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Música

Lembrando de Malcon McLaren

Uma das entrevistas mais inspiradoras e engraçadas que eu já fiz com uma pessoa famosa.

Antes de conhecer o Malcolm McLaren, eu era um desses cínicos que não conseguia deixar de vê-lo como o “malvado svengali que abusou do pobre Sid”, imagem criada principalmente por gente como John Lydon. Nosso primeiro encontro foi há cinco anos na Rue Réaumur, no 3º distrito de Paris, e o tempo que passamos juntos mudou a percepção que eu tinha dele. A conversa que tivemos durante o almoço resultou neste artigo.

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Ele chegou 45 minutos atrasado no Au Bascou, e sua saudação foi um broxante “Pra que isso tudo mesmo?” que partiu meu coração. Felizmente o que aconteceu depois foi uma das entrevistas mais inspiradoras e engraçadas que eu já fiz com uma pessoa famosa.

Conversamos por duas horas sobre a vida e suas opiniões sobre muitas, muitas e muitas coisas. O que mais me chamou a atenção foi o seu senso de humor em relação à indústria musical moderna e ao mundo da arte, e como ele sempre viu isso como realmente era: uma montanha gigante e podre de nonsense e bosta vagamente baseada na ideia de showbiz. E, sério, o que há de errado em cagar pra isso tudo vestindo as pessoas de pirata, reivindicando a invenção do o hip-hop e punk rock, ou dizendo qualquer outra coisa como as várias que ele falou em outras entrevistas pra chatear os seus detratores e inimigos? Sua filosofia era a de que a sociedade, e os metidos à besta que a apoiavam, existiam só pra serem provocados e incitados ao questionamento. Se não fizermos isso, resta apenas esperar por uma morte vagarosa. Se isso não é uma filosofia “punk”, então não sei o que é.

Era o segundo ou terceiro ano da [casa de shows londrina] Old Blue Last, e me lembro da sua empolgação quando contei pra ele sobre essa safra de bandas new wave que estava tocando no andar de cima, como os Horrors e Klaxons, e como o “grime” também tinha espaço por lá. Convidei-o para uma visita, mas, diferentemente do seu empresário colega/svengali, Tony Wilson – que veio nos ver uma vez –, ele nunca aceitou o convite.

Depois que acabamos a refeição (a dele ficou pela metade), caminhamos juntos pelas ruas e ele me deu uma aula de como os princípios do socialismo tinham relação direta com o tamanho dos banheiros em Paris. Depois, sobre religião, arte, morte, sexo, rock and roll e amor. Ele tinha uma paixão inspiradora por quase todos os assuntos que você trouxesse à tona, e é disso que muita gente vai sentir falta.

Ele inventou o punk rock britânico? Pouco importa. Ele era loucamente apaixonado pela rebeldia, juventude e beleza, e criou inimizades entre boçais e pretensiosos de fervor evangélico. E é por isso que eu vou sentir falta dele.