Netflix and Disney Haven't Stopped Gen Z from Pirating
Ilustração: Hunter French.

A Gen Z está liderando uma nova onda de pirataria na internet

Parecia que os gigantes do streaming Netflix, Hulu e Disney+ tinham finalmente vencido. Mas a Geração Z está provando que a pirataria nunca vai morrer.
6.3.20

Nunca vou esquecer quando descobri que baixar filmes era possível. Crescendo com minha família estendida com salas cheias de DVDs piratas e televisão por satélite ilegal, meu primo me disse que estava fazendo download de filmes na internet, e não consegui acreditar. Até aquele momento, a internet era só pra Neopets, jogos em flash, Ebaumsworld e MSN Messenger. Verdade mesmo que dava pra assistir filmes que ainda nem tinha saído em vídeo sem ir até uma Blockbuster?

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Era 2003, e baixar músicas já era norma, se não o único jeito que qualquer um que eu conhecia ouvia música. Meu primo me disse que baixava filmes sempre e que levaria um dia inteiro para Dickie Roberts – O Pestinha Cresceu estar pronto pra assistir. Lembro que a qualidade do filme em si e do download era abismal, mas ainda assim – parecia o futuro.

Na minha adolescência, a tecnologia tinha avançado ao ponto onde levava bem menos de um dia para baixar filmes e séries, e sites de streaming como Megavideo significavam que eu podia assistir qualquer coisa que quisesse. Naquela época, ninguém realmente conhecia as leis de pirataria no Canadá, mas todo mundo sabia que tudo bem fazer leech desde que você não fosse a pessoa distribuindo o conteúdo. Em qualquer caso, nunca fui pega ou me senti nem remotamente culpada por estar tecnicamente roubando.

Muita coisa mudou desde então. Apareceu a Netflix e a Blockbuster fechou. Sites que eu usava saíram do ar, e não descobri quais eram os novos. Enquanto novos serviços continuavam entrando no mercado, todos chamando minha atenção ao oferecer coisas exclusivas, meus gastos com streaming decolaram ao ponto que considerei só assinar uma TV a cabo.

Nos últimos anos, comecei a piratear e assistir streaming ilegal de novo, só que a coisa agora era mais complicada – por exemplo, você tinha que usar um VPN. Notei que outros millennials da minha idade também tinham esquecido como piratear e assistir coisas sem uma assinatura, com muitos lamentando a criação de novas plataformas de streaming que ofereciam serviços legais, mas com um boleto chegando todo mês.

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Aí fiquei imaginando: a Gen Z, que cresceu na era em que a Netflix há tempos tinha varrido o auge da pirataria, pirateava também? Surpreendentemente, 20 Gen Zs com quem falei pirateiam e assistem coisas usando sites obscuros – e eles me disseram que os amigos também fazem isso, mesmo com acesso a serviços como Netflix e Hulu.

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Atitudes sobre assistir coisas sem uma assinatura parecem ter mudado dramaticamente. Quando a Disney Plus anunciou suas atrações no Twitter, tuitei que as pessoas tinham esquecido que streaming “ilegal” existe, e muita gente respondeu que eu era uma ladra roubando dos artistas – respostas que dez anos atrás eu nem poderia imaginar.

Tanto a Netflix como a Amazon pagaram pouco ou nenhum imposto federal nos EUA em 2018, e agora a Disney é dona de tudo. Se assisto alguma coisa sem pagar às vezes, não vou perder o sono por causa disso. Consumidores não deveriam ser responsabilizados pelos mesmos padrões que companhias de centenas de bilhões de dólares. Eu nunca piratearia um projeto realmente independente que precisa do dinheiro, e ainda pago mais de 40 dólares por mês em serviços de streaming. Ainda assim, não vou assinar outro serviço só para assistir alguns episódios de uma série que quero começar.

Não sou a única encontrando jeitos sem assinatura de assistir e baixar conteúdo, em 2018, o Global Internet Report da Sandvine sugeriu que estamos voltando para a pirataria; culpa da ascensão de competidores da Netflix. Parece que a Gen Z está liderando a nova onda de pirataria, ou pelo menos se juntando e continuando uma onda intergeracional de pirataria.

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Hana, uma alemã de 18 anos, me disse que foram os pais que a ajudaram a aprender como piratear (o que me fez sentir extremamente velha).

“Meus pais me ensinaram como encontrar sites piratas 'seguros' quando eu era criança, pra não foder com o computador da família baixando algum vírus”, ela me disse por DM no Twitter. Para Hana e muitos outros de sua faixa etária, muito disso tem a ver com acessibilidade. “Acontece que gosto de coisas de nicho que são mais difíceis de acessar legalmente, então não tenho vergonha de piratear como alternativa”, ela disse.

Ela também não tem medo de ser pega. “Não uso torrent porque é fácil de rastrear, e streaming online, mesmo sendo moralmente questionável, não é ilegal desde que o conteúdo continue no site o hospedando e não seja baixado”, ela disse.

A maioria dos Gen Zs certificados (pessoas nascidas entre 1995-2012) com quem falei pirateiam do mesmo jeito.

Sasha, uma canadense de 23 anos, me disse que se voltou para a pirataria e streaming sem assinatura porque muitos dos filmes raros ou mais antigos que ela quer assistir não estão nas plataformas de streaming que ela paga. Muitos dos adolescentes mencionaram que estavam curiosos com filmes que não aparecem em plataformas de streaming (e agora a Netflix tem menos filmes que nunca em sua plataforma, devido a um foco em séries). Ela também não se sente culpada.

“Alugar coisas é muito caro! E ainda assisto filmes no cinema e coisas assim”, ela me disse por DM.

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Alguns adolescentes com quem falei disseram que aprenderam como fazer streaming e torrent com irmãos mais velhos, ou irmãos mais velhos de amigos. Mais comum, alguns começaram a fazer streaming ilegal antes de terem idade para ter um cartão de crédito ou pagar por serviços legítimos com o próprio dinheiro, ou simplesmente não tinham como pagar.

Um irlandês de 20 anos disse: “Quando decidi que fazer streaming ilegal não era uma coisa que me fazia sentir mal, nunca mais vai fazer sentido pagar por alguma coisa que sei conseguir de graça”.

Seria fácil igualar não sentir culpa a não se importar em apoiar os artistas, mas como eu, muitas pessoas disseram que têm suas próprias regras quando se trata de pirataria e apoiar artistas.

“Acho que apoio séries e filmes com que me importo de outras maneiras, e acho difícil acreditar que estou apoiando a arte pagando mais ainda pra Apple”, me disse um cara de 21 anos.

Baseado nas minhas conversas, a geração mais jovem não vai sentir culpa por “roubar” de gigantes da mídia. Eles não podem pagar por vários serviços de streaming, mesmo pessoas da minha idade não podem. Mas além disso, por que ter acesso a plataformas de streaming e ter o dinheiro para pagar por elas deve determinar quem pode consumir arte?

Lembrando do que eu costumava piratear quando era mais nova, era principalmente cinema internacional que eu não achava em lugar nenhum. Foi com um download ilegal que assisti O Hospedeiro de Bong Joon-Ho em 2009, um filme que ainda considero um dos meus favoritos de todos os tempos. Eu não achava esse filme em nenhum outro lugar, e ele me apresentou ao cinema coreano.

A Gen Z já está fodida – então eles pelo menos merecem assistir um filme bacana e realmente sentir alguma coisa.

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