Como dormir bem durante os teus anos de faculdade
Ilustración por Elzeline Kooy
Guia VICE para a universidade

Como dormir bem durante os teus anos de faculdade

O desejo constante de fazer uma sesta é sintomático de "um padrão de sono e um estilo de vida pouco saudáveis".
EK
ilustração por Elzeline Kooy
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
19 September 2018, 8:41am

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Holanda.

Dizer que os estudantes universitários dormem pouco é um eufemismo, apesar da quantidade de estudos que mostram que o descanso irregular ou a falta dele pode influenciar negativamente a saúde mental e física de uma pessoa. Apesar disso, convencer um universitário a trocar as festas e as bebedeiras por um regime de descanso bem planificado é uma missão quase impossível. Quem sabe, talvez um dos fundamentos da existência seja precisamente levar uma vida totalmente insana durante uma temporada, sem ligar às consequências.

E, se as coisas funcionam assim, então as perguntas que deveríamos fazer são: como é que se pode sobreviver aos anos de universidade só a dormir o mínimo possível? Serve de alguma coisa dormir uma sestinha durante as aulas? É possível organizar o teu minúsculo apartamento de estudante de forma a favorecer o descanso?

Para tentar obter respostas, falei com vários especialistas do sono, entre eles Suzanne Booji, neurologista do hospital Canisius-Wilhelmina, na cidade holandesa de Nijmegen. "Em primeiro lugar, é importante dizer que a maioria dos estudantes do primeiro ano da universidade precisam de dormir um mínimo de nove horas por noite", conta, acrescentando que muitos jovens começam a converter-se em criaturas nocturnas quando chegam à puberdade, o que implica que é melhor adiar o estudo para mais tarde. E salienta: "A maioria deita-se tarde e acorda tarde. Biologicamente, isso significa que só serão mais produtivos a partir das ultimas horas da tarde. É aí que se conseguem concentrar melhor e se mostram mais activos em muitos aspectos".

Marcel Smits, neurologista do hospital de Gelderland Vally, concorda com Booji. "A fase natural de sono nos estudantes, assim como em adolescentes na puberdade, dispersa-se mais tarde pela noite", explica. Em termos práticos, isto implica que, na altura de planificarem as actividades do dia seguinte, os estudantes deviam ter em conta que vão para a cama tarde. Desta forma podem estabelecer rotinas que lhes permitam ser mais eficientes. "Ir dormir tarde não tem que ser um grande problema, se for feito com alguma regularidade," explica Booji. E acrescenta: "O que não é bom é ir para a cama um dia às duas da manhã e no dia seguinte ir às nove e meia".

Se te custa tremendamente sair da cama de manhã, Smits assegura que o melhor antídoto é seguir o caminho da luz. O especialista justifica: "Vai de bicicleta, de autocarro ou a pé, evita apanhar o metro". Outro elemento crucial para o teu novo estilo de vida saudável é comer a horas regulares e reduzir os snacks entre refeições. "Somos criaturas de hábitos", aponta Booji "e se comes todos os dias à mesma hora, também te vai dar a fome mais ou menos à mesma hora todos os dias". Picar umas batatas fritas mesmo antes de ir para a cama não é grande ajuda. "O teu corpo vai continuar a processá-las e não se consegue dormir bem se o sistema digestivo continuar activo. Às vezes, comer tarde é um mal necessário e, nesses casos, é importante limitar a quantidade de comida que consomes", segundo Booji.

Talvez seja óbvio, mas a quantidade de drogas e de álcool que consomes também pode afetar muito a qualidade do descanso. "O álcool é uma forma muito boa de induzir o sono, mas não ajuda a que te mantenhas a dormir", explica Smits. "É por isso que há pessoas que gostam de beber um copo antes de ir dormir", diz Booji. E sublinha: "Quando vais bêbado para a cama, experimentas menos sono na fase REM e, portanto, dormes menos profundamente e sentes-te menos descansado no dia seguinte".

Alterar drasticamente a quantidade de álcool que ingeres também não é a solução, já que pode ser que o corpo se tenha adaptado a esse novo hábito. "Se um estudante bebe seis cervejas por noite", explica Smits, "não é boa ideia deixar de beber completamente, de repente, na noite antes de um exame, porque vai ter dificuldade para conciliar o sono".

Recordando os meus anos de estudantes, pergunto a Smits sobre a opção de não dormir de todo e ficar acordado à base de bebidas energéticas quando, por exemplo, a data de entrega de um trabalho se aproxima. "Permanecer acordado uma noite não é assim tão mau", confirma, "mas devíamos considerá-lo como uma espécie de sucesso extraordinário de um desportista e não tornar isso num hábito. De certeza que isto já esperavas: na noite antes de uma entrega de um trabalho ou de um exame importante, a melhor coisa que podes fazer é ir dormir cedo".

Daí passámos às sestas, que Smits confirma que são benéficas, ainda que também tenha salientado que o desejo constante de dormir uma sesta é sintomático de "um padrão de sono e um estilo de vida pouco saudáveis". E Booji concorda com ele: "Está comprovado que uma sesta pode ajudar uma pessoa a recuperar sono atrasado. Quando falamos de pessoas com um padrão de sono normal, uma sesta de 10 ou 15 minutos é suficiente. Os que têm dificuldades para dormir, podem chegar a dormir sestas de 30 a 45 minutos".

Também é recomendável terminar qualquer tarefa que requeira um esforço mental ou físico elevado duas horas antes de se ir dormir. "A transição entre um estado de actividade elevada, para um menos activo demora tempo", aponta Smits. E salienta: "Há que planificar as actividades com cabeça e evitar acabar tudo à ultima da hora".

É muito provável que o teu apartamento de estudante seja do pior, mas isso não devia impedir que descanses bem durante a noite. "Assegura-te que tens um bom colchão, cortinas opacas e que nenhum barulho te acorde durante a noite", recomenda Smits. E acrescenta: "O nosso relógio biológico responde principalmente à luz e à escuridão, pelo que, para dormir bem, é importante desligar o computador, o telemóvel e a televisão. Os ecrãs destes dispositivos emitem luz azul que enganam o teu cérebro a pensar que é de dia e, portanto, hora de acordar".

E, por último, de que forma é que ficar a dormir em casa de alguém afecta o nosso descanso? "Muitas pessoas têm que habituar-se aos novos barulhos e a uma iluminação diferente quando dormem num ambiente distinto, o que dificulta a conciliação do sono", confirma Booji. E justifica: "A parte esquerda do cérebro estará mais activa, o que provocará que estejas mais alerta". Por isso, se no dia seguinte tiveres um exame importante, convém que vás dormir a casa depois da festa.

Se realmente quiseres estabelecer um padrão de descanso eficaz durante os teus anos de universidade mas preocupa-te que, ao fazê-lo, não vás desfrutar ao máximo da tua recém conseguida liberdade, não te preocupes. "Não diria a ninguém para deixar de sair ou de beber álcool; simplesmente que o faça com moderação!", conclui Booij.


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