Influenciadoras strippers revelam os segredos da profissão

“Stripfluencers” estão usando o YouTube para educar as pessoas sobre seu trabalho, incluindo o que esperar de um teste e como andar com salto alto de pole dance.
9.9.20
Stripper YouTuber and stripfluencers Tiffany Bourne and Cristina Villegas
Direita para a esquerda: Tiffany Bourne e Cristina Villegas. Fotos cortesia das entrevistadas.

Quem já teve um trabalho de merda que pagava pouco já deve ter pensado o que é preciso para jogar a toalha e virar stripper. Você pode até ter se pegado jogando no Google “como se tornar uma stripper” e passando algumas horas no buraco de coelho do YouTube, assistindo boquiaberta garotas de aplique comprido contando milhares de notas de dólar depois do turno num clube de strip-tease.

Bem-vindo ao mundo do YouTube stripper, um nicho crescente onde mulheres revelam como é a vida das artistas do entretenimento adulto dentro e fora dos clubes. Com a pandemia de coronavírus e entre cada vez mais insegurança empregatícia e demissões em massa, o gênero só está crescendo.

Vídeos do que esperar de um teste num clube, como strippers lidam com impostos e dicas de higiene no trabalho dão um vislumbre de uma profissão cercada de pontos de interrogação, tanto da perspectiva das dançarinas quanto dos espectadores curiosos.

Os vídeos das artistas contando dinheiro são particularmente populares, com facilmente mais de 100 mil visualizações. “Nem toda noite é assim, dei muita, muita sorte”, diz Tiffany Bourne, uma dançarina de Nova York, sentada sobre uma pilha enorme de notas de dólar. O vídeo tem quase um milhão de visualizações.

Parte do apelo é que o YouTube de strip-tease é quase sem dramas, um canto da internet onde o mantra “mulheres apoiando mulheres” parece ser verdade. Diferente de outros bolsões da plataforma como canais de beleza, mukbang e vegan, o YouTube stripper continua sendo um lugar bastante harmonioso.

“Não tem nenhuma treta há algum tempo, as coisas têm sido bem tranquilas”, disse Tiffany, formada recentemente na universidade e contando com 161 mil inscritos, para a VICE. “Acho que a comunidade é muito positiva, comparando com o mundo da beleza e maquiagem.”

Essas strippers influenciadoras, que às vezes se chamam de “stripfluencers”, ficam felizes em compartilhar os segredos da indústria de graça, preparando outras mulheres para navegar nesse mundo. Entre explicações de como lidar com menstruação enquanto você faz pole dance e conselhos de como não quebrar o pescoço andando com aquelas plataformas de salto alto, o conteúdo é bastante educativo mesmo.

Stripfluencer and stripper YouTuber Cristina Villegas

Cristina Villegas. Foto cortesia da entrevistada

Armada com os conselhos certos e um fio dental com pedrarias, Cristina Villegas, uma dançarina de Chicago com 1,53 milhão de inscritos, me disse que qualquer uma pode se dar bem nesse negócio. “Cada pessoa se sente atraída por um tipo de mulher, dito isso, sim, acredito que qualquer mulher pode ter uma carreira na indústria. Você só tem que saber criar uma fantasia”, ela diz.

Mas quem assiste esses canais? Yamilah Nguyen, 23 anos, me disse que aspirantes a strippers são apenas um terço de seus 136 mil inscritos. As pessoas não assistem para ver um manual de como fazer dinheiro com homens cheios de tesão, segundo Yamilah. As pessoas querem entretenimento.

“A maioria dos meus espectadores são mulheres, que assistem porque se identificam comigo e sou transparente, não sou uma pessoa metida que se acha melhor que todo mundo”, ela me disse por e-mail. “Tenho um carro normal e moro num apartamento de um quarto. Compartilho minhas falhas e problemas da vida, e falo com as espectadoras como se fossem minhas amigas.”

Yamilah Nguyen Stripper Influencer YouTuber stripfluencer

Yamilah Nguyen. Foto cortesia da entrevistada

Tiffany diz que seus espectadores são cerca de 86% mulheres. Os espectadores homens são heterossexuais (“os pervertidos”, ela brincou quando falei com ela pelo Zoom) ou gays assistindo por diversão. Um comentário recente no canal dela diz: “ninguém aqui vai fazer teste num clube de strip-tease. Não minta. Todo mundo está comendo na cama assistindo coisas aleatórias”. O comentário tem 16 mil likes. Outro diz: “eu: não tenho a menor intenção de ser stripper. Eu também: assistindo avidamente”.

Para mulheres com muitos seguidores no YouTube, Instagram e OnlyFans, ser uma stripfluencer é mais lucrativo que o strip-tease em si. “Agora as redes sociais são minha principal fonte de renda”, me disse Cristina. “Quando comecei na indústria, minha principal fonte de renda era o strip. Eu fazia entre $2 mil a $10 mil por semana, dependendo do clube e quantos dias eu trabalhava. A renda das redes sociais veio mais tarde na minha carreira, conforme minha plataforma foi crescendo.”

Ter muitos seguidores como parte de um nicho significa que não há garantias que as pessoas vão continuar se importando com você se você sair da indústria. E esse é a questão para as stripfluencers: elas atraem um grande público com vídeos sobre ser stripper, mas ainda não podem largar o trabalho no clube.

“Só vou para o clube agora por causa do YouTube”, diz Tiffany. “Meu nicho é o clube de strip e acho que muitas pessoas me seguem por isso. Agora, mesmo com as pessoas dizendo ‘Adoro o que você faz, adoro sua energia’, elas vêm para o meu canal por causa dos vídeos de stripper, então preciso construir uma conexão com meus espectadores antes de passar para outra coisa.”

Tiffany Bourne stripper influencer stripfluencer Youtube

Tiffany Bourne. Foto cortesia da entrevistada

Para Yamilah, que começou a trabalhar como stripper aos 18 anos, a pandemia serviu como um catalisador para construir outras fontes de renda – incluindo o dinheiro de publicidade do YouTube e vender perucas no Depop – para depender menos no strip-tease.

Ela planeja continuar compartilhando dicas de strip-tease e conselhos online, mesmo não trabalhando atualmente num clube. “Sei que meu público ainda estará interessado porque vai descobrir quem realmente sou e se apaixonar por mim como pessoa, não só como stripper”, ela diz.

Apesar de celebridades como Cardi B e Blac Chyna terem saltado do strip-tease para o sucesso, ainda há estigma cercando trabalho sexual. Se assumir como uma dançarina em 2020 infelizmente ainda vem com muito julgamento. Cristina disse que seu canal no YouTube teve repercussões na sua vida. “Senti uma mudança em relacionamentos com parentes e amigos”, ela diz. “É difícil, mas a razão para eu ter começado a fazer vídeos sobre a indústria era para mudar a perspectiva das pessoas sobre ela.”

Como todo mundo que faz conteúdo online, as youtubers strippers também têm sua demografia de críticos nas seções de comentários. Alguns dizem que as mais famosas mostram só a parte boa – contando dinheiro, comprando lingerie e vídeos de “se arrume comigo” – sem discutir as armadilhas da profissão.

Essas preocupações são compartilhadas por Nina Galy, uma ex-dançarina que saiu da indústria por causa do peso que isso tinha em sua saúde mental. “Algumas youtubers não são totalmente transparentes sobre as outras formas de trabalho sexual que fazem. E elas não dizem que OS RESULTADOS PODEM VARIAR. Já vi garotas que assistiram os vídeos, compraram todas as coisas necessárias, mas não eram realmente feitas para essa indústria.”

Nina largou a profissão em 2018, depois de desenvolver dismorfia corporal como resultado do favoritismo de certos tipos de corpo nos clubes. “No meu caso, eu tinha que dançar ou perder meu apartamento. Claro, dançar não é a pior coisa do mundo, com certeza é melhor que morar na rua, ou mal conseguir se sustentar. Mas encorajo fortemente qualquer uma considerando entrar para a indústria de entretenimento adulto a pensar em seus planos de longo prazo antes de fazer um teste num clube.”

@chubblecreative

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