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Guia Noisey para curtir Tool, os mais adoráveis pseudo-intelectuais do rock

Arte marginal, um toque de psicadelismo progressivo e pseudo-intelectualidade marcam o confuso, porém cativante, catálogo da banda.

Por Emma Madden; Traduzido por Madalena Maltez
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16 Janeiro 2019, 12:19pm

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Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Noisey US.

Certa vez, um sábio chamado Homer Simpson, sentado no sofá com um cigarro na boca, disparou um belíssimo slogan para todos aqueles que se consideram pessoas auto-suficientes: “Toda a gente é burra, menos eu”. É uma frase boa a que se agarrar quando há muito se é fã dos Tool, este grupo de polímatas polémicos, que passou boa parte dos últimos 29 anos a criar algumas das mais superficialmente desafiadoras composições dentro do rock.

Para quem vê de fora, a música da banda apresenta uma proposta meio estranha, que combina arte marginal, toques de psicadelismo progressivo e filosofia pretensamente profunda - tipo misturar a versão para leigos de Admirável Mundo Novo com uma VHS de Fight Club, mais um nadinha de LSD. Mas, ao fim e ao cabo, os Tool acabaram por congregar um dos públicos mais fiéis do rock, tudo com apenas quatro discos lançados.

Ao longo destes discos podemos encontrar poliritmos complexos e tempos friamente calculados, acompanhados por batidas tribais que vão deixar o teu terceiro olho molhadinho e referências que levaram os fãs da banda a procurarem informação sobre a Sequência de Fibonacci, viagens de ayahuasca e seres extradimensionais, sabes como é, aquelas cenas que fazem de todos uns burros, menos tu. Não é de surpreender que o seu quinto disco, que aparentemente acaba de ser finalizado [e que vão apresentar ao vivo em Portugal, dia 2 de Julho, na Altice Arena], tem sido considerado o mais esperado álbum de heavy metal de todos os tempos”.

A banda juntou-se em finais dos anos 80, quando o gentil e já cansado vocalista Maynard James Keenan conheceu o artista de efeitos especiais e guitarrista Adam Jones. Keenan tinha acabado de passar uma temporada no exército. Uma experiência que apenas cimentou o seu cinismo e lhe abriu os olhos para a desigualdade que moldava os EUA daquela época.

“90% dos meus amigos no exército eram gays ou lésbicas”, afirma Keenan numa biografia escrita por Joel McGiver, intitulada Unleashed: The Story of Tool. E acrescenta: “A maioria destes acabavam por passar por interrogatórios constantes, até eu cheguei a casar no papel com uma lésbica para que ela pudesse manter o seu status”.

O tempo no exército serviu de força motriz para a angústia de Keenan e também como experiência para reforçar a sua visão misantrópica do Mundo. Soma isso ao marasmo da Geração X e a base de operações em Los Angeles (lar da banda ao longo de décadas, apesar das várias canções escritas sobre odiar a cidade) e temos uma banda amarga desde a sua formação, com a entrada do baterista Danny Carey e do baixista Paul D’Amour. Um reflexo do espírito sofrido do começo dos anos 90.


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No entanto, havia algo que os tornava únicos entre outros artistas da época. Ao longo da sua carreira, os Tool sempre se posicionaram como uma banda de intelectuais, com referências a Karl Marx e Carl Jung, acompanhadas por um vocalista acrobático, fazendo com que a banda apelasse a um público com mais cabeça, ao contrário de muitas das bandas grunge daqueles tempos.

Keenan referia-se a alguns dos seus seguidores como “pessoas insuportáveis”, por isso não seria injusto dizer que são quase como proto-fãs de Rick and Morty. O que é frustrante nesta história é que a banda leva mesmo esse pseudo-intelectualismo a sério, coisa a que os seus fãs se prendem tanto como às músicas.

Muitos deixam para trás as tendências adolescentes ainda hoje apresentadas pelos Tool - arrogância, solipsismo e a sensação constante de saber de tudo - ali pela casa dos 20 anos. Visita um mercado de usados qualquer num subúrbio norte-americano e, certamente, encontrarás adolescências inteiras deixadas para trás na forma de CDs dos Machine Head, Staind e Puddle of Mudd. Mas, os discos dos Tool, esses ninguém larga.

Então, porque raios é que, com toda esta empáfia por parte dos Tool, fãs que há muito deveriam ter deixado a banda para trás por questão de puro bom senso e amadurecimento, ainda estão presos a ela? Talvez seja pela insolência que segue em altas e pela capacidade da banda de fazer com que as pessoas se sintam como se soubessem um segredo, como se fossem As Escolhidas. Ou sei lá, talvez seja porque o som é mesmo bom.

Dito isto, já se passaram 12 anos desde que os Tool lançaram o seu último disco e um monte de gente que já devia ter mais noção das coisas (eu) continua a pesquisar no Google todo o santo dia “Quando sai o próximo disco dos Tool?”. Este guia não é apenas uma tentativa de te arrastar pela lama comigo, mas também uma forma de tentar compreender o porquê de todo este fascínio.

(Ao longo deste texto não apresentaremos as músicas dos Tool naquele formato já conhecido de playlist dos nossos guias. A verdade é que talvez seja complicado encontrar material da banda na internet, visto que esta é uma das últimas a resistir à Grande Guerra do Streaming, o que, sejamos honestos, é muito Tool)

Tool grunge

Quando os Tool lançaram o seu primeiro EP, Opiate, em 1992, a banda parecia ir contra a maré da indústria. “As coisas não deviam ter dado certo para os Tool, mas, por mais incrível que pareça, deram”. É esta a frase que abre o livro de McGiver, só que no fim de contas não era bem esse o caso; vê bem, boa parte da história do rock pode ser explicada pelo seu efeito pendular. Tivemos a época do rock espetacular — o exagero do hair metal e do seu devoto público feminino e o rock sincero — bandas que iam contra o establishment com um visual pouco simpático e que acabavam a ser adoradas pela franqueza. Quando Tool chegou, o rock já entrava mais nesta última categoria.

Em 1992, quando Opiate foi lançado, todo o cenário roqueiro tinha mudado: o ano tinha começado com Nevermind, dos Nirvana, a dar um "chega-para-lá" a Dangerous, de Michael Jackson, tirando-o do lugar cimeiro do Top 200 da Billboard, o que marcou a transformação do grunge de fenómeno local para influência internacional. Opiate fica entre a sonoridade grunge em alta da época e o metal que, aos poucos, saía de moda.

“Sweat”, que abre o EP, começa com um riff imundo, ancorado por uma linha de baixo sonolenta, lodosa. É o grunge em sentido figurado que a banda acabou por refinar no seu LP, Undertow, especialmente na faixa “Prison Sex”, que transformou o grunge em nojo e horror. Nela, Keenan canta uma perturbadora diatribe sobre traumas intergeracionais e abuso, distorcendo a regra de ouro bíblica: “Faz aos outros o que te fizeram a ti”, tudo isso enquanto Jones cria com o seu baixo a sonoridade pantanosa típica da banda.

Por mais que boa parte do material lançado pelos Tool nos anos 90 seja notavelmente grunge — com vocais semelhantes ao de Kurt Cobain; o ódio puro, feio e simples; o título contra o establishment do primeiro EP (uma referência à citação de Marx que todos os universitários amam) — o som da banda tinha inspirações diversas, com toques de King Crimson, Black Flag e Meshuggah no início de carreira — o que dificultava a sua associação a uma única cena ou género. E isso era coisa de grunge mesmo, o que não era tão rocker assim era o sem-fim de editoras doidas para assinar com eles.

Playlist: “Sweat” / “Prison Sex” / “Stinkfist” / “Intolerance” / “Swamp Song”

Tool revoltado

“Alguém tira aquele Bob Marley wannabe daqui”, diz Keenan a um público empolgado na primeira das músicas ao vivo de Opiate, “Cold and Ugly”. Desde que apareceram, os Tool sempre odiaram os fãs. “[tocas] música pesada e a tua editora, que nunca teve um disco nas mãos parecido com o que estás a fazer, vende-te à malta fedorenta de rastas com ténis sujos de mijo", disse Keenanao AV Club em 2006.

A banda também odeia “religião”, o “governo” e a “indústria”. Odeia ainda qualquer coisa retro, tatuagens, actrizes inseguras, Prozac, L Ron Hubbard. Provavelmente foi por isso mesmo que acabaram por atrair um público de brancos suburbanos, que gritam com os pais e se vêm na toalha de mãos da casa-de banho. Rockers cujo ódio é infundado, rodeados de privilégios ao ponto da frustração, é uma forma de se descrever os fãs dos Tool e os seus contemporâneos, tendo em conta que o eterno ódio do grupo inspirou um monte de bandas do final dos anos 90 rumo aos anos 2000.

Duvidas? Fred Durst, dos Limp Bizkit, disse à MTV em 1998 que Tool era uma das suas bandas favoritas. “Pode ouvir-se a influência de Maynard em ‘Nobody Loves Me’ [dos Limp Bizkit] bem ali no meio. Imitei a maneira como ele canta”, disse Durst. Já em White Pony, dos Deftones, lançado em 2000, Chino Moreno canta sobre ser abduzido por alienígenas e passear com Keenan, solidificando o status deste enquanto lenda.


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O tom da banda, ao estilo “estás à vontade para gostar de nós, desde que saibas que nós te odiamos", ficou evidente logo em Opiate com as suas guitarras nervosas. “[quando surgimos] éramos produtos daquela merda toda do Reagan, estávamos chateados e fartos”, salientou Carey numa entrevista à Kerrang em 2006. Aquele sentimento insípido, revoltado-com-a-política, regressou no lançamento do quarto disco, 10,000 Days. Na época, Carey refereriu-se a Bush como o pior presidente que os EUA já tiveram. “Estamos frustrados e é por isso que desta vez o disco saiu mais pesado”, comentou na mesma entrevista, referindo-se a 10,000 Days.

Faixas como “Jambi” em particular, mostram uma estratégia extremamente simples e satisfatória na criação de um som raivoso - baixo habilidoso, bateria afinada em consonância com as guitarras e um riff sombrio. É o tipo de peso inspirado em grande parte pelos suecos Meshuggah - uma influência que surgiria mais à frente na carreira da banda, tornando a sua música ainda mais complexa. Mas, antes de 10,000 Days, a agressividade da banda surgia de forma mais directa e menos levada a sério. Ou seja, melhor.

Alguns dos seus melhores momentos nessa onda estão em Ænima. Ali, Keenan fala directamente com os fãs que acusavam a banda de se ter vendido: “I sold my soul to make a record, dipshit, and you bought one”, responde.

Playlist: “Sober” / “Flood” / “Hush” / “The Grudge” / “Jambi” / “Hooker With A Penis”

Tool progressivo

Depois de três discos, os Tool procuravam a imortalidade, coisa que nenhum subgénero do rock poderia comportar, senão o famigerado progressivo. “Odiado, datado, sonicamente envelhecido”, sem contar que era, provavelmente, “o som mais de branco de todos”, de acordo com um artigo do The Atlantic. Mas, o rock progressivo, aquele que Jon Anderson dos Yes apelidou de “um tipo de arte maior”, assentava bem aos Tool. Não é de surpreender que os seus sons mais progressivos tenham surgido no ano em que andaram em digressão com os pais do género, os King Crimson. “Queremos que os nossos discos durem”, disse o guitarrista dos King Crimson, Robert Fripp, no boom do prog lá pelos anos 70.

Essa era a intenção do rock progressivo - manter os seus ouvintes sempre entretidos, a tentarem decifrar cada canção cheia de informação e conceitos; fazer com que os fãs se prostrassem diante de músicos que se consideravam deuses e não parte de uma cena local. E estas mesmas intenções de fazer com que a música durasse, soasse atemporal e transcendente, permeavam Lateralus, disco dos Tool lançado em 2001.


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Não é como se os gajos não estivessem já a apropriar-se dos métodos inscritos na colecção de discos dos seus pais antes disso. Já acontecia. Em 94, a banda tentou fazer dos seus concertos espetáculos ao estilo Pink Floyd, com luzes, lasers e essa cena toda; também tinham abraçado toda uma extravagância e criado grandes paisagens sonoras, comparáveis a bandas como Styx e King Crimson, especialmente em faixas como “Parabol” e “Pushit” no disco anterior, Ænima.

O que faz os Tool tão charmosos para um público pretensamente ambicioso, é que eles pegam nas partes divertidas do progressivo - os instrumentos esquisitos (têm um monte de samples de didgeridoo em Lateralus); as composições complexas e oscilantes (a faixa-título de Lateralus brinca com um tempo baseado na Proporção Áurea de Fibonacci) -, mas sem a complexidade intelectual. E foi isso que chamou a atenção do engenheiro de som David Bottrill, que influenciou e muito a sonoridade progressiva do disco, fazendo-o aproximar-se da banda. “O estilo tocado por eles ainda soa poderoso; é misterioso e ainda assim convidativo”, disse à Magazine em 2001. E acrescentou: “Ao contrário do prog, onde o que importa é o virtuosismo, o esoterismo da música. Isso afasta as pessoas, é preciso mais estudo para compreender. Não é o caso dos Tool”.

Keenan já insistiu que as suas canções “não são comerciais, não se tratam de jingles de três minutos, não são de fácil compreensão - assemelham-se a um filme” e, ao fazer isso, reforçou a ideia de que, ainda assim, valeria a pena adquirir os discos da sua banda. Não é coincidência nenhuma que, na época em que os CDs entraram em decadência, o baterista Danny Carey (juntamente com a sua predilecção pelo oculto) tenha entrado em evidência. Mais especificamente, Carey trouxe consigo um fascínio pela geometria sagrada tão #profunda que acabou por afectar a imagem da banda, tornando-se a base para a arte dos discos seguintes.

Em 2000, lançaram uma box de CDs/DVDs limitados com versões prog ao vivo de canções antigas - destaque para “Pushit” - fazendo da embalagem parte da experiência. Projectado pelo colaborador de longa data, Alex Grey, a arte é apresentada em slipcase translúcida (tornando impossível a sua cópia), com a ilustração de um ser macrocósmico de braços abertos. Esta táctica repetiu-se em Lateralus e 10,000 Days, com resultados parecidos. Não, os gajos não estão no Spotify.

Playlist: “The Patient” / “Reflection” / “Lateralus” / “Rosetta Stoned” / “Pushit” / “Schism” / “Right in Two”

Tool suave

O chamariz dos Tool em cada uma das suas fases - grunge, raivosa, prog - é que eles têm um certo toque de calmaria e feminilidade que os seus colegas nunca tiveram. O golpe fica claro desde o começo, com momentos como na faixa-título de Opiate, em que Keenan alterna momentos de gentileza com berros.

“Eu tenho uma natureza mais aberta do que os meus supostos colegas”, comenta o vocalista em entrevista à Warp. E acrescenta: “A maioria das bandas de rock ou alternativas contam com uma abordagem muito masculina, linear, já no nosso caso acho que há um certo equilíbrio feminino”. Keenan aprendeu com Prince e Bowie - não é possível ser um ícone do rock sem um lado feminino, certificando-se de que a sua banda deixaria esta vertente bem evidente.

No terceiro disco, Ænima, os Tool deixaram para trás o seu som estritamente pesado. O metal sempre foi um género musical para rapazes, de qualquer forma. É música de guerra - tem que se ter um lado suficientemente macho para aguentar o mosh; tem que se ser raivoso e hipócrita o suficiente também. Mas, Ænima serviu para a banda expurgar esta masculinidade, através de métodos bastante masculinos; de acordo com a psicologia jungiana (da qual os Tool são fãs), o “anima” refere-se ao interior feminino, no entanto, a banda usou o termo de tal forma que se tornou num trocadilho sujo - “anima” ficou Ænima - que em inglês soa como enema.

Bem, talvez o disco tenha mesmo sido o enema da banda. Já no lançamento do seu quinto e último disco, 10,000 days, os Tool deixavam clara toda uma vulnerabilidade. “Wings for Marie”, partes um e dois, ainda nos tocam com a sua suavidade. Em homenagem à sua falecida mãe, Keenan canta: “So what have I done / To be a son to an angel?” num assomo de sinceridade tocante, principalmente depois de toda uma carreira em tom de gozo.

Playlist: Opiate” / “Wings For Marie (pt. 1 e 2)” / “H” / “4°”


Emma Madden é jornalista no Reino Unido e perde tempo no Twitter a explicar espirais e outras cenas. Segue-a lá.

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