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A Câmara Municipal do Rio de Janeiro Virou Playground do Black Bloc

Acompanhei a invasão da Câmara Municipal do Rio de Janeiro e conversei com integrantes do Black Bloc RJ.

Nesta quarta-feira o Black Bloc-RJ realizou então sua quarta grande convocação, para acompanhar um ato com concentração marcada para a Cinelândia e que levou uma carta de reinvidicações ao Procurador Geral da Justiça Marfan Vieira. Logo depois da entrega do documento, umas mil pessoas vestidas de preto seguiram em marcha para a Alerj (Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro), aonde o atual BBRJ deu às caras cobertas para a grande mídia no dia 16 de Junho.

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Ao encontrar uma barreira policial numa das pistas da Av. Primeiro de Março, o Black Bloc ensaiou uma tática que foi repetida outras vezes na noite, sempre com sucesso. Eles rapidamente formaram uma linha na outra via, e após pausa para fotos, arrancaram numa corrida à todo gás, circulando a polícia e se posicionando a frente deles, enquanto urravam feito índios em pé de guerra.

Quando a polícia percebeu o que aconteceu e começava a se reagrupar para seguir o grupo, as escadarias da Alerj já estavam tomadas.

Depois de várias poses para fotos o pessoal percebeu que ficar ali cercados pela PM não renderia muito e começou a correr na boca pequena o próximo passo, “ocupar a Câmara Municipal”. A galera desceu tranquilamente as escadas, reagrupou-se na Primeiro de Março e correram novamente em direção à Câmara. O pessoal que não teve disposição ficou para atrás, na intenção de atrasar os policiais que tinham acabado de montar uma super barreria em frente à Alerj.

Num primeiro momento, cerca de duzentos manifestantes invadiram a câmera pela porta lateral, que dá acesso a um pátio que divide a parte do prédio com os gabinetes da parte digamos assim mais “histórica” que tem a plenária e uma recepção pomposa.

A galera errou o caminho da plenária, e começou a subir escadas chegando até uma sala sem saída que deveria ser o servidor de internet do prédio.

Quando a galera desceu, a PM já tinha fechado o pátio do prédio e foram poucos que conseguiram atravessar e pegar o caminho certo.  Uma vez lá, conseguimos nos comunicar com outros manifestantes através das grades dos portões de ferro (trancados) da entrada principal. Manifestantes que não conseguiram entrar se amontoavam e começavam a passar doações pelas grades como água, refrigerantes e até uma pizza cortada à francesa. Vereadores e jornalistas perguntavam quais eram as exigências dos manifestantes e ninguém sabia responder. Um telefone tocava, mas ninguém atendeu.

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Mal deu tempo de fazer umas fotos maneiras como essa aê, representantes da OAB entraram no prédio e deram a notícia de que a PM havia fechado a única saída do prédio e eles estavam tentando contatar a presidência da câmara para saber se a ordem era deixar ou retirar os ocupas. Um moleque novo que foi um dos primeiros a invadir perguntou se poderia ser preso e antes mesmo de ouvir a resposta começou a telefonar para a mãe. O advogado disse que quem quisesse poderia sair com ele sem nenhuma acusação, e que quem ficasse  provavelmente só seria preso se houvesse depredação ou resistência à desocupação. Nessa hora, a maioria das pessoas foram embora, e ficaram só uns quarenta manifestantes no pátio e uns quinze ou vinte na área da plenária e recepção. Alguns funcionários da câmara prestavam solidariedade na miúda e reforçavam que se rolasse desocupação pacífica ninguém seria preso. Uma coroa maluca apareceu não sei da onde e ficou falando que a gente tinha de ganhar as ruas.

Finalmente o Major gente-boa, aquele que foi escalado para acompanhar as manifestações no fiasco da recepção do Papa, apareceu e disse que a preocupação da presidência da Câmara era de que houvesse depredação no edifício histórico e que a ocupação poderia continuar no apertado pátio.

Então PMs entraram lá e não teve jeito senão descer até o tal pátio, que estava lotado de PMs e manifestantes e super desagradável de permanecer. A maiora das pessoas foi embora, alguns sentaram e começaram a organizar uma vaquinha para pedir uma pizza. Enquanto isso, manifestantes que estavam do lado de fora tentaram de alguma forma bizarra arrombar os portões do prédio histórico e a PM jogou umas bombas neles. Isso começou a gerar uma discussão lá dentro sobre a validade da ocupação ou não. Foi quando um Policial que voltava de uma inspeção no prédio apareceu e começou a gritar a todos os pulmões feito um professor de Educação Física putaço com os alunos maconheiros.

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Ele dizia que era pro pessoal ir embora naquele momento, e então a PM - que já tinha cercado os ocupas - utilizou seus cassetetes e a “técnica do rodo” para expurgar a galera para fora do prédio. Só que no meio do caminho tinha um detector de metais que acabou sendo arrancado e esfregado na cara de um dos PMs.

Uma vez lá fora, eles sentaram o gás de pimenta e o cassete nos manifestantes enquanto o comandante gente-boa saltitava aos prantos, falhando em controlar sua tropa.

Black Blocs se reagruparam na Cinelândia, aonde começaram a correr os planos: voltar para a Alerj ou seguir para a casa do Cabral. A galera se dividiu, mas a maior parte rumou para o Leblon, invadindo dois ônibus.

Eu arrumei uma carona e cheguei um pouco antes. Haviam uns vinte ocupas acampados por lá, a maioria vestindo roupas e toucas pretas. A galera já desceu do primeiro ônibus a todo gás, urrando, formando linhas e virando lixeiras no meio da rua para formar barricadas. Dois ocupas que estavam lá antes correram em direção deles — “ Vocês estão com sangue quente!!! Isto daqui é ocupação! Não é ação direta!” — repetia uma mina de balaclava e roupas pretas. Ao custo de muita conversa e um par de pedala-robinhos num moleque de uns dezessete anos que insistia em ficar chutando uma lixeira de plástico, finalmente os BBs acalmaram e começaram a se integrar com a ocupação. “Recebemos um monte de doações! Temos comida, bebida e cigarros para todo mundo”, repetia a mina, “o que precisamos agora é animação e música!”.  Só que ninguém tinha uma caixa ou instrumento de som, e o máximo que rolou foram uns panelaços e umas músicas de acampamento.

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Uma galera mais radical rumou para perto da praia e discutia táticas enquanto faziam a cabeça. Nenhum Black Bloc quis falar à imprensa, nem como individuo, muito menos como grupo, que todos insistem que não existem — “O Black Bloc não existe fora dos protestos, o Black Bloc é uma tática de defesa das manifestações. Se a gente não fosse às manifestações muito mais gente se machucaria” — explica um integrante.

Em conversas informais consegui ver que embora a maiora seja muito jovem, em média com vinte e poucos, alguns menores e muito poucos com mais de trinta, essa galera que se veste de preto para formar a linha de frente dos protestos vem de todos os bairros da cidade e em sua maioria defende o anarquismo e a ação direta com muita articulação. Quando uma galera começou a se organizar para marchar fazendo um panelaço pelo bairro, apareceram uns ocupas coxinhas falando que o resto do bairro não tinha culpa do Cabral morar lá e pedia para que não quebrassem nada.

Acerca dessa fama de vândalo, um BB me explicou: “Só tem quebradeira quando eles nos atacam! Porque é foda, você passa por várias manifestações, os caras lá tem tudo, escudo, armadura, bombas, armas, gás e a gente não pode ter nada. Vai trocar com a Choque? Vai quebrar coisas! Mas tem que ter consciência, eu não acho que tem que quebrar as lojas, mas não pode deixar passar nenhum Itaú”. Mas no final das contas todos concordam que o fato de tratar-se de uma organização invisível e horizontal todo tipo de pessoa pode se infiltrar, “não vou te enganar que não tem ladrão no meio. Quando a gente tava do lado de fora da Delegacia do Catete, um cara encapuzado chegou pra mim e disse, ‘espalha aê, se der merda, corre pro catete e não pra glória, porque no Catete tem um monte de loja pra roubar e na Glória não´”.

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Questionado sobre o Molotov do Palácio Guanabara, um BB me disse: “Eu moro em Seropédica. Toda vez que desço na Central, eu levo geral. Você acha que eu ia conseguir andar por aí com um molotov? Ainda mais que aquela porra pesa e fede pra caralho! Não tem como você passar desapercebido com um numa manifestação”.  Na sequência o grupo começou a conversar sobre outras táticas mais discretas, como o emprego de cabeções de nego e pequenos explosivos improvisados: “Se eles querem fazer barulho, vamos fazer mais barulho que eles!”

Obs. As fotos nesta matéria não correspondem aos Black Blocs que deram os depoimentos.

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