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Volta, Sócrates. Estás “perdoado”

O Caso Tancos e a nova directiva da Procuradora-Geral da República parecem levar-nos aos tempos do antigo PM.
10 February 2020, 4:59pm
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Há bodes expiatórios que servem para levar porrada de todo lado, como se fossem os únicos que se imiscuíram nos assuntos sensíveis entre a política e a justiça. (Imagem de Ryan Gosling no filme Blade Runner 2049/2017. Cortesia Sony Pictures Releasing)

Na semana passada, a conduta da Procuradora-Geral da República criou celeuma no Ministério Público. Ao invés de defender a independência dos magistrados, Lucília Gago aprova uma polémica directiva que põe em causa a sua autonomia. Imediatamente choveram críticas dentro da classe e, da esquerda à direita, alguns partidos acham a decisão perniciosa.

Sinceramente, não fico surpreso com esta medida opaca em que um procurador pode ver um superior interferir no processo, sem que esse acto seja registado obrigatoriamente..

Não de propósito considerei o Processo de Tancos - e quem realmente estava ao corrente do suposto plano fraudulento da recuperação das armas em 2017 - como o Acontecimento Nacional do ano passado. Com o ex-ministro da Defesa constituído arguido, é natural que se questione qual o nível de envolvência de António Costa na trapaça. E é aqui que a investigação choca com a possível politização da justiça (por estes dias, na qualidade de testemunha de Azeredo Lopes, o chefe do Executivo anda picado com o juiz Carlos Alexandre).

Em Outubro último, na fase de inquirição de Tancos, a revista Sábado noticiou que os procuradores foram proibidos de incomodar o primeiro-ministro e o presidente. Motivo? A dignidade dos cargos. Como!? Então e os outros empregos honrados na sociedade? Devem os mesmos não ser interpelados se houver questões pertinentes sobre eventuais delitos?

A justificação tomada pelo director do DCIAP, Albano Pinto, teve o respaldo de Lucília Gago. Seguindo a mesma desculpa esfarrapada, Costa e Marcelo - se assim o desejarem - podem infringir com livre arbítrio e serem a versão portuguesa de Trump.

Vendo que Joana Marques Vidal era persona non grata do PS com o caso “Marquês” e meteu o nariz na resolução da Polícia Judiciária Militar (que teve, alegadamente, a cobertura de Azeredo na falsidade do “achamento”), começa a ser nítido o porquê da saída da antiga PGR. Nem todos estão preparados para interpretar docilmente o papel de "Bela Adormecida”. O PM e o PR sentem-se descansados? Bem, foram eles que trocaram a Joana pela Lucília…

A “relação frutuosa” entre Pinto Monteiro e José Sócrates parece ter pontos de contacto assustadores com a actualidade.

Nunca 2020 foi tão 2009.


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