Cozinhar com sangue convenceu-me a deixar de ser vegetariana

Entendi como um pouco de sangue no estômago pode significar menos sangue nas minhas mãos.

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29 Novembro 2016, 3:30pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Alps.

Um dia, tinha eu nove anos, decidi não tocar num pedaço de frango que tinha no prato. Naquele momento, percebi que, se realmente amava os animais e os considerava meus amigos, tinha que parar de comê-los. Assim, comprometi-me com a causa. Daquele dia em diante, boicotei qualquer coisa que os meus pais me tentassem dar que incluísse carne ou peixe. Com os anos, encontrei razões mais complexas para me manter afastada da carne, pelo que sou vegetariana e, desde há 15 anos, também parcialmente vegan.

No entanto, tudo mudou quando conheci Laura Schälchli. Laura, 34 anos, é uma especialista em alimentos, que dedicou metade da sua vida a questões políticas e morais levantadas pelo modo como nos alimentamos. Estudava Gestão de Design em Nova Iorque e trabalhava como empregada de mesa em part time quando começou a interessar-se pela cultura da comida. Seguiu esse interesse na Universidade de Ciências Gastronómicas (UNICG), na região de Piedmont, em Itália. O estabelecimento de ensino foca-se na relação entre comida e cultura e foi fundado por Carlo Petrine, o mesmo que fundou o Movimento Slow Food.


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Depois da UNICG, ela tornou-se presidente da Juventude Slow Food da Suíça, e começou a lançar vários restaurantes pop up. Também dá palestras e workshops sobre como podemos expandir os nossos hábitos alimentares. E foi assim que entrei em contacto com ela. Minutos depois de me atender o telefone, Laura já tinha demolido todo o meu sistema de crenças.

"Não entendo como é que alguém pode ser vegan, ou qualquer outro tipo de pessoa que come conscientemente, se comprar chocolates e bananas, por exemplo", diz Laura. E acrescenta: "Toda a gente sabe que as condições nas plantações de bananas e cacau são desumanas para os trabalhadores". É verdade, eu sei que é quase impossível encontrar uma tablete de chocolate que não seja resultado de trabalho infantil e escravidão e sei que trabalhadores da indústria da banana enfrentam os mesmos tipos de condições.

Como a escritora Joanna Blythman escreveu no Guardian: "Os trabalhadores [das plantações de banana] geralmente vivem em barracos lamentáveis perto da plantação, ou viajam de autocarro durante horas para trabalharem ao longo de um dia comprido e desgastante. Pagos por produção, eles têm que trabalhar até caírem para conseguirem o suficiente para sobreviver". Enquanto isso, o preço que pagas por uma maçã ou pêra cultivada localmente em muitos supermercados de Inglaterra [e até mesmo aqui em Portugal] é mais que o dobro do preço das bananas que vêm do outro lado do Mundo.

Sabendo disso, seria muito mais justo e sustentável comer ocasionalmente uma peça de carne orgânica de uma vaca local, em vez de todas as bananas e tabletes de chocolate que engoli nos últimos 15 anos.

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Isto não é um smoothie de beterraba. Todas as fotos por Raphael Erhart.

Laura acredita que pessoas que comem carne devem comprometer-se a consumir o animal inteiro. Incluindo o sangue. Usar sangue em pratos é uma tradição milenar, mas mesmo que já tenhas experimentado chouriço [ou, claro uma boa cabidela], este tipo de produtos tem-se tornado cada vez menos popular com os anos.

Nas aulas que dá em Zurique, na Suíça, Laura ensina coisas sobre degustação de vinhos, mas também faz workshops sobre como cozinhar com sangue. Ao telefone, ela diz que acha que está na altura de uma vegetariana obstinada como eu reconsiderar comer o que como habitualmente. E, como eu tinha perdido o último workshop, convidou-me a ir a sua casa, em Zurique, para preparar uma das suas receitas sangrentas.

O sangue com que Laura e eu vamos cozinhar é de uma fonte garantida - Laura compra-o ao seu produtor favorito, nos arredores de Zurique. Os donos da quinta são Claudia e Nils Müller, que anestesiam e abatem os animais no pasto. Em vez de ser transportado para um matadouro a horas de distância e stressar no caminho, o gado é abatido num cenário familiar. Nils e Claudia são os primeiros produtores da Suíça a obterem permissão para fazer esse tipo de abate. Uma autorização que foi dada em Maio de 2016.

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Estamos em casa de Laura com uma garrafa de sangue morno, que horas antes ainda estava a pulsar nas veias de um feliz novilho de dois anos. Laura abre a garrafa e prova o líquido vermelho, que se parece um pouco com sumo de beterraba. Momentos depois, dou por mim a colocar uma colher de chá de sangue na boca e imediatamente fico enojada. Isto não é sumo de beterraba, é sangue. Conheço o gosto do meu próprio sangue (não sou assim tão militante para não lamber o sangue quando aleijo as cutículas), mas isto, claramente, não tem o mesmo sabor. É o sangue de um animal. Não sabe a nada.

Laura explica que um porco abatido resulta em 2,5 litros de sangue, enquanto um novilho, como o nosso, perde 4,5 litros de sangue. Geralmente acaba por ser usado na ração, ou aproveitado pela indústria farmacêutica, mas também podes fazer ravioli com sangue, que é a receita que vou preparar com a Laura.

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Vamos preparar a receita com Vin Cuit - vinho quente suíço. A receita é a interpretação de Laura do prato tradicional de Vin Cuit com cebolas. A primeira coisa que Laura me pede para fazer é sovar a massa, o que é um alívio.

Misturo farinha, gema de ovo e óleo na massa. Conforme acrescento o sangue, a massa fica com uma cor magenta brilhante. Ainda assim, é fácil esquecer que estou a trabalhar com um fluído corporal que mantinha um animal vivo até hoje de manhã.

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Laura também faz workshops com crianças. "Vejo muitas crianças que têm medo de tocar na comida, o que é um choque para mim", diz. E acrescenta: "Quando precisam de passar pedaços de fruta da tábua de corte para uma tigela, muitas delas usam os talheres em vez das mãos".

Segundo Laura, isso mostra que somos criados para mantermos distância da nossa comida, especialmente quando consideramos que as crianças geralmente tocam em tudo o que podem no dia-a-dia.

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O sangue tem um ponto de ebulição baixo, portanto temos que aquecer o líquido com cuidado. O sangue vai-se tornando cada vez mais grosso durante o processo e, enquanto mexo a panela, não consigo parar de pensar no animal que deu a sua vida pelo meu prato.

Enquanto isso, Laura coloca a massa na máquina da massa e já está pronta para fazer os raviolis. Ela também prepara um recheio de ricota misturada com sangue e diz que a ricota suaviza o gosto do sangue. Algo que, certamente, me ajudaria a comer o ravioli sem pensar tanto em morte e horror. Finalmente, ela coloca os raviolis na panela com água, sal e manteiga de sálvia.

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Já estou cheia de fome quando Laura e eu nos sentamos para jantar com o fotógrafo Raphael Erhart. Laura olha-me curiosa enquanto mastigo o meu primeiro pedaço de ravioli de sangue. Não sinto o sabor de nada estranho - não tem um sabor tão metálico como Laura disse que teria. A imagem de um pequeno animal inocente de olhos grandes ainda aparece na minha cabeça, mas já não me incomoda tanto. Raphael claramente luta mais que eu com a ideia de comer sangue.

Mas sim, ficou muito saboroso. Noto que passo várias vezes a língua nos dentes para ver se há algum sangue preso, até me lembrar que só estou a comer massa e não sou o Eric Northman. Sirvo-me de um segundo prato e tenho que dizer que prefiro o ravioli de ricota ao de Vin Cuit. O novilho na minha cabeça solta um suspiro desapontado.

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Posso ter traído o animal, mas parece que não traí o meu sistema digestivo. Sobrevivi no dia seguinte sem nenhum desconforto físico. E posso dizer agora que, depois de 15 anos a evitar carne religiosamente, já não sou estritamente vegetariana.

Se souber de onde veio o sangue, a carne ou os miúdos e como o animal morreu, vou comer. Da mesma maneira, vou cortar bananas da minha dieta se elas não vierem de uma fonte justa e reduzir drasticamente o meu consumo de chocolate, abacate, quinoa e outras coisas deliciosas que podem não me deixar com sangue no estômago, mas deixam-me com um pouco de sangue nas mãos.


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