Cenas surreais da cultura dos clubes de strip-tease de Las Vegas

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Cenas surreais da cultura dos clubes de strip-tease de Las Vegas

A fotógrafa austríaca Stefanie Moshammer compartilha seus pensamentos sobre a dinâmica de gênero e a poesia visual da Cidade do Pecado.
14.12.15

Todas as fotos por Stefanie Moshammer.

Stefanie Moshammer não está desobedecendo a regra principal de Vegas, apenas distorcendo ela um pouco. Claro, a fotógrafa de Viena publicou recentemente o livro Vegas and She, cheio das coisas que formam a lenda do "O que acontecem em Vegas, fica em Vegas": carros de luxo, as montanhas Mojave, os quartos de hotel temáticos e strippers seminuas. Mas a série de Moshammer não é uma coleção de fatos bonitos; é mais um convite para criar (e destruir) suas próprias fantasias sobre a Cidade do Pecado.

Ela retrata os trabalhadores e consumidores da indústria do entretenimento adulto ao lado de naturezas-mortas, paisagens e trechos de textos de autores como Lewis Carroll. Enquanto tons pálidos de rosa dançam entre Cadillacs e o deserto, colunas douradas e mármore esmeralda de quartos de hotel, Moshammer – como as mulheres que ela fotografou – dança habilmente entre a ilusão construída e a realidade. Com seu trabalho exposto atualmente em Viena – e enquanto ela se prepara para uma viagem ao Rio de Janeiro (onde também espera expor Vegas and She) – conversamos com Moshammer para saber mais sobre essa experiência.

O que te motivou a fotografar Las Vegas?
Eu tinha passado uma semana em Vegas antes de voltar para fotografar Vegas and She. Essa primeira viagem desencadeou um desejo de explorar o mito irresistível e a doçura amarga que cercam o lugar. Fiquei imaginando o que estava por trás desse sonho surreal de sofisticação que as pessoas buscam num lugar que conta completamente com a ilusão, a fantasia e o desejo. Senti que era um desafio entender sobre o que é Las Vegas, e como a cidade te influencia quando você fica por mais tempo.

Você é de Viena, então fiquei pensando se o mito de Vegas é o mesmo no resto do mundo. Quais eram suas expectativas antes de chegar lá?
Antes de realmente conhecer Vegas, minhas fotos da cidade eram bem ingênuas; eu não conseguia nem pensar que pessoas nasciam e cresciam ali. Você tem todas essas imagens dos filmes e histórias na sua cabeça. Quando você chega a um lugar, suas percepções rivalizam com o desejo de fornecer um retrato fotográfico realista de onde você está.

Como você encontrou os temas e os lugares onde os fotografou?
É uma mistura de pessoas: algumas fui conhecendo melhor durante minha estada, outras conheci nas ruas. Conheci uma stripper chamada Shannon através de um amigo; ela foi minha primeira ponte com a cena de strip-tease e me apresentou a outras mulheres que trabalhavam com ela. As fotografei em seus apartamentos e em quartos de hotéis e motéis. Sou grata por elas terem confiado em mim e no meu trabalho. Quero mostrar com as pessoas, interiores e paisagens se misturam num lugar como Las Vegas. Minha abordagem era retratar essas mulheres de maneira metafórica e poética, para representar a atmosfera e o clima do mundo em que elas vivem, em vez de contar uma certa história sobre cada uma delas. Eu estava usando o corpo e o ambiente para convidar o espectador a entrar na narrativa e modelar uma certa realidade.

As imagens capturam uma artificialidade intrigante – uma coluna falsa dourada, um mural de floresta. Que papel a fantasia e a ilusão têm lá?
Eu estava tentando fazer imagens que criassem um espaço ambíguo, imagens que nos tirassem da realidade e levassem para algum lugar entre a ilusão e o desejo – um mundo fora do ordinário que é tão realista quanto você permitir. A base é fotografia documental, e nisso há o apego à realidade e à ideia de verdade. Mas a série também envolve uma abordagem alegórica e sugestiva, que dá mais liberdade para como o espectador pode contar a história. Vegas e um lugar cheio de mistérios, maravilhas e mitos. Quero que os espectadores tenham dúvidas e questões.

O título da série é Vegas and She. Fale sobre a dinâmica de gênero que você observou e representou.
Vejo "Vegas" como um homem, um homem com quem lidei, que confrontei. Estar naquela cidade é como conhecer e experimentar alguém. "Ela" é o outro polo, a antítese. "Ela" sou eu, e todas as mulheres mostradas na série. Os papéis de homens e mulheres são muito claros dentro do mundo dos clubes de strip-tease: o desejo masculino é o que move essa máquina. É um jogo que obedece certas regras e padrões. Naquele playground, as garotas criam uma identidade artificial, uma versão idealizada do desejo masculino num espaço construído que conta com a fantasia.

As mulheres se sentem empoderadas ou exploradas? Ou isso nem sequer é uma questão abordada na série?
Os direitos das strippers são desconsiderados em Vegas. Elas não têm contratos, elas são profissionais independentes e empreendedoras sociais. Todo dia, as strippers pagam uma certa quantia para dançar em seu turno. Elas podem ficar com todo o dinheiro que ganharem com seus corpos, menos a gorjeta para os DJs, garçonetes e outras pessoas que trabalham com elas. Dependendo da relação de cada dançarina com o gerente, elas conseguem turnos melhores ou piores. De um ponto de vista crítico, não gosto da dinâmica dentro da cena de strip-tease e do modo como as mulheres são tratadas; mas as strippers que conheci não se sentiam exploradas pela indústria. Shannon me disse que gostava da independência que esse trabalho proporciona. Ela trabalha em clubes por todos os EUA e enquanto puder dançar, ela vai continuar fazendo isso. No total fotografei sete mulheres – a mais jovem tinha 19 anos e a mais velha 50. Todas tinham opiniões diferentes sobre o negócio, mas resumindo, a motivação delas é ganhar dinheiro. Minha abordagem não foi discutir as condições de trabalho das strippers. Claro que boa fotografia levanta questões, mas tentei comunicar o clima daquele mundo. Vegas and She contém o tipo de melancolia que essas mulheres experimentam.

O que você espera que as pessoas tirem da série?
Um clima, uma pergunta, uma discussão, qualquer tipo de reação. Espero que uma visão de outro mundo faça as pessoas fazerem uma jornada pelo seu próprio mundo.

@stefanie_moshammer

Tradução: Marina Schnoor.

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