Clube do Bangue-Bangue Brasileiro: as histórias (e imagens) de três fotojornalistas que cobriram os Crimes de Maio
Foto: Apu Gomes

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Clube do Bangue-Bangue Brasileiro: as histórias (e imagens) de três fotojornalistas que cobriram os Crimes de Maio

Apu Gomes na sua motoca, Filipe Araujo sobrevoando a cidade e André Porto varando as madrugadas. Histórias de três grandes fotojornalistas que cobriram os ataques do PCC e os Crimes de Maio de 2006. E, sim, muitas fotos.
17.5.16

_Há dez anos, São Paulo parou. Pânico na Zona Sul. Pânico em SP. Caos mental geral. Na noite de 12 de maio de 2006, sexta-feira, a maior organização criminosa da história do Brasil, o PCC, pôs em prática um ataque simultâneo a dezenas de alvos pela cidade e motins por cadeias em todo o estado. 59 agentes policiais foram mortos. A retaliação veio com força total, de farda ou capuz, e, nos dias seguintes, centenas de civis morreram por arma de fogo. Este bangue-bangue urbano moderno virou São Paulo do avesso, e, guardadas as devidas proporções, deixou uma marca profunda na psiquê coletiva da cidade, à lá 11 de setembro. Aproveitamos a ocasião de uma década dos _Crimes de Maio_ para relembrar, com uma série de matérias em todos os nossos sites, a fatídica semana, um trauma social que até hoje tem imensa influência na sociedade paulista, das favelas ao Jardins, passando pelo Palácio dos Bandeirantes._

Anotações do fotógrafo: "Um policial militar foi assassinado durante um ataque na Ponte dos Remédios. São Paulo, 12 de maio de 2006". Foto: André Porto

Nas grandes redações paulistanas, em maio de 2006, as escutas policiais entraram em frenesi na madrugada do dia 12. A comunicação entre os homens da lei era facilmente interceptada e as pautas da noite eram ditadas pelos códigos que vinham da voz abafada e metálica.

Começava naquele momento a jornada de três fotógrafos que presenciariam ataques tão incomuns pelos próximos dias. "Na primeira madrugada ninguém sabia o que estava acontecendo. Não tinham um nome, nada. Sabíamos apenas que os policiais estavam morrendo", relata André Porto, fotojornalista veterano e calejado de trabalhar nas madrugadas violentas de São Paulo.

Anotações do fotógrafo: "Com a diminuição da onda de ataques criminosos, durante a madrugada, no centro, a cidade estava tranquila e as ruas quase desertas. Policiais e garis. Os policiais estavam mais calmos. Força Tática patrulhando a Rua Augusta .São Paulo, 17 de maio de 2006". Foto: André Porto

A primeira pauta de Porto foi colar em uma boate na zona sul onde havia acontecido o assassinato de um policial. O tempo de deslocamento até lá custou as imagens. Os cordões de isolamento já montados não liberavam um bom ângulo para o fotógrafo.

No meio dos curiosos encostou um motoboy e disse: "Vixe, hoje tá feio. Acabei de passar na Ponte dos Remédios e mataram um policial lá também". Confiante de que a informação era real, entrou no carro do jornal, que zuncou até a ponte onde seriam feitas as primeiras imagens dos ataques contra a polícia.

Ataque a policiais na Ponte dos Remédios. Foto: André Porto

No meio da via escura, tudo tinha marcas de bala. O único lampejo de vida no local era um policial sozinho guardando a cena do crime. Tudo era muito recente. "Eu fiz as fotos com a ajuda de uma lanterna. Três minutos fotografando e começou a chegar um monte de policial. Eles só olharam pra mim e já foi o suficiente para eu sair de lá", descreve Porto, quando perguntado sobre as fotos que foram parar na capa da Folha de S.Paulo em 13 de maio de 2006.

Anotações do fotógrafo: "Ataque a Policia na Estrada do Marsilac, 377 em Parelheiros. Um policial foi morto e um foi para o hospital em estado grave. São Paulo, 13 de maio de 2006". Foto: Apu Gomes

O dia seguinte amanheceu na mesma intensidade da madrugada anterior. Bem cedinho, lá no fundão da zona Sul, o café da manhã do fotojornalista Apu Gomes foi mais amargo. "Eu vi uma foto do André Porto no jornal, um boné da polícia todo furado e pensei: caraio, o baguio tá louco!" Tão famoso por sua semelhança com o personagem dos Simpsons quanto respeitado pelo seu trabalho como fotógrafo, o ex-motoboy sabe bem como rodar pelas ruas da metrópole. Em cima da motoca e com a câmera no pescoço começou a história do Apu em meio aos ataques.

Policial chora a morte de um parceiro durante ataques do PCC. Foto: Apu Gomes

A primeira foto foi no local de mais um assassinato. "Eu registrei a cena e fui para a delegacia. Vi um policial chorando. O parceiro dele tinha morrido naquela viatura", detalha. "Era complicado fazer fotos de policiais. Eles não queriam que o vizinho visse a foto no jornal e descobrisse que ele é policial. Ninguém sabia quem estava matando. A polícia te via com a câmera na mão e já vinha pra cima."

Anotações do fotógrafo: "Após ataques contra algumas bases da Polícia Militar, mais de 50 carros da Polícia Civil se reuniram em frente ao DEIC e se espalharam pelas ruas em busca de suspeitos. Na foto, policiais atuando na região do Jardim Brasil, zona norte. São Paulo, 13 de maio de 2006". Foto: Filipe Araujo

Do outro lado da cidade, estava Filipe Araujo. Fotógrafo de berço, filho de uma das lendas da fotografia nacional –Jorge Araújo – e linha de frente das notícias mais intensas do jornal O Estado de São Paulo, ele acompanhava um grupo de mais de 50 policiais civis que se reuniram para partir em busca de criminosos membros do PCC. "Antes dos ataques, nossa referencia de crime organizado era o que víamos no Rio de Janeiro. Me surpreendia, na época, a organização do PCC", relata Filipe.

Coquetéis molotov apreendidos com um membro do PCC. São Paulo, 16 de maio de 2006. Foto: André porto

André Porto, que nesse momento já andava pelas ruas sem os logos característicos de carro de jornal, relembra: "Percebemos que a coisa era feia, que estavam matando todo mundo e tiramos os logos do carro". E assim ele continuava sua caça aos fantasmas do PCC. Às vezes, a dica era só um coquetel molotov na delegacia e ele ia atrás. A informação inicial o levava para outras – madrugadas e madrugadas foram varadas. "Em um certo momento a polícia parou de ser atacada e começou a ter muita morte na periferia. Era muito difícil chegar nessas informações. A polícia ficou mais calada."

Anotações do fotógrafo: "Depois dos atentados os ônibus da zona sul foram recolhidos para o pátio. São Paulo, 15 de maio de 2006. Foto: Filipe Araujo

A cidade acordou com notícias de ônibus em chamas e presídios rebelados. Era tudo ao mesmo tempo e muito rápido o vilão dessa história ficou famoso: o Primeiro Comando da Capital literalmente parou São Paulo. "Sabe aquela música do Raul? O dia em que a terra parou, foi isso", brinca Filipe Araujo, que acordou com um boato de atentado com bombas no Aeroporto de Congonhas e foi pra lá de helicóptero. Sim, o fotojornalismo já teve seus tempos dourados. "Aproveitei o voo para também registrar os ônibus trancados no pátio." Com medo dos constantes ataques aos veículos, as empresas de transporte recolheram os ônibus das ruas, aumentando consideravelmente o caos.

Anotações do fotógrafo: "Policial militar observa ônibus incendiado por volta das 15h00 na Estrada do Alvarenga, 2600, zona sul. São Paulo, 15 de maio de 2006". Foto: Apu Gomes

Da janela de casa, no Capão Redondo, Apu Gomes viu uma nuvem de fumaça. "Mano, o que é aquilo?", pensou. "Saí de moto e, pertinho, tinha um ônibus queimando na estrada do Alvarenga. Foi tudo ao mesmo tempo: fogo, rebelião, ataques. Fui pra rua e não sabia o que ia fazer. Colei no CDP Diadema e estava rebelado", relembra. "Mas sabe como é? Fotógrafo quer ação. Às vezes eu chegava no lugar e a imagem não era boa. Eu fotografava e partia pra outra."

Anotações do fotógrafo: "Três homens foram mortos pela polícia durante perseguição. Segundo a polícia, eles roubaram um Peugeot 206 prata e houve troca de tiros. OBS: No carro não havia nenhum buraco de bala aparente. Local: viela próxima à Rua Comandante Antonio Paiva Sampaio, Vila Gustavo, Zona Norte. Os bandidos morreram a caminho do PS Jaçanã". São Paulo, 21 de maio de 2006. Foto: Andre Porto

Depois do pico dos primeiros dias seguiu-se uma guerra mais silenciosa. As chacinas eram muito difíceis de serem registradas, as informações muito mais escassas, relata André Porto. "Mesmo passando por tudo isso eu não vi nenhum cadaver, sempre que eu chegava no local o corpo já tinha sido removido. Eles sempre removiam tudo muito rápido."

Durante o ano todo casos isolados relacionados aos ataques apareciam de vez em quando.

Anotações do fotógrafo: "A Polícia Militar inicia a Operação Saturação por Tropas Especiais, em Diadema, "Morro do Samba". O objetivo é procurar integrantes da facção criminosa do PCC. Em destaque o helicóptero Águia 5. Diadema, 11 de julho de 2006". Foto: Filipe Araujo

É muito louco como funciona a mente dos fotógrafos em meio a tudo isso – o trabalho, a concentração, as horas checando informações e pensando nas imagens retiram da mente a possibilidade de sentir medo - ou ao menos te deixam em um estado de alerta que muitas vezes prega peças na mente, uma espécie de transe.

Em uma das noites, André estava no Capão Redondo e ouviu uns barulhos que pareciam tiro. Preocupado, ele chamou o motorista e perguntou: "É tiro? É tiro?". Ambos concordaram que sim. "Saímos correndo no carro no maior gás", relembra. "Quando viramos a esquina, vimos que o som era só um cara bêbado batendo em uma porta de ferro com um chinelo. Rimos pra cacete."

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Anotações do fotógrafo: "Um policial militar foi assassinado durante um ataque na Ponte dos Remédios. São Paulo, 12 de maio de 2006". Foto: André Porto

Anotações do fotógrafo: "Bandidos atearam fogo em um ônibus na Av. Interlagos durante a madrugada. A avenida ficou interditada até o inicio da manha. São Paulo, 15 de maio de 2006". Foto: André Porto

Anotações do fotógrafo: "Bomba de fabricação caseira que foi colocada no 24 DP. No artefato estava escrito a seguinte frase: "A pobreza amplia a tragédia". São Paulo, 14 de maio de 2006".Foto: André Porto

Anotações do fotógrafo: agência do Bradesco foi atacada durante a madrugada. São Paulo, 15 de maio de 2006."Foto: André Porto

Anotações do fotógrafo: "PMs de prontidão durante os ataques do PCC."Foto: André Porto

Anotações do fotógrafo: Os motoristas e funcionários da cooperativa de transportes "Transcooper" sofreram ameaças de bandidos que diziam ser do PCC. Com medo de serem vitimas dos ataques eles se preveniram deixando todos os extintores disponíveis, além de passar a noite vigiando a garagem com a ajuda de um Pitbull, chamado Hannibal."Foto: André Porto

Anotações do fotógrafo: "Os jovens Thiago Porto Pazeto e Rodrigo Fagundes da Costa foram assassinados por 4 homens encapuzados na esquina da Rua João Ventura dos Santos com Rua Ana Sanches Peres em frente a Pizzaria Tio Patinhas. Minutos depois a polícia retirou os corpos do local alegando ter levado jovens ao hospital para prestar socorro". Osasco, 17 de maio de 2006.Foto: Apu Gomes

Anotações do fotógrafo: "O carcereiro Eduardo Rodrigues, 41, foi assassinado por dois homens na Rua Irmão Joaquim do Livramento, 88A, no Jd. Joao XXIII".Foto: Apu Gomes

Anotações do fotógrafo: "Marca de tiro na base da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo na Avenida Silvio Ribeiro Aragão, no Parque Arariba". São Paulo, 12 de julho de 2006."Foto: Apu Gomes

Anotações do fotógrafo: "Ônibus incendiado por volta das 15h00 na Estrada do Alvarenga, 2600, zona sul". São Paulo, 15 de maio de 2006Foto: Apu Gomes

Anotações do fotógrafo: "Policiais militares preservam o local onde um policial civil foi assassinado. Um depósito de materiais para reciclagem na avenida Engenheiro Caetano Alvares com a Praça Durval Privato, Casa Verde". São Paulo, 12 de julho de 2006Foto: Apu Gomes

Anotações do fotógrafo:"Policiais militares fazem incursão em um viela no Jd. Miriam, na zona sul." São Paulo, 26 de outubro de 2006.Foto: Apu Gomes

Anotações do fotógrafo: "Casas de policiais foram atacadas a tiros, com coquetéis molotov e muros foram pixados com ameaças". São Paulo, 07 de julho de 2006Foto: Apu Gomes

Anotações do fotógrafo: "Policiais montam melhores esquemas para a segurança das bases, Tremembé". São Paulo, 13 de maio de 2006 Foto: Filipe Araujo

Anotações do fotógrafo: "Uma base da 01ª Companhia do 09º Batalhão da PM, na região de Santana, zona norte da capital paulista, foi metralhada por volta das 3h45 desta madrugada por ocupantes de um Fiat Pálio Weekend escuro. No momento do ataque, que causou a destruição de todas as vidraças da base, havia dois policiais. Segundo os soldados Fábio e Cintra, os tiros foram disparados de armas com calibres 40 e 380 mm. Os policiais, que se jogaram ao chão no momento dos tiros e não foram atingidos pelos disparos." São Paulo, 12 de maio de 2006Foto: Filipe Araujo

Anotações do fotógrafo: "Ônibus queimado na Zona Leste." São Paulo, 15 de maio de 2006.Foto: Filipe Araujo

Anotações do fotógrafo:: Ameaça de bomba feita por lideres do PCC. Aeroporto de Congonhas". São Paulo, 15 de maio de 2006.Foto: Filipe Araujo

Anotações do fotógrafo: "Policiais montam melhores esquemas para a segurança das bases, Tremembé". São Paulo, 13 de maio de 2006 Foto: Filipe Araujo

Anotações do fotógrafo: "Amigos e familiares de integrantes do PCC mortos na última noite durante uma troca de tiros com a polícia esperam em frente ao IML de São Bernardo do Campo para identificação dos corpos." São Paulo, 26 de maio de 2006.Foto: Filipe Araujo

Anotações do fotógrafo: "Cova onde foi enterrado o integrante do PCC Nilton Pereira da Silva (Niltinho) morto em confronto com a polícia". São Paulo, 28 de junho de 2006.Foto: Filipe Araujo

Anotações do fotógrafo: "Após ataques contra algumas bases da Polícia Militar, mais de 50 carros da Polícia Civil se reuniram em frente ao DEIC e se espalharam pelas ruas em busca de suspeitos. Na foto, policiais atuando na região do Jardim Brasil, zona norte. São Paulo, 13 de maio de 2006".Foto: Filipe Araujo

Anotações do fotógrafo: "Uma base da 01ª Companhia do 09º Batalhão da PM, na região de Santana, zona norte da capital paulista, foi metralhada por volta das 3h45 desta madrugada por ocupantes de um Fiat Pálio Weekend escuro. No momento do ataque, que causou a destruição de todas as vidraças da base, havia dois policiais. Segundo os soldados Fábio e Cintra, os tiros foram disparados de armas com calibres 40 e 380 mm. Os policiais, que se jogaram ao chão no momento dos tiros e não foram atingidos pelos disparos." São Paulo, 12 de maio de 2006Foto: Filipe Araujo