Os sem-abrigo de Atenas opinam sobre o referendo grego e a possível bancarrota do país

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Os sem-abrigo de Atenas opinam sobre o referendo grego e a possível bancarrota do país

Decidimos sair à rua para saber a opinião daqueles que mais sofreram com a crise da Grécia: os sem-abrigo.
6.7.15

Fotos por Christos Sarris.

Segundo os números revelados pela ministra adjunta do Trabalho e da Solidariedade Social grega, Theano Fotiou, há 17.729 pessoas sem casa que vivem na região de Ática. À luz dos acontecimentos mais recentes - as intermináveis opiniões sobre a bancarrota do país, as filas nos bancos e o crescente descontentamento social -, decidimos sair à rua para saber a opinião daqueles que mais sofreram com a crise da Grécia: os sem-abrigo.

Conheci Dimitris debaixo de uma ponte nos arredores de Atenas. Durante vários anos, esta ponte tem servido como refúgio a muitas pessoas que vivem na rua.

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Antes de ir parar ali, Dimitris era bailarino e fazia tournés por todo o mundo. Não hesita em reconhecer que pensou em saltar daquela mesma ponte mais do que uma vez. Garante que aquela é uma zona mais tranquila do que o centro da cidade, mas nem por isso se sente mais seguro ali. Quando lhe pergunto qual a sua opinião sobre o referendo, confessa que já perdeu a fé nos políticos. E mesmo que seja consciente da situação que o país atravessa, votar nunca esteve nos seus planos.

Dimitris

"Sei o que está a acontecer. Não estou desligado do mundo. Ser indigente não significa que esteja à margem de tudo o que se passa. A situação é terrível. Já previa isso há algum tempo.

"Não votei no Domingo. O facto de termos o dracma ou o euro tanto faz, não vai mudar nada. O que é que é suposto eu votar? Se pudesse, votaria pelo meu próprio futuro, claro. Pelo futuro dos meus filhos. Mas votar nessa gente que tem a mão no dinheiro? Todas essas pessoas tiveram a vida muito fácil durante a crise. Não vou cair nessa chantagem para votar "sim" ou "não". Tenho a certeza que dentro de pouco tempo cada vez mais gente virá dormir que para aqui, gente que pensava que a sua vida até corria bem", explica.

Enquanto conversava com ele, vi Marilena a sair da sua cama e aproximar-se dos seus gatos para lhes dar de comer. Sentou-se à frente de uma mesinha numa esquina e ligou o rádio para ouvir as notícias.

Marilena

"Sou de Creta e não poderia ter ido até lá para votar. Se pudesse, iria. Diria sim à União Europeia, para que a Grécia não acabe isolada, mas diria não ao euro. Gosto da ideia de termos a nossa própria moeda. O euro é muito duro, nunca gostei. Sempre preferi o dracma. Queria que Tsipras tivesse negociado, e penso que algo de bom poderia ter saído dessa conversa. Não sei sobre o que falaram dentro daquelas portas, mas assusta-me ver a divisão que existe no nosso país.

"Pessoalmente, não tenho nada a perder, excepto o meu bilhete de identidade, o passaporte e a pouca roupa que ainda me resta. É tudo o que tenho, nada mais. Mas penso nos outros, e acho que esta ponde poderia encher-se de pessoas que não teriam outro remédio senão viver neste lugar. Aconteça o que acontecer, continuo a pensar que virá mais gente dormir para debaixo desta ponte e que nenhum de nós sairá daqui tão cedo".

Georgia

Alguns quilómetros para lá da ponte conheci Georgia. Estava sentada junto a um semáforo, à espera que os carros passassem para pedir algumas moedas. Tal como muitos outros sem-abrigo do centro da cidade, Georgia dorme em caixas de papelão. Não está a par dos acontecimentos mais recentes.

"Não tenho ouvido a notícias. Vi as filas enormes de gente à porta dos bancos, mas não ouvi nada sobre o risco de bancarrota. Ninguém me disse nada. De qualquer forma, a minha vida não vai mudar por causa disso. A minha vida está aqui, neste semáforo. À noite procuro um sítio para dormir e de dia volto para aqui. Tenho psoríase e não posso ir ao hospital porque não tenho dinheiro nem cartão de saúde.

"Vejam até que ponto chegamos. Não existe saúde pública. O dinheiro não chega a parte nenhuma. Há dez anos que luto para que haja uma pequena mudança, e nada. Nada de nada. Suponho que ninguém tem nada. A mim só me dão cêntimos. Não votei no referendo, mas espero que voltemos ao dracma. Não tenho nada a perder".