Redes Sociais

Uma carta de amor ao porno do Tumblr

O Tumblr vai proibir toda a pornografia e por isso vais deixar de usar o Tumblr.
5.12.18
porno no Tumblr
Imagem via Tumblr

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Espanha.

Não consigo deixar de pensar que há alguém aí fora, alguém com muito poder e com muita vontade de roubar às "pessoas" - e com "pessoas" refiro-me a essa gente que vive vidas cinzentas (não desesperadas, mas vidas que não são uma exaltação de felicidade nem de glória) e que forma parte da grande massa da população, os tais, digamos, "consumidores", "os civis", "o povo", é a isso que me refiro com "gente" - a única coisa que torna suportável o doloroso e sobrecarregado peso da existência; não consigo deixar de pensar que há alguém, aí fora, que quer apagar o sexo da Internet.

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Nem é que o queira mesmo apagar, é mais que o quer, basicamente, juntar todo numa esfera unicamente pornográfica, anulando a ideia do sexual ou do simplesmente erótico em todas as esferas da vida humana que não sejam estritamente eróticas.


Vê: "'TRANSE': Mulheres realizadoras na pornografia brasileira"


Há muito que o Facebook e o Instagram não toleram mamilos e genitais, nem sequer desenhos de mamilos e de genitais, mas tínhamos sempre o Tumblr, berço do porno e das mamas e das pilas, em imagem fixa ou movimento. A merda é que, agora, esta rede social vai fazer o mesmo. Parece impossível, essa rede social que nos oferecia explosões sexuais não desejadas enquanto fazíamos scroll no escritório, agora ficará seca de sexo.

O Tumblr nasceu em 2007 e a sua tolerância extrema a qualquer tipo de conteúdo - sempre legal - era um dos seus principais pontos de atracção. Ainda assim, em Julho de 2017, a empresa disponibilizou um "modo seguro", com o qual certo conteúdo "para adultos" era filtrado, obrigando alguns blogs a marcarem-se como explícitos, para que não aparecessem nas pesquisas das pessoas que tinham o modo seguro activo. Foram várias as tentativas do Tumblr para dissuadir os utilizadores de "flirtarem" com a pornografia mas, apesar disso, não conseguiram evitar que se publicassem imagens e vídeos de pornografia infantil na plataforma, o que, em última instância, levou a esta decisão fatal e definitiva de remover todo o conteúdo erótico e pornográfico. Isto vai acontecer a partir de 17 de Dezembro de 2018.

A partir de agora no Tumblr não será permitido - cito explicitamente as suas normas de utilização - "genitais claramente visíveis ou mamilos femininos de pessoas reais expostos (…), incluindo vídeos, imagens, animações e ilustrações, que mostrem ou representem actos sexuais. Isto inclui qualquer conteúdo foto-realista que possa confundir-se facilmente com corpos reais". Ainda assim, clarificam que "alguns tipos de conteúdos artísticos, educativo e de interesse político ou jornalístico estão permitidos". Segundo o comunicado enviado pelo CEO do Tumblr, Jeff D’Onofrio, "sem este conteúdo na comunidade, temos a oportunidade de criar um ambiente mais inclusivo e no qual mais pessoas se poderão sentir à vontade para se expressarem". OK 👍.

Abençoo esses momentos já caducados nos que, ao dar uma voltinha pelo Tumblr, apareciam do nada quecas totalmente explícitas que perturbavam o cérebro, porque, a beleza dessa rede social, era exactamente a possibilidade de encontrar porno em maiúsculas a qualquer momento. Havia gente que se masturbava desafogadamente graças ao fluxo constante de conteúdo que algumas contas especializadas em material pornográfico ofereciam, mas, a mim, o que me atraía era a surpresa, o estar a ver umas capas de discos de punk '77 e, de repente, encontrar-me cara a cara com uns dedos a penetrar uma vagina. Que grandiosidade!

Se anulamos o sexo dos canais neutros, só poderemos encontrar um certo erotismo nos sítios especializados em pornografia, destruindo a possibilidade do casual e tudo o que isso implica a nível de descoberta e crescimento pessoal.

Se marginalizarmos os amantes do porno e os colocarmos em guetos, bem como tudo o que inclua genitais, a sexualidade desaparecerá das zonas comuns. É como se, fora da Internet, de repente, duas pessoas só pudessem concretizar um acto sexual no "quarto do sexo" (bem, já é quase assim, lamentavelmente), removendo toda a possibilidade de fazer com que a realidade não pornográfica conviva com a realidade pornográfica. Onde ficariam essas quecas na cozinha, ou na paragem de autocarro? Vocês percebem.

Há qualquer coisa de bizarro, sinistro e perturbador em querer amputar a sexualidade de uma esfera social. Percebo os problemas legais que entram em jogo em tudo isto mas, afinal, é só mais uma maneira de negar a realidade, de não a querer compreender e, portanto, de não a querer (se é que sequer se considera) melhorar.


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