Nos EUA, o capitalismo fez com que os jovens agora prefiram o socialismo

E a "culpa" é também dos democratas norte-americanos e liberais em geral.

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ago 28 2018, 2:38pm

Esquerda: foto por JIM WATSON/AFP/Getty Images. Direita: foto por David Paul Morris/Bloomberg via Getty Images.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Pode ser difícil de imaginar, mas há não assim tanto tempo atrás, o capitalismo parecia mesmo uma boa ideia, pelo menos nos EUA. Não só no sentido de que gente rica tinha coisas de luxo que gostaria de mostrar no Instagram (se ele já existisse), mas também em termos morais, tanto dentro das sociedades como entre elas.

Depois de o capitalismo norte-americano ajudar os aliados a derrotarem os nazis, um forte movimento forte de sindicatos significou que os trabalhadores podiam partilhar a prosperidade económica do pós-guerra. O poder de compra real e uma parcela regular de rendimento para os trabalhadores, eram suficientemente altos para que pessoas (brancas) tivessem uma boa possibilidade de conseguirem um trabalho para a vida inteira, apenas com um diploma do liceu.

É verdade que os mais ricos dos Estados Unidos tinham os seus clubes de golfe exclusivos e resorts de praia, mansões, carros e férias que os cidadãos ditos normais nem sequer poderiam sentir o cheiro. No entanto, coisas como segurança financeira e independência – entre elas, ter um imóvel, se as políticas "redlining" de loteamento não te fodessem – eram, muitas vezes, tangíveis, quando já não estavam mesmo à mão de semear.


Vê: "As corridas de barcos dos ricos num país falido"


Essa era atingiu o seu auge há cerca de 65 anos, quando, apesar de disputas laborais do pós-guerra e a desgraça que foi [o regime de leis racistas norte-americano de] Jim Crow, o boom da economia norte-americana ajudou o país a entrar na Guerra Fria com o pé direito. Produzindo o que ficou conhecido como a Grande Compressão, os altos impostos da Segunda Guerra Mundial e a explosão do movimento sindical já tinham tornado os EUA significativamente mais igualitário no final dos anos 1940 e começo dos 1950. Em 1954, muitas vezes rotulado como o ponto alto do movimento trabalhista americano, a parte do rendimento nacional total dirigido para os 10 por cento mais ricos da população era de “apenas” 32 por cento, segundo uma análise do Economic Policy Institute. Em 2012, em contraste, os 10 por cento mais ricos arrebatavam 48 por cento de todo rendimento, enquanto apenas 11 por cento dos trabalhadores eram representados por sindicatos.

Nessa era do passado, o resto do Planeta teve que testemunhar uma vez atrás da outra o poder impressionante do livre mercado, o triunfo do empreendedorismo individual e da busca por lucro (além de muitas campanhas anti-comunistas mortais e cruéis pelo Mundo). O então vice-presidente Richard Nixon prevaleceu sobre o líder soviético Nikita Khrushchev no famoso “debate da cozinha” de 1959, exaltando a abundância de produtos que os norte-americanos normais tinham ao alcance da mão. Na imaginação mainstream, pelo menos, a alternativa socialista – com as suas implicações autoritárias, racionamentos de bens materiais e estética monótona, representadas pela União Soviética – não era tão empolgante ou divertida.

“Durante muito tempo, qualquer coisa associada com o termo socialista não era algo que podia ser dito na política mainstream se quisesses ser levado a sério”, salienta Stephanie L. Mudge, professora de sociologia e especialista em socialismo da UC-Davis, acrescentando no entanto, que esse nem sempre foi o caso. E justifica: “O capitalismo tem uma trajectória interessante, porque no começo do século XX era, para muita gente, uma palavra mais ou menos má. Depois foi-se valorizando, especialmente no período do pós-guerra”.

Apesar de o capitalismo ainda ter, obviamente, os seus defensores, há cada vez mais evidências de que os millennials estão a afastar-se disso Segundo um estudo do Gallup, divulgado este mês, há mais norte-americanos que apoiam os democratas nos EUA que vêem o socialismo de forma mais positiva (57 por cento) que o capitalismo (47 por cento). E, enquanto essa divisão faz sentido intuitivamente para quem é jovem nos EUA, a discrepância de idades é gritante. Entre as pessoas de 18 a 29 anos, incluindo conservadores e republicanos, uma pequena maioria (51 por cento) dos americanos entrevistados gostavam do socialismo, enquanto menos – 45 por cento – tinham coisas boas a dizer sobre o capitalismo. As pessoas acima de 65 anos, por outro lado, eram bastante mais fãs do capitalismo (60 por cento viam-no como algo positivo) que do socialismo (só 28 por cento).

O que é que aconteceu nas últimas décadas para que se tenha criado uma divisão geracional tão grande? A primeira parte da resposta é que, o "bicho-papão" que era a única superpotência denominada socialista da Terra, desapareceu. Tão importante como o facto de o capitalismo se ter vindo a desintegrar cada vez mais e os democratas, o maior partido político norte-americano construído com base nos piores excessos do capitalismo, não terem conseguido controlar os seus próprios impulsos. Em vez disso, apoiaram uma agenda "banco-friendly" contra a qual muita gente na esquerda ainda luta.

“Sem a Guerra Fria e sem a União Soviética, tornou-se possível falar sobre socialista de um jeito que não era uma referência ao que era entendido como uma sociedade ou sistema político ditatorial”, me disse Mudge. “Em outras palavras, quando não há um exemplo vivo de nenhum país realmente socialistas, as pessoas ficam livres para imaginar diferentes tipos de instituições socialistas sem ter que se defenderem como sendo pró-soviéticas, pró-Stalin ou algo assim.”

“Regra geral, para os jovens – millennials e Gen Z – que não cresceram na Guerra Fria, o socialismo não é o termo pejorativo que já foi”, concorda Andrew Hartman, professor de história da Universidade Estadual de Illinois e autor de Education and the Cold War: The Battle for the American School.

Com o legado da União Soviética e os seus excessos estalinistas a apagar-se da memória colectiva, o capitalismo teve muito tempo e espaço para esticar as suas asas e fazer as pessoas sofrerem. E como sofreram, especialmente depois da crise de 2008 – um processo auxiliado e instigado pela desregulamentação financeira defendida por democratas como Bill Clinton – que puxou o tapete debaixo do mito da economia americana. “Isso moldou completamente como toda uma geração pensa sobre economia”, garante Hartman sobre o crash financeiro e o seu rescaldo.

Na última década, os norte-americanos são cada vez mais prejudicados por dívidas estudantis, uma bigorna iminente que se aproxima antes mesmo de começarem a sua vida económica adulta. A carga média de dívida estudantil de jovens adultos que pagavam pela própria casa em 2010 no país era de cerca de 13 mil dólares [pouco mais de 11 mil euros], segundo uma análise de dados da Reserva Federal dos EUA – e a percentagem de famílias que tinham dívidas estudantis era a mais alta já registada. Foi por volta do mesmo período pós-crash que a dívida estudantil total começou, pela primeira vez, a exceder a dívida de cartões de crédito.

Enquanto as taxas de execução de hipoteca descolavam e milhões de novos arrendatários – alguns deles pessoas que foram despejadas e precisavam de outro sítio para viver – entravam no mercado, as rendas também descolaram, tornando os empregos e as cidades mais atraentes em algo fora de alcance para muita gente. As pessoas que podiam pagar renda viram-se forçadas a usar uma parte cada vez maior do seu rendimento para o fazer: em 2013, metade dos arrendatários dos EUA estavam a gastar 30 por cento do rendimento só para ter um tecto, comparado com 18 por cento uma década antes, segundo o Centro Conjunto de Estudos de Habitação da Harvard. E, por falar em empregos, aqueles que pagam bem sem te fazerem trabalhar 80 horas por semana começam a parecer quase um mito, ou objecto de desprezo.

O capitalismo começou a mostrar-se como um vilão que se fazia passar por herói. E, quanto mais as pessoas analisam o que correu mal, mais revoltadas ficam com o sistema que foram ensinadas a amar.

O colapso económico liderado pela elite financeira em 2008, o subsequente fiasco do mercado de acções, esquemas ponzi, ondas de crimes de colarinho branco, ricos a esconderem os seus activos em paraísos fiscais – para muitos, o capitalismo é hoje visto menos como um mecanismo de prosperidade e mais como uma série de golpes desonestos. Políticos como Bernie Sanders, que abordaram esse ressentimento – em vez de o evitarem, como democratas mainstream tipo Barack Obama – têm beneficiado da ira do povo. “Considero-me parte do processo capitalista de sorteio, pelo qual poucos têm tanto e muitos têm tão pouco, pelo qual a ganância e indiferença de Wall Street acabaram com a nossa economia?”, disse Sanders quando lhe perguntaram se se identificava como um capitalista no debate presidencial democrata em 2015. “Não”, respondeu.

Da mesma forma, Alexandria Ocasio-Cortez, uma social-democrata de 28 anos do Bronx, entrou num desafio eleitoral - com um poderoso democrata no cargo - a mostrar um dedo do meio ao mercado livre – e a expressar um desdém geral pela riqueza organizada – nos seus discursos e na Internet. E, depois da sua vitória, não voltou ao centro. “O capitalismo nem sempre existiu no Mundo e nem sempre vai existir”, disse ao PBD em Julho último.

É difícil encontrar políticos norte-americanos que apoiem abertamente o socialismo no sentido tradicional de indústria estatizada – mesmo Sanders e Ocasio-Cortez não chegam a tanto. Mas, muitos democratas têm o apoio da indústria financeira e defendem o tipo de desregulamentação pró-negócios que tantos eleitores de centro-esquerda desprezam. Apoiar o “socialismo”, seja lá o que isso significa para cada pessoa, é uma forma de sinalizar insatisfação para com esses democratas e liberais anti-regulamentação.

“Tal como o liberalismo se tornou um termo associado à política de terceira via da era Clinton, o socialismo é o termo que Sanders e outros adoptaram para o pólo esquerdo do liberalismo 'New Deal'”, sugere Hartman. Claro que os dois académicos com quem falei também concordam que a explicação mais simples para tudo isto tem a ver com a eleição de 2016. Como Hartman constata: “Quando falam em capitalistas, as pessoas pensam agora em gente como Trump”.


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