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Transforme Seu Rosto em uma Arma: uma Entrevista com Zach Blas

Um papo com o artista Zach Blas sobre a série de oficinas chamada “Facial Weaponization Suite”, onde participantes têm os rostos escaneados e compilados numa máscara coletiva, capaz de resistir a qualquer quantificação biométrica.

O desejo de estar no controle da maneira como estamos sendo observados e por quem cresceu nos últimos anos, principalmente depois das revelações de Snowden. Gente comum está baixando aplicativos de mensagens privadas, aprendendo sobre criptografia, escolhendo navegadores privativos e muito mais. Nós nos assustamos coletivamente com a magnitude do arrastão de vigilância que acontece nos EUA e no exterior, uma ação realizada tanto por governos quanto por corporações. Mesmo sentindo que não temos nada a esconder, pensar em algoritmos coletando nossos e-mails mais pessoais, textos íntimos, bate-papos em vídeo e criando um mapa de cada movimento e conexão nossos é perturbador.

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Infelizmente, as pessoas que mais sentem o peso desse olhar insidioso não são somente os criminosos — minorias e ativistas também são alvos dessa vigilância opressiva. Câmeras de segurança, vigilância aérea, presença pesada da polícia, vigilância sem mandado, escaneamento nas fronteiras, revistas aleatórias nas ruas e coisas assim são cada vez mais comuns em certas regiões ou para certas populações dos EUA. Não é à toa que, mesmo antes de Snowden, muitos ativistas já tinham colocado a máscara na caixa de ferramentas da ação política. Pussy Riot, Black Bloc, os zapatistas, Anonymous e muitos outros tomaram a máscara como ferramenta para se esconder, mas, mais importante, como meio de empoderamento.

Em 2011, observando o surgimento de grandes protestos em todo o mundo, o artista Zach Blas começou o “Facial Weaponization Suite” (2011-presente), uma série de oficinas comunitárias que discute e resiste às tecnologias biométricas de reconhecimento facial e ao ethos político que as apoiam e impõem. Os participantes da oficina têm os rostos escaneados e compilados numa máscara coletiva, capaz de resistir a qualquer quantificação biométrica. Conversei com Blas por telefone para saber um pouco mais sobre o projeto.

VICE: O olhar algorítmico do aparato de vigilância é binário – literalmente, “uns” e “zeros” – mas também no sentido de que ele trata os seres humanos como binários. Somos vistos como terroristas ou não terroristas, como uma ameaça ou não, como gay ou não gay. O que está em jogo quando esse tipo de lógica de máquina permeia toda nossa sociedade?
Zach Blas: Há muitos exemplos do olhar da máquina ou da visão da máquina. Temos os drones e a biometria, mas podemos ser mais metafóricos e pensar na mineração de dados e nossos dados corporais, que são produtos armazenados e agregados sobre nós nas redes sociais.

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Acabei de terminar minha dissertação, chamada “Opacidade Informática”, que trata exatamente disso. Uso o conceito de opacidade como uma tática ética, política e estética para conter a guinada em direção à padronização que esses algoritmos produzem. Abordo a visão da máquina, especialmente a biometria, não só nas questões de vigilância, mas como um emaranhado neoliberal de empreendimentos governamentais, militares e comerciais, que se juntaram para produzir essas tecnologias. Num nível técnico, elas são dependentes de uma maneira padronizada de identificar e contabilizar a vida humana. Uma forma muito boa de pensar sobre isso ocorre por meio da biometria e da padronização que esse tipo de olhar algorítmico decreta e produz.

Por exemplo, a maneira como técnicos e cientistas constroem parâmetros para detectar elementos, como sorrisos, por meios normativos, tais como a média. Na maioria das vezes, quando você olha a fonte de dados desses cientistas, as imagens e retratos que eles usam são bastante homogêneos, quase sempre voltados para os caucasianos. Um exemplo de padronização da identificação é o detector de piscada nas câmeras digitais, que indica que os asiáticos estão piscando, quando na verdade não estão. Esse é um exemplo poderoso dos preconceitos construídos dentro dessas tecnologias, que ficam expostos quando elas não funcionam direito.

As pessoas que mais experimentam a violência da padronização técnica são uma faixa ampla de minorias. Um exemplo disso seria aquilo pelo que as pessoas transgênero têm que passar. Por exemplo, quando uma pessoa transgênero passa por aeroportos e é sujeita a escaneamento completo do corpo, ela pode ser marcada como uma ameaça se os genitais dela não estiverem de acordo com o sexo listado em seu cartão de identificação. Basta observar outros exemplos de falhas biométricas na hora de reconhecer pessoas, isso geralmente acontece com indivíduos integrantes de minorias.

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Dentro desse sistema, se recusar a mostrar sua identidade chama ainda mais a atenção para você. Por exemplo, Janet Vertesi, uma professora de sociologia de Princeton que tentou esconder sua gravidez dos marqueteiros e ficou sob suspeita de atividade ilegal. É uma anomalia dentro de um sistema criado para documentar e identificar. Fale um pouco sobre o papel de suas máscaras como tática de contravigilância.
Meu problema com parte do trabalho recente sobre vigilância envolvendo máscaras é que se trata de determinismo tecnológico e considera apenas a funcionalidade tecnológica. Isso não faz sentido, porque em muitos momentos, quando você é alvo do escrutínio biométrico mais pesado, é ilegal usar uma máscara (como em aeroportos, e mesmo em protestos públicos em alguns países). Então, essa obra de arte dá muito poder; isso precisa ser um pouco mais humilde. Não vou me enganar sobre o trabalho que estou fazendo: as máscaras que faço podem evadir detecção biométrica (ou seja, as máscaras não se autenticam como rostos humanos), mas elas têm capacidade limitada. Então, meu trabalho também é sobre desejo político, pedagogia, experiências coletivas. Há uma diferença entre utilidade técnica e utilidade política, mas trabalhos recentes sobre vigilância e máscaras derrubam essas duas coisas, sugerindo que a melhor opção tecnológica é também a melhor opção política. Ainda assim, utilidade técnica e política com frequência não se alinham, então, é necessário haver um equilíbrio entre as duas coisas.

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Quando comecei a fazer máscaras em 2011, era muito importante para mim ter a obra cruzando com aspirações de movimentos sociais e o uso que eles faziam das máscaras. Vi um aumento coincidente de protestos mascarados, juntamente com a ascensão da indústria biométrica. Hoje, meu trabalho é altamente interpretado por meio das revelações do NSA, mas quando comecei a obra, isso não era algo muito exposto. Eu estava mais focado em padronização da identificação na tecnologia como um tipo de governança global, que não é somente vigilância. A "Facial Weaponisation Suite" trata de articular a presença que pode ser reduzida por esses padrões – que recusa essa padronização técnica. E é exatamente isso que as máscaras de protestos fazem hoje, do Anonymous aos zapatistas, da Pussy Riot aos black blocs, a máscara nesses contextos não é só ou principalmente para esconder; isso seria uma má interpretação do poder da máscara de protestos.

Máscaras para a Queer Opacity, na Parada do Orgulho Gay de Los Angeles.

A máscara de protesto realmente oculta de certas maneiras, mas também dá uma hipervisibilidade como consistência coletiva. Não é se esconder, mas sim, uma transformação política com um grupo de pessoas que se recusa a ser visualmente reduzido pela observação da máquina. Em “Facial Weaponisation Suite”, vejo isso como muito utópico, porque exige ser visto de maneira diferente, uma maneira de recusar a visibilidade do estado, de que o olhar algorítmico ou visão da máquina é parte. Então, não se trata de uma questão de procurar legitimidade por meio do estado, porque isso significaria a validação das mesmas coisas contra as quais você estava lutando.
Historicamente, muitas das lutas de minorias sempre tiveram uma retórica sobre ganhar visibilidade para o estado. Hoje, quando você observa um protesto, você vê algo muito diferente acontecendo. Juntar essas duas coisas é realmente complicado por causa dessas histórias de minorias apagadas pelo estado. E, mesmo tendo produzido máscaras em oficinas, tenho encontrado resistência e hesitação de diferentes pessoas em usar as máscaras, especialmente por causa do investimento político em visibilidade ou do ganho de reconhecimento pelo estado.

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Tenho muito interesse nessas oficinas, elas parecem ser a parte mais importante do trabalho em termos de transformação política. Fale um pouco mais sobre elas e esse processo.
Consigo a maior parte da resposta nas oficinas, mesmo quando o trabalho vai na direção de um contexto artístico. As oficinal são extensas e duram mais de um mês porque também formam comunidades. Aprendi que uma oficina de um dia não aproxima as pessoas. O primeiro encontro serve para conhecer todo mundo e descobrir se há alguma história pessoal ou conexão com o assunto. Quase toda oficina que comando tem alguma pessoa que foi identificada pela filmagem das câmeras de segurança em protesto e presa retroativamente.

Procissão das Dores Biométricas, México (ação pública).

As oficinas também são específicas em cada lugar. Fiz uma na Cidade do México no mês de maio. Passamos um bom tempo falando sobre um cartão de identificação biométrica para crianças que o governo mexicano colocou em circulação recentemente, mas nos focamos principalmente na fronteira. A biometria é a tecnologia de segurança número um do mundo, e uma quantidade imensa de dados biométricos é reunida na fronteira entre Estados Unidos e México. O mais interessante é que dados biométricos reunidos pelo governo mexicano com frequência são entregues ao Departamento de Segurança Interna dos EUA.

Nas oficinas, passamos muito tempo falando sobre questões globais maiores, de como a identificação se torna tecnicamente padronizada como meio de controle e governança. Depois, observamos como isso realmente acontece onde estamos e, em seguida, passamos por uma série de encontros nos quais decidimos coletivamente o que queremos fazer com as máscaras. Todas as decisões são coletivas, desde a cor da máscara à sua forma aproximada. Não uso um algoritmo pré-definido para produzir as máscaras. Reúno os dados faciais e faço cada camada “à mão” num software de modelagem 3D, o que abre muitas possibilidades para construir o aspecto formal da máscara.

Zach Blas é artista, escritor e curador. Seu trabalho aborda tecnologia, questões LGBT e política. Ele se apresenta e dá palestras internacionalmente, além de trabalhar como professor assistente no Departamento de Arte da University at Buffalo.

Ben Valentine escreve sobre arte, tecnologia e práticas sociais. Siga-o no Twitter.

Tradução: Marina Schnoor