O que aconteceu quando me comprometi a entrevistar mais mulheres
Crédito: Alex Williamson/Getty Images

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O que aconteceu quando me comprometi a entrevistar mais mulheres

Quando jornalistas ignoram as mulheres, a visão de mundo de metade da população é excluída. Por tabela, aumentamos o problema do machismo em vez de combatê-lo.

Estou extremamente decepcionado comigo mesmo.

Sou jornalista científico e acabo de escrever uma das maiores reportagens da minha carreira. Ao longo de vários meses, entrevistei quase uma dúzia de pesquisadores e cientistas de várias partes do mundo para escrever sobre os diversos — e muito interessantes — usos de uma nova tecnologia.

Mas enquanto eu e meu editor preparávamos o texto final, percebi que minha matéria tinha uma grande falha.

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Eu não havia entrevistado nenhuma mulher.

É assim, caros leitores, que o jornalismo reproduz o famoso machismo do Vale do Silício: nós, jornalistas, não entrevistamos mulheres suficientes. Nunca li nenhum estudo sobre a disparidade entre homens e mulheres entrevistados no jornalismo científico, mas em outros campos (entre eles o jornalismo político) a porcentagem de mulheres entrevistadas é de apenas 20%.

Qual é a relevância desses dados? Para começar, nas palavras de Gloria Steinem, "não podemos ser aquilo que não vemos". Se mulheres e meninas não veem pessoas como elas nos livros e na TV — ou quem sabe nas matérias sobre tecnologia — como elas podem se imaginar exercendo essas profissões? Quando jornalistas ignoram as mulheres, aumentamos o problema em vez de combatê-lo.

Ao aumentar a diversidade de nossas fontes — não apenas a de gênero, mas também étnica e até mesmo geográfica — ampliamos também nosso escopo de vivências diferentes

Diminuir essa discrepância dentro da minha própria produção jornalística é minha grande meta. Assim como tantos outros jornalistas, quero que meus textos façam alguma diferença e, para mim, isso significa incluir mais mulheres em minhas matérias.

Por que faço isso agora? A ideia me veio à mente no final do ano passado logo após minha entrevista com Kate McCarthy, diretora do Women's Media Center. Ela lidera um programa chamado SheSource, que conecta jornalistas à mais de mil mulheres especialistas em diversas áreas, desde política e entretenimento à tecnologia. Desde então, já utilizei o serviço para entrar em contato com uma série de especialistas. Embora ainda seja novo, posso atestar que o projeto é extremamente importante. No Brasil, há serviço similar: o projeto feminista Think Olga criou a campanha Entreviste uma Mulher, que propõe colocar jornalistas em contato com fontes mulheres sobre diversos assuntos por meio de um banco de fontes.

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McCarthy diz que um dos motivos pelos quais jornalistas não procuram mais fontes mulheres é que os profissionais da área costumam favorecer seus contatos mais antigos. "É comum repetir contatos. Ligamos para quem temos certeza que irá nos responder", diz ela. A existência de prazos incentiva, invariavelmente, esse tipo de comportamento. "Às vezes não há tempo para entrevistar desconhecidos", acrescenta.

Uma possível solução, sugere ela, seria dedicar mais tempo à construção de um banco de dados de fontes femininas. "Fazer pré-entrevistas com especialistas de áreas que você costuma cobrir", explica. "Isso facilita o contato com essas fontes, além de aumentar a confiança entre as duas partes, de forma que quando o jornalista estiver com um prazo apertado, ele poderá contar com essas mulheres."

McCarthy também sugere estender essa pesquisa ao Twitter, LinkedIn e outras redes sociais. "Por que não procurar essas fontes em vários sites?", pergunta ela. "Sempre fazemos isso e recebemos ótimas respostas."

Ambas estratégias, além do projeto SheSource, me ajudaram muito na missão de entrevistar mais mulheres. Além disso, passei muito tempo a vasculhar minhas matérias anteriores para identificar mulheres que já entrevistei e adicioná-las à minha lista de contatos. Fiquei surpreso (para o bem) com a quantidade de mulheres que entrevistei ao longo da minha carreira, embora tenha ficado decepcionado ao descobrir que não falava com algumas delas há dois, três ou até mesmo quatro anos.

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Todo esse esforço está mudando a forma como escrevo. Os artigos que publiquei em janeiro deste ano incluem entrevistas com 15 pessoas: dez homens e cinco mulheres. Fevereiro foi um pouco melhor: doze homens contra nove mulheres. Em março, alcancei um equilíbrio: entrevistei 13 homens e 13 mulheres.

Neste ano, as mulheres representaram 43,55% dos meus entrevistados, um número bem maior do que os 25-30% do ano passado. Essa proporção vai diminuir um pouco depois da publicação da minha grande reportagem, mas meu objetivo é igualar o número de homens e mulheres entrevistados até o final do ano.

O objetivo final, enfatiza McCarthy, não é apenas entrevistar mais mulheres, e sim adicionar mais nuances ao jornalismo. Não se pode falar sobre o mundo, diz ela, quando se ignora metade de sua população. Ao aumentar a diversidade de nossas fontes— não apenas na questão do gênero, mas também etnicamente e até mesmo geograficamente — aumentamos também nosso escopo, já que cada pessoa tem uma vivência diferente. Isso atrai mais leitores que, por sua vez, ficam cada vez mais bem informados.

Procuro sempre escrever sobre assuntos desconhecidos ou ignorados, focando nas pessoas por quem os outros jornalistas não se interessam.

"Acho que todos gostamos de ler sobre experiências que dialoguem com as nossas, que representem nossas vidas, e não vidas distantes ou irrelevantes para nosso contexto", diz McCarthy.

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Esse esforço pode ajudar a diversificar as narrativas presentes na mídia. Além de, é claro, apoiar as mulheres envolvidas no campo científico. Se jornalistas não escrevem aquilo que as mulheres querem ler — como textos sobre equilíbrio entre vida pessoal e profissional ou sobre a falta de apoio às empresárias — será que elas continuarão a investir nessas carreiras?

Essa não é uma pergunta retórica. Um relatório publicado em 2014, intitulado "Nadando Contra a Correnteza: Por Que Mulheres Abandonam a Engenharia", revelou que a maioria das mulheres havia desistido da área da tecnologia por algum motivo cultural, como o ritmo extenuante de trabalho ou a falta de expectativa de crescimento na área, como justificativa. Tais questões merecem nossa atenção. E nunca saberemos sobre isso se continuarmos a entrevistar outros homens.

Perguntei a McCarthy se escrever sobre temas como o machismo no mundo da programação poderia afastar ainda mais as mulheres do mundo da tecnologia. Ela discordou. "Não acho que escrever sobre algo ruim piore a situação", disse. "O mais importante é compreender o que está acontecendo." Essas matérias servem para lembrar que as mulheres não estão sozinhas, que suas opiniões importam e que elas podem compartilhar suas próprias histórias sem medo.

Minha segunda meta é observar se essa tentativa mudará meu trabalho como jornalista. Ainda é cedo para afirmar, mas creio já ver algumas mudanças. Procuro sempre escrever sobre assuntos desconhecidos ou ignorados, focando nas pessoas por quem os outros jornalistas não se interessam. Além disso, tento sempre terminar minhas entrevistas perguntando a cada entrevistada se há algo de interessante acontecendo em seu campo de pesquisa. Esse é apenas o início, mas espero que essa iniciativa inspire matérias cada vez mais significativas.

Será que essa iniciativa acabará com o machismo na tecnologia? Não tão cedo, é claro. Mas espero que ela quebre algumas das barreiras que precisam ser quebradas.

Tradução: Ananda Pieratti