSPT) e transtorno de pânico aos vinte e poucos anos, uma combinação de terapia e antidepressivos afastava os piores dos meus sintomas. Quando alguma bolha de pânico subjacente aparecia à superfície, confiava em alguns métodos testados para me sentir melhor. Geralmente, funcionavam. Tomava longos banhos quentes, enfiava-me debaixo do edredon e dormia uma sesta. Se estivesse realmente a sentir-me mal, tomava meio Xanax e acalmava-me.

Mas, em 2017, quando fiz 30 anos, aconteceu uma coisa que deitou tudo isto por terra. Depois de encontrar um pouco de sangue no meu xixi, procurei um urologista, a achar que estava com pedras nos rins ou alguma infecção urinária fácil de tratar. Mas, a fonte da perda de sangue eram quatro tumores na parede da minha bexiga – cancro. E os tumores eram malignos, significando que podiam crescer rapidamente e tinham mais probabilidades de se transformarem em metástases.


Vê: "Matar o Cancro"


Felizmente, o tratamento ao meu cancro de bexiga foi um sucesso – uma cirurgia rápida de quatro horas e quimioterapia e desde aí que estou em remissão. Ainda assim, nos dias a seguir ao diagnóstico, a minha ansiedade engoliu-me. Não conseguia pensar na cirurgia ou no tratamento sem sentir que ia desmaiar. Mesmo depois da cirurgia (que foi um sucesso) e nas consultas seguintes (tudo OK), não conseguia ouvir a palavra “cancro” sem pensar em morrer e deixar os meus filhos, que tinham quatro e cinco anos, órfãos. Para combater isso, os meus banhos foram ficando mais quentes. Dormia durante horas. Tripliquei a minha dose de Xanax. Nada ajudou. A ansiedade era constante e estava a sufocar-me.

Certa noite, sucumbi. Enquanto o meu marido ficava com as crianças, a minha mãe levou-me às urgências. Sentia que ia arrancar a minha pele se tivesse que aguentar aquele pânico por mais uma hora. Na triagem, a chorar desalmadamente, contei a minha história às enfermeiras: ao cancro, podia sobreviver, mas e este terror nauseante sem fim? Se não conseguisse encontrar forma de sair dele, teria que me matar.

Com a ajuda de Ativan, uma enfermeira simpática e um psiquiatra competente, consegui recompor-me. Não queria morrer – não verdadeiramente – só queria que o pânico parasse. Com a ajuda deles, deixei o hospital e encontrei um programa que me ensinaria métodos “baseados no mindfulness” para lidar com a ansiedade.

Naquele ponto, estava disposta a tentar qualquer coisa, mas terapia de mindfulnessdefinido como atenção auto-regulada, com uma atitude de curiosidade, abertura e aceitação – deixava-me muito céptica. Como é que a meditação me ia ajudar a lidar com anos de pânico reprimido, quando nem o Xanax nem antidepressivos o conseguiam conter?

O que eu não sabia na altura é que o mindfulness se tem vindo a mostrar uma grande ajuda para pacientes com uma variedade de transtornos de ansiedade. Num teste clínico publicado em 2017, investigadores descobriram que pacientes com transtorno de ansiedade generalizada (TAG), que passaram por um programa de oito semanas de redução de stress baseado em mindfulness, mostravam uma queda significativa na taxa de hormonas relacionadas ao stress e resposta inflamatória no final do período. Mais impressionante ainda, outro estudo de 2018 mostrou que pacientes podiam reduzir os sintomas de ansiedade significativamente depois de apenas uma hora de sessão de meditação.

No primeiro dia no grupo de ansiedade, sentámo-nos em cadeiras de plástico num grande círculo e partilhámos as nossas expectativas em relação ao programa. Quando chegou a minha vez, encolhi os ombros. “Acho... Acho apenas que não quero mais sentir ansiedade?”, disse. A reacção da instrutora surpreendeu-me. Rindo, abanou a cabeça: “Então, queres que façamos um milagre?”, perguntou.

Fiquei confusa. Um milagre? Claro, acho que um milagre era exactamente o que esperava – da mesma maneira que iria a um consultório com uma infecção de ouvidos e o médico me prescreveria uma combinação “milagrosa” de remédios que acabaria com a infecção. Não é assim que funciona o tratamento? Mas, mindfulness, como aprendi, tinha uma abordagem profundamente diferente. A instrutora explicou-me pacientemente que, ao usar métodos de mindfulness como consciencialização, meditação e respiração, poderíamos mudar o nosso relacionamento com a ansiedade, em vez de tentar bani-la por completo.

Esta não era a resposta que queria ouvir. Na altura, pensei naquela cena do filme Separados de Fresco, em que a Jennifer Aniston e o Vince Vaughn discutem sobre arrumações depois de uma festa. “Eu quero que tu queiras lavar a louça”, grita ela, ele explode e responde “Porque é que eu haveria de querer lavar a louça!?”. Senti-me exactamente assim. Porque é que eu haveria de querer co-existir com a minha ansiedade? Porque é que não me podia livrar dela para sempre, como qualquer outro problema médico?

Muitos pacientes que procuram tratamento para ansiedade têm reclamações parecidas, diz Andrea Quinn, directora interina do Centro de Estudos Psicológicos da Universidade Rutgers. E explica: “Pode ser difícil vender a ideia e não é um tratamento fácil. Temos que dizer às pessoas que não, o tratamento que queremos que faças envolve diminuires o teu instinto de evitar a coisa de que tens medo e experimentares essa ansiedade. As pessoas, geralmente, não acreditam”.

Como muitos outros que procuram este tratamento, o que eu fazia até àquele ponto era tentar escapar à ansiedade, lutar contra ela ou ignorá-la, em vez de realmente a encarar quando ela surgia. Os meus métodos testados, descobri, eram na verdade comportamentos de evasão – algo que alivia a ansiedade no momento, mas a torna pior a longo prazo. “O que acaba por acontecer é que os pacientes sentem que a ansiedade é algo perigoso ou intolerável e que não vão conseguir sobreviver-lhe sem as estratégias que desenvolveram”, diz Quinn. E acrescenta: “Mas, à medida que vão encontrando mais situações desafiantes, a ansiedade começa a interferir demasiado nas suas vidas. Eventualmente, os comportamentos de evasão deixam de ser eficazes e é aí que as pessoas procuram o tratamento”.

Então, porque é que a terapia de mindfulness é tão eficiente? “O que reparamos é que, quando os pacientes observam como se sentem e onde a ansiedade deles se centra no seu corpo, como é essa experiência da ansiedade, ela dissipa-se sozinha”, garante a especialista. E justifica: “O objectivo não é eliminar a ansiedade – é ajudar o paciente a sentir a ansiedade de uma maneira que não os sobrecarregue”.

Comecei a aprender como fazer isso. Cada manhã, na aula, tentávamos um novo exercício de mindfulness, para treinar observar nossos pensamentos e sensações físicas sem julgar. Era muito mais difícil do que eu esperava. Depois do nosso primeiro exercício, em que o grupo devia imaginar os nossos pensamentos a ir e vir na nossa mente como folhas num rio – fiquei tão sobrecarregada com pensamentos ansiosos, que me escorriam lágrimas pelo rosto. Apesar do desconforto, continuámos a treinar, a aprender como ver a nossa ansiedade como observadores curiosos. “Onde no teu corpo é que a ansiedade se localiza?”, a instrutora perguntava, “Tem uma cor? Uma forma? Em quanto a classificarias, numa escala de um a dez?”. Eventualmente, os pensamentos e sentimentos que me deixavam à beira do abismo começaram a parecer-me familiares – aborrecidos, até.

Quanto mais me permitia a, realmente, sentir a minha ansiedade, menos ela me incomodava. Durante o tratamento, a ansiedade tornou-se só numa coisa estranha e desconfortável que o meu cérebro e corpo faziam de vez em quando, algo em que me podia fixar e tentar controlar, ou algo que podia experimentar com o entendimento de que logo passaria. Quanto mais sentia isso e me focava em prestar atenção ao momento, mais rapidamente a ansiedade passava – e, curiosamente, menos aparecia.

Quando terminei o meu tratamento, seis semanas depois, tinha o que nunca pensei que conseguiria alguma vez na vida ter: capacidades para encarar a ansiedade. E, desta vez, eram métodos reais. Afinal de contas, foi mesmo um milagre.


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