FYI.

This story is over 5 years old.

Μόδα

Alexandre Herchcovitch

O desfile foi incrível: numa escola católica, Alexandre colocou na passarela camisas de força (eu vestindo uma, por acaso), uma drag queen com roupa de freira e um terço enorme sangrando e também um menino arrastando uma boneca por um fórceps.
5.4.10

Retrato por Daniel Klajmic

Conheci o Alê por um amigo em comum. Ele estava se formando na faculdade e precisava de pessoas “estranhas” para desfilar—na época eu era magrelo e tinha um topetão vermelho. O desfile foi incrível: numa escola católica, Alexandre colocou na passarela camisas de força (eu vestindo uma, por acaso), uma drag queen com roupa de freira e um terço enorme sangrando e também um menino arrastando uma boneca por um fórceps.  O Alê é de família judaica. Mesmo não sendo ortodoxo, ele chegou a estudar num colégio de judeus e morou um tempo num kibutz, em Israel. Lembro dele me explicando que aqueles chapéus estranhos redondos que eles usam são feitos de pele e se chamam shtreimel. Sob influência judaica ainda fez a estampa da estrela de David, um hit na época.  A mãe dele—tia Regina, como nós a chamávamos—costurava, e ele pegou carona na máquina de costura. Começou fazendo roupas para ele próprio e depois para os amigos da noite—drags, travestis, clubbers etc. Nessa época nós saíamos bastante. Muitas vezes o vi botando a mão na massa: sentava na máquina e costurava. No repertório das roupas tinha os corseletes, detalhes como chifres, piercings falsos e as estampas. De diabos variados e de caveira, o que nunca ele disse ser uma coisa pesada, dizia que era a vida, porque todo mundo tinha uma por baixo. A caveira sempre foi seu símbolo mais forte, chegando até a fazer parte de sua logomarca. Na loja, até hoje entra alguém e pergunta: tem alguma coisa com estampa de caveira? Por outro lado o Alê é bem engraçado. Ríamos de tudo. Incluindo programas de culinária na TV, propagandas e até quando o Johnny Luxo (queridíssimo amigo) desceu do Fusca que ele tinha na época com um vestido branco. Rimos tanto que ele me sacudiu até eu cair no chão e ficar com os joelhos machucados. É bem doce também. Ama o Culture Club e o Boy George, principalmente a música Specialize in Loneliness. Ama seus amigos e parques de diversão, principalmente monta-nhas-russas. Pela força das circunstâncias—trabalho, viagens—nos vimos menos nos últimos anos. Não deve ter mudado em nada. Vice: Acabei de ver o seu desfile feminino e achei incrível. As críticas foram muito boas.
Alexandre Herchcovitch: Eu acho que eles têm um pouco de receio de falar mal do meu trabalho. Já falaram… Sim, já falaram, mas nunca falaram tão bem. 
Não sei, acho que caiu no gosto geral, né?  Todo mundo gostou.
Acho que todo mundo gostou no geral, mas é óbvio que tem uma coisa ou outra que alguém não gostou. Fico até na dúvida mesmo. De como pode todo mundo gostar da mesma coisa. Acertar nesse senso comum de gosto é meio difícil. Seu processo foi diferente dessa vez? 
Não, o que difere de uma estação pra outra é só o tema, porque o processo é igual. O jeito de pensar a roupa é igual, nunca muda. O que a gente põe na roupa que é característica da marca, característica do meu trabalho, isso vai ter sempre. O que muda é o tema. O tema dessa última coleção exigia muita ornamentação, então acho que as pessoas ficaram um pouco surpresas com a quantidade de ornamento que a roupa tinha.

Desfile de formatura, 1994 (foto: Claudia Guimarães)

É, eu fiquei surpreso. Na hora que você entrou na passarela vi que você estava feliz.
Fiquei superfeliz porque foi um desafio fazer uma coleção assim, tão diferente da última.  O tema vem antes ou depois?
Então, por muitos anos trabalhei sem tema, fazendo roupa, modelagem, e da modelagem saía uma, depois uma outra, e outra. E hoje não, hoje o tema vem primeiro. Acho que depois de fazer tantas coleções não dá pra não trabalhar com tema, porque ele ajuda a gente a falar a mesma coisa de outra forma, com outras palavras. Então continuo falando do que gosto, do que sei fazer, da minha marca etc., só que com outra embalagem—o tema novo. De muitos anos pra cá o tema é que norteia a coleção. O tema vem antes.  É engraçado porque você faz dois temas, um para o feminino e outro para o masculino, mas na loja a gente vê uma unidade em tudo, e às vezes você está falando de duas coisas diferentes. 
Acho que o masculino, de uns anos pra cá, a gente vem fazendo com cores um pouco mais clássicas, e acaba sendo mais neutro. Se você vê o grosso da coleção que chega na loja, é uma coleção mais comercial, mais neutra, e às vezes vão aparecendo as peças mais elaboradas, que carregam mais o tema, que nem sempre tem no começo das vendas. São mais difíceis de produzir, acabam chegando mais pra frente. O que direciona a gente a fazer o masculino um pouco mais clássico, apesar da apresentação não ser nada clássica, é o próprio consumidor masculino. A gente fica falando que o consumidor masculino é aberto a novidades e não sei o que, mas é que o grau da novidade é muito sutil. A gente, que faz moda e trabalha com moda, tem que se policiar muito para fazer uma roupa masculina que seja no limite da novidade e que não espante muito ou… Às vezes alguns homens enxergam algumas roupas como “ah, isso não é pra mim”, “isso é gay”, “isso é muito moderno”. É complexo.  Antes seus desfiles eram bem conceituais, talvez você não tivesse tanta preocupação com venda. Como é isso pra você? No Brasil as pessoas gostam de marca. Gostam de falar que estão usando Alexandre Herchcovitch ou sei lá…
Acho que no mundo inteiro. Na verdade o que difere um carro do outro é a marca, e com roupa é a mesma coisa. Não digo só o nome da marca, mas as ideias que a marca traz com a roupa, com o produto em si. E chega um ponto que não tem como você não pensar em vender, porque se você não vender você não consegue continuar. Então não vejo problema nenhum em fazer roupa para vender. É muito mais difícil você acertar numa roupa para vender mais do que numa roupa para vender uma só. É mais difícil fazer uma calça que, sei lá, mil pessoas vão gostar e comprar do que fazer um único vestido, que uma ou duas pessoas vão gostar. É mais difícil fazer roupa comercial. Nem sei se sou expert em fazer roupa comercial, porque se eu fosse eu já estaria vendendo muito mais do que vendo hoje. Mas acho que, hoje, minha marca consegue fazer muito mais roupas comerciais do que há dez anos. A gente está aprendendo. Escolhi esse caminho mais longo, mais difícil, porém mais livre, onde eu pudesse mostrar exatamente aquilo que eu penso sem nenhuma preocupação. Mas esse caminho de fazer roupa comercial eu deixei pra depois da marca já ter um certo status, já ser uma referência e algo importante para a moda brasileira. Depois que conquistei esse espaço, achei que era hora de fazer roupa mais para vender.  No Brasil isso é meio novo, tem muito desfile ultraconceitual, e depois você vai na loja e não vê, necessariamente, o que viu no desfile. Lá fora mais ainda. 
Acho que essa distância entre o desfile e o que tem na loja tem que ser cada vez mais sutil. Em todas as marcas—na minha também. Na verdade, por outro lado, acho que não tem uma regra para o que apresentar e como fazer um desfile. Um desfile é um espaço onde você vai apresentar e dizer alguma coisa. É igual você ir fazer um discurso e na hora falar o que quiser. Então é a mesma coisa com um desfile. Até uns dois anos atrás, tudo o que eu punha na passarela de alguma maneira era produzido para vender na loja. Hoje eu já não penso assim. Se tem uma roupa que é realmente muito difícil de produzir e que ninguém vai consumir, não vou produzir para a loja.  Mas você não vende aquela roupa?
A gente pode vender aquela peça única, entendeu? Antigamente eu era supercontra isso, de ter roupa para o desfile. Hoje não sou mais. Inclusive me perguntaram numa entrevista, “Tudo da Rosa Chá vai para loja?”. Falei, “Lógico que não. Pra que vou produzir um bando de macacão justo? Não acho que vá vender muito. Então talvez não seja produzido”. Não tem problema você ter uma ideia que não é comercial, mas mesmo assim você pôr no desfile.  Nas marcas que você já desenhou ou dese-nha você sempre teve a mesma liberdade?
Sempre tive a mesma liberdade. Nunca ne-nhum dono de marca chegou pra mim e falou, “Posso ver a edição do desfile? Posso ver como está?”. Na verdade isso aconteceu quando eu trabalhava na Zoomp lá atrás, mas, por exemplo, os donos da Rosa Chá não foram ver a edição. Ficou do jeito que eu queria. Acho que não tem nenhuma razão pras pessoas me contratarem e depois quererem modificar aquilo que estou acreditando, não confiarem em mim. Então nunca tive nenhum problema com as outras marcas.