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Ciência

Chineses dizem ter criado os primeiros bebés com genes editados. E agora?

Cientistas afirmam que o DNA de duas gémeas foi alterado para as proteger contra o HIV. Muitos especialistas estão já a questionar a validade ética e científica da experiência.

Por Daniel Oberhaus
28 Novembro 2018, 4:48pm

Imagem: Shutterstock.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Motherboard.

Um investigador chinês anunciou que editou o DNA de duas gémeas nascidas este mês de Novembro, para as tornar naturalmente resistentes ao HIV e outras doenças. Se esta experiência se mostrar legítima, estes bebés serão os primeiros do Mundo a nascer com um genoma editado.

He Jiankui, um geneticista que estudou nas Universidades Rice e Stanford nos EUA, fez o anúncio na segunda-feira, 26. Segundo uma revisão do MIT, He editou o DNA de embriões carregados por sete casais, apesar de se recusar a dar o nome dos envolvidos ou o status dos outros bebés, a pedido dos pais. “Sinto uma forte responsabilidade por não só o ter feito primeiro, mas também por dar um exemplo”, afirma He à Associated Press. E acrescenta: “Agora, a sociedade vai decidir o que fazer”.


Vê: "Os 'super ratos' invencíveis geneticamente resistentes ao veneno"


He revela que usou CRISPR-Cas9 para editar os genomas dos embriões humanos. O CRISPR usa uma enzima chamada Cas9 para cortar pequenas porções do DNA e introduzir mudanças genéticas no local. O elemento central do sistema CRISPR é um pequeno pedaço de RNA que se liga a uma sequência específica do DNA num genoma e na enzima Cas9. Uma vez que o RNA está ligado à sequência de DNA, o Cas9 corta o DNA no local alvo e os mecanismos naturais de reparação de DNA da célula trabalham para consertar a sequência. No caso das gémeas recém-nascidas, He diz à Associated Press que editou o seu DNA para as tornar naturalmente resistentes a HIV, varíola e cólera.

A comunidade científica expressou reações mistas ao anúncio de He. Em primeiro lugar, não é certo que o feito tenha realmente acontecido. He não segue o procedimento padrão de publicar os seus resultados num jornal académico, para que outros especialistas em genética os possam revisar. Também não divulgou nenhum detalhe sobre o casal que concebeu as crianças. A única pista de que as alegações de He são legítimas são documentos postados no site da Southern University of Science and Technology (SUSTech), instituição de que He está de licença há meses.

Segundo a Associated Press, a SUSTech disse que o trabalho de He “viola seriamente a ética e os padrões académicos” e planeia investigar o caso. Também se levantam questões sobre se He não terá cometido um erro ético crasso, ao editar embriões humanos viáveis. Apesar de o CRISPR já ter sido usado para editar genes em adultos para tratar com sucesso várias doenças, até agora não tinha sido usado para editar o genoma de um embrião levado até ao fim da gestação. Nos EUA, editar o genoma de embriões é limitado a laboratórios e embriões modificados geneticamente são sempre terminados bastante antes de começarem a amadurecer em fetos.

A preocupação com a edição de um genoma embrionário vem principalmente de incertezas sobre como esse processo vai afectar as próximas gerações. Ao contrário de editar o genoma de um humano adulto para tratar uma doença, mexer no DNA embrionário induz mudanças genéticas que podem ser passadas para as futuras gerações. Um problema é que o CRISPR é conhecido por produzir mudanças genéticas indesejadas, que podem levar a problemas de saúde imprevisíveis nas recém-nascidas.

Na China, porém, as regras sobre a edição de genoma são ligeiramente mais relaxadas que nos EUA. Apesar de a clonagem humana ainda ser considerada ilegal, a edição de genoma de embriões humanos não é. Essa lacuna relativa quando se trata de engenharia genética permitiu que a China fizesse vários avanços notáveis nos últimos anos – incluindo produzir os primeiros macacos clonados, o que era considerado uma grande barreira no caminho para criar o primeiro clone humano.

Também é importante realçar que esta não é a primeira vez que cientistas afirmam ter produzido um bebé geneticamente modificado sem provas. No começo dos anos 2000, investigadores ligados a uma seita disseram ter produzido o primeiro clone humano, o que acabou por se mostrar uma fabricação. No entanto, esse anúncio causou o pânico generalizado em relação à clonagem potencial e levou à aprovação de várias leis de proibição da prática em todo o Mundo.

A China não é exactamente conhecida pela sua honestidade quando se trata de investigação científica: no ano passado, o New York Times relatou que a China foi o país com mais artigos fraudulentos revisados por pares desde 2012. Mais do que todos os outros países juntos e vários resultados de investigações de alto nível não puderam ser replicados por outros cientistas. Por outro lado, a tecnologia de edição de genoma está num ponto onde as alegações de He são plausíveis. Todavia, por enquanto, ainda não sabemos se He apresentou mesmo a humanidade a uma nova era de bebés.


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