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Por que a Brutalidade Policial Não Vai Impedir os Protestos Ambientais na China

Apesar de grandes protestos ainda serem raros na China, onde é ilegal realizar manifestações sem permissão oficial, as notícias de um em Maoming contra uma petroquímica e sua produção de PX não foram surpresa.
11 April 2014, 12:00pm

Filmagem de um protesto na China.

No dia 30 de março, cerca de mil ativistas se reuniram em Maoming – uma cidade no sudoeste da China – para protestar contra a proposta de construção de uma usina petroquímica. O fato de alguém querer construir uma petroquímica no meio de uma cidade já seria justificativa suficiente para protestar, mas os opositores do plano estão particularmente preocupados com o para-xileno (PX) que a usina pretende produzir – um poluente que pode causar danos aos órgãos abdominais e ao sistema nervoso se inalado ou absorvido pela pele.

Apesar de grandes protestos ainda serem raros na China, onde é ilegal realizar manifestações sem permissão oficial, as notícias desse em particular não foram surpresa, já que os protestos ambientais vêm acontecendo com certa frequência nos últimos anos. Em 2011, um deles em Dalian, província de Liaoning, resultou na realocação de uma usina de PX. Depois, em 2012, um plano de construção de um duto, que levaria resíduos industriais direto para o mar na cidade de Qidong, foi descartado depois que manifestantes invadiram escritórios do governo e viraram carros.

A polícia tem sido, fora algumas exceções, tolerante com os protestos ambientais. No entanto, tudo isso mudou em Maoming. Imagens de policiais armados com cassetetes perseguindo o público, pessoas caídas em poças de sangue e bloqueios de escombros carbonizados se espalharam por todas as redes sociais chinesas no dia do protesto, e foram rapidamente excluídas pelas autoridades.

As imagens – postadas em vários blogs e notadas pela mídia internacional – não tiveram ainda a autenticidade verificada. Mas uma testemunha, que não estava envolvida diretamente na manifestação, me disse: “Vi policiais batendo nas pessoas com pedaços de pau. Eles usaram gás lacrimogêneo bem perto de mim. Também vi pessoas incendiando e destruindo carros; eles estavam quebrando carros e quiosques da polícia. As janelas do prédio do governo municipal foram quebradas. Ouvi gritos e bombas até as três da manhã”.

A polícia espancando manifestantes com cassetetes em Maoming.

Os manifestantes afirmam que muitos ficaram feridos e cerca de oito pessoas foram mortas. No entanto, nenhum dos supostos mortos foi identificado, nenhum familiar falou com a mídia e o Governo Popular de Maoming divulgou uma carta aos moradores negando qualquer morte no incidente (lembrando que as autoridades chinesas não são famosas por sua transparência).

Defendendo a ação policial, eles escreveram: “Durante a tarde, um número pequeno de pessoas bloqueou o tráfego da rua, depois se dispersou de forma gradual. No entanto, depois das 22h30, um número pequeno de arruaceiros em motos começou a vandalizar instalações públicas, atirando pedras e garrafas plásticas. O Departamento de Segurança Pública agiu de maneira rápida e decisiva, restaurando a ordem na cena de forma efetiva. Ninguém foi morto no incidente”.

Pode até ser que os policiais estivessem reagindo às provocações, mas sua suposta brutalidade representa um resfriamento na postura de tolerância e o início de algo mais draconiano.

Conversei com o Dr. Willy Lam, professor de estudos chineses da Universidade Internacional Akita no Japão e professor adjunto da Universidade Chinesa de Hong Kong. Ele disse que, como os protestos ambientais se tornaram tendência na China, as autoridades podem ter usado a manifestação recente em Maoming para dar um aviso violento aos que estejam pensando em realizar um protesto no futuro.

“O fato de parecer que as autoridades estavam se comportando recentemente fez as pessoas perderem um pouco o medo”, ele disse. “Então, muita gente está se perguntando por que, dessa vez, a polícia usou táticas draconianas. As autoridades podem sentir que esses [protestos ambientais] estão se tornando uma tendência, então, se não agirem de maneira dura, isso pode encorajar as pessoas a se manifestarem. É uma conclusão razoável que eles queiram dar um exemplo para assustar outros possíveis manifestantes.”

Além de perseguir manifestantes com pedaços de pau em Maoming, as autoridades também vêm tentando envenenar as raízes dos protestos. Ao saber que muitos ativistas são jovens e educados, o governo local estaria espalhando material desencorajando atividades de dissidência ao redor da construção da petroquímica nas escolas locais.

Um morador de Maoming, que vem dando aulas particulares, me disse: “Dou aula para um garoto do ensino médio. Ele me disse que a escola o forçou a assinar um acordo para evitar que os estudantes tomem parte nas manifestações [contra a usina]”.

O documento a que o professor se refere tem rodado as redes sociais chinesas. “Para fazer de Maoming uma base industrial química de nível mundial, o projeto do para-xileno deve ser promovido ativa e firmemente, para assim desenvolver nossa cidade e preservar a estabilidade social”, diz o acordo. Ao assinar, a pessoa concorda em “nunca participar de qualquer atividade que vá contra ou dificulte a construção do projeto”.

O governo municipal diz que se a maioria dos moradores de Maoming rejeitar a usina de PX, eles não a construirão. Mas vendo o modo como eles estão tentando incutir uma cultura do medo ao redor da oposição ao plano, e fazendo as pessoas concordarem por escrito a não se opor, é muito provável que eles já se decidiram quanto a isso.

O governo do presidente Xi Jinping pode estar tentando dissuadir as pessoas de tentar arruinar seus planos de expansão industrial, mas poucos pensam que a campanha antiprotestos vai ter sucesso a longo prazo. Há muitas outras questões ambientais preocupando os chineses além de usinas de PX, entre elas, a mais óbvia: os blocos pesados de smog pairando sobre as maiores cidades do país. Então, os manifestantes vão provavelmente se organizar de acordo, com ou sem gás lacrimogêneo.

Falei com Liu Jianqiang, ex-jornalista investigativo que edita o site Chinadialogue.net e que tem feito a cobertura da usina de PX. “Os protestos vão continuar porque a crise ambiental na China vai ficar mais séria no futuro”, ele disse. “As pessoas sentem que têm mais liberdade para protestar agora? Sim, porque elas foram encorajadas pelo sucesso dos protestos anteriores. O governo e as empresas locais nunca aprenderam com os protestos anteriores contra o PX. Eles têm uma fé cega de que seus próprios poderes são mais fortes do que a vontade do povo.”

O Dr. Willy Lam concorda. “Essa retomada de táticas mais duras não vai impedir as pessoas de protestar. Também há interesses econômicos envolvidos, além de saúde”, ele disse. “Se houver uma grande fábrica de PX na vizinhança, o preço das residências ali vai despencar. Isso é um impacto direto no status econômico e no bem-estar das pessoas. Eles podem tentar adotar uma abordagem diferente, mas os protesto vão aumentar. As pessoas estudaram mais agora. Alguns [manifestantes] são do interior, mas há outros das cidades – pessoas formadas e conscientes de seus direitos.”

Uma visão aérea dos protestos em Maoming.

Mesmo não havendo simpatia por policiais violentos, há um sentimento entre os manifestantes de que é preciso conhecer a fundo os fatos sobre o PX. Ao passo que o smog é, sem dúvida, uma coisa negativa, seus efeitos prejudiciais do PX são contestados por muitos.

Xia Zhaolin, professor de toxicologia da Universidade Fudan, disse ao China Daily – um site que passa por censura, mas que não é um porta-voz do governo – “Minha área de pesquisa é o impacto dos químicos na saúde dos trabalhadores, e o PX não é um tema que me interessa”.

Ele acrescentou: “Em experimentos reais, um animal teria que se expor a uma dose maciça de PX para atingir os níveis que resultam em morte. O país está produzindo uma grande quantidade de outros químicos muito mais tóxicos do que o PX, como benzeno e cloroeteno. A razão para o PX ter sido apontado e ter iniciado um número tão grande de protestos é porque o governo não tem confiança no povo”.

“Basicamente, eles perderam a fé no sistema”, concordou o Dr. Lam.

Parece que anos de inação e encobrimentos de fatos pelo governo causaram esse ponto de vista comum. Tanto é verdade que qualquer afirmação científica feita para reforçar a posição das autoridades é marcada instantaneamente como propaganda, não importa quão forte seja. E cada cassetete torna um pouco mais difícil para os chineses acreditar no que o governo diz.

@jamiefullerton1