Uma entrevista com FTampa sobre frustração, rock EDM e Tomorrowland Bélgica
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Uma entrevista com FTampa sobre frustração, rock EDM e Tomorrowland Bélgica

O produtor, que será o primeiro brasileiro a tocar no main stage belga, fala sobre a inspiração que veio com o convite, e aproveita para dar uma cutucada nos DJs da cena eletrônica brasileira: "São todos iguais".

Acho que é possível dizer que o Tomorrowland Bélgica é o sonho de consumo que todo entusiasta de música eletrônica/EDM do mundo almeja — dos fãs ao artistas. Nós, brasileiros, ainda demos a sorte de ter o nosso próprio evento por aqui (fora os belgas, apenas os norte-americanos têm o mesmo privilégio), mas não dá pra negar que dá uma pontinha de inveja dos que tem a oportunidade de visitar — e, ainda mais, tocar — no lugar onde surgiu a terra do amanhã.

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O mineiro Felipe Ramos, o FTampa, já tinha realizado esse sonho em 2015, quando tocou em terras belgas no palco V Session, ao lado de nomes como Yves V e R3HAB — tendo até aparecido no documentário sobre o festival, This Was Tomorrow. Dessa vez, ele volta como o primeiro artista brasileiro a se apresentar no mainstage do Tomorrowland Bélgica.

Em um papo com o THUMP, o FTampa fala sobre sons comerciais, como foi receber a notícia de estar entre os headlines do festival belga, como vêm se preparando para a apresentação, e explica sua frustração com parte da cena brasileira de música eletrônica atual.

THUMP: Como você ficou sabendo que tocaria no Main Stage?
FTampa: Fiquei sabendo no ano passado, logo depois do Tomorrowland da Bélgica eles me avisaram. Você pensa como foi segurar isso, né? Eu não contei nem pras pessoas próximas de mim. Tava com medo de contar e depois dar errado. Chegar e falar: 'Ah, vou tocar no Main Stage', e depois eles me trocarem de palco. Quando eu fiquei sabendo eu parei um pouco de lançar música, quis aproveitar essa oportunidade pra fazer umas coisas novas. Passei muito tempo no estúdio desenvolvendo o que eu quero tocar lá. Vou começar a lançar agora em julho, esperamos o mês do Tomorrowland pra soltar esses lançamentos.

Te deu uma inspiração?
Ah, dá, né. Na verdade, eu tô na música eletrônica tem pouco tempo, esse é o quinto ano. Quando eu comecei, a primeira coisa que eu descobri foi o Tomorrowland. Eu não conhecia muito de música eletrônica, e o primeiro festival que eu assisti — por transmissão — foi o Tomorrowland. Main Stage é muito sonho. É engraçado, porque muitas pessoas falavam pra mim "pô, vamos pro Tomorrowland da Bélgica, que seja pra curtir" e eu sempre falei que eu só iria se fosse pra tocar. Aí eu fui no ano passado e toquei num palco menor, aí depois do show, numa entrevista, me perguntaram se eu voltaria no ano que vem. Aí eu falei "só volto se for no Main Stage!".

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Você já tem algum contato com o seu público lá fora?
Tenho, eu faço turnê mundial desde 2012. Mas nada comparado ao Tomorrowland da Bélgica.

Leia: "O papel dos DJs nos festivais de música eletrônica"

Qual você acha que vai ser a diferença entre tocar no Main Stage no Tomorrowland Brasil e no Tomorrowland Bélgica?
Acho que não vai ter muita diferença, porque o Brasil tá muito absurdo com a cena eletrônica. É uma cena que cresceu demais e, pra ser sincero, eu acho que aqui a galera é até mais animada. Lá, a galera agita, é bem legal também, mas aqui no Brasil é muito absurdo. O povo agora tem essa coisa do patriotismo, algo que não tinha antes. Antes era só gringo, gringo, gringo, agora a galera tá dando muita força pros DJs daqui. Isso daí põe um plus no show. Vai ser muito difícil bater o meu show do Tomorrowland esse ano, porque foi muito absurdo. Melhor show da minha vida disparado. Ano passado, foi uma realização profissional: eu fiz o Tomorrowland Brasil tocando só música própria. Esse ano, eu fiz um show normal mas foi muito intenso, muito legal.

A gourmetização do brazilian bass trouxe pra cena muito cara que não é produtor de verdade

Falando de valorização da música nacional, você tem acompanhado essa treta do "brazilian bass"?
Eu tenho. Pra ser sincero, eu prefiro não opinar sobre o estilo, porque se não o Alok vai chorar e vai reclamar que eu tô xingando o brazilian bass, quando eu não estou. A única coisa que eu acho é que a gourmetização do brazilian bass — um estilo muito simples de produzir, muito fácil, qualquer um consegue produzir — trouxe pra cena muito cara que não é produtor de verdade. Muito wannabe. Eu não vou citar nomes, mas recentemente, vi um show de um cara daqui que não sabia nem tocar. O cara parou o som três vez, martelou quase todas as músicas. Vi esse DJ aqui e fiquei impressionado com como era ruim. Esse lance tá trazendo muito cara que quer só ser famoso, e isso é muito chato. Claro que tem a galera séria: eu sei que o Alok é sério, sei que o Illusionize é sério. Mas eu vejo que é um desespero pra ficar famoso que tá atrapalhando demais a cena, e aí fica chato. Esse som que rola no Brasil, não rola em nenhum lugar no mundo, só aqui. Isso faz com que apareça essa galera apelativa, fazendo essas coisas que a gente tá vendo — lançando música atrás de música, copiando, roubando vocal. Isso é feio pra cena brasileira. Eu não tô falando que o EDM é a salvação da pátria, mas a gente conseguiu colocar todos os artistas gigantes gringos tocando as nossas músicas, e agora a gente tá ficando distante de novo.

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Você acha que os gringos tão perdendo o contato com a música brasileira?
Por um lado, o Alok e alguns outros tão conseguindo levar. Mas não adianta só eles levarem. Só eles, eu, e alguns outros. Por exemplo, lá na Holanda, todos os DJs se conhecem. Aqui não. Como aqui é muita gente fazendo o mesmo tipo de som, acaba que os gringos perdem interesse, e começam a olhar pra lugares diferentes.

Foto: Divulgação

Mas você não acha que mais gente traz mais diversidade?
Mas não tem diversidade, são todos iguais. Se você sai na noite brasileira, hoje, do primeiro ao último DJ, eles tocam exatamente as mesmas músicas na mesma ordem. É absurdo. Todos tocam exatamente igual. E é uma coisa que todo mundo falava do EDM: "Ah, são as mesmas músicas, blablablá". Tá igual, sacou? É engraçado, porque eu toco um som mais comercial; EDM, house, essas paradas. Às vezes eu vou tocar aqui no Brasil e todos os DJs antes de mim tocam o mesmo som, aí eu toco, é diferente, depois todos tocam igual de novo.

Mas isso é numa cena específica?
Não, o país inteiro tá assim.

Você vê um monte de DJ sério, mas aí vem um DJ e compra tudo: compra fã no Facebook, compra like, compra tudo — inclusive música.

Você tá desanimado com a música eletrônica no Brasil?
Ah, não desanimado, porque, como eu te disse, ainda tem a salvação. Ainda tem a galera que leva muito a sério. Mas é um pouco frustrante. Você vê um monte de DJ sério, ralando pra caramba, fazendo um monte de coisa. Aí vem um DJ e compra tudo: compra fã no Facebook, compra like, compra tudo — inclusive música. Aí no final das contas o cara tá lá explodindo, enquanto tem um monte de DJ sério que não consegue nem fazer um show. Isso é uma coisa triste. Mas, por outro lado, apesar de ruim, tem muita gente que tá se dando bem na cena, e é legal porque todo mundo quer se dar bem.

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Você acha que seu show no Tomorrowland pode contribuir pra que os gringos se interessem mais pela música brasileira?
Eu acho que sim. Mas, assim, eles continuam tendo contato. Só que a maioria dos DJs gigantescos, principalmente os DJs que tocam no Tomorrowland no Main Stage, tocam comercial. Então, se não tiver música comercial vindo daqui, eles não vão tocar música brasileira, entendeu? Porque eles não vão tocar música mais velha, nesse estilo que tocam aqui. Mas, por outro lado, tem gringo que toca. Tem a cena que toca esse tipo de som. Só é muito diferente da [cena] do Brasil, mas tem uma cena de gringo que pode tocar. Mas tô falando dos gringos comerciais, os caras realmente gigantescos — Calvin Harris, Guetta, Hardwell. Essa galera.

Como você está preparando seu set para o Tomorrowland Bélgica?
Eu vou tocar muita coisa nova. Por muito tempo, eu fiquei meio robotizado no estilo que eu tava fazendo. Só soltando uma track atrás da outra, na mesma pegada, e eu acabei deixando de usar uma das coisas que mais valorizavam no meu trabalho, que é o fato de ser músico. Eu tive banda de rock a vida inteira, e agora estou usando muito isso nas minhas músicas. Eu tô gravando piano, guitarra, violão, baixo. Em todas as músicas novas eu tô fazendo isso. Tô tentando fazer uma pegada bem do que eu fazia na banda, mas na música eletrônica. Com bastante melodia, bastante harmonia legal, que eu tô tentando misturar pra poder sair do bolo e fazer um som mais rock. Nesses últimos shows eu toquei umas músicas novas, foram muito bem, mas nesse show do Tomorrowland eu vou tocar tudo o que tem de novo. Aí tô empolgado pra ver a reação da galera.

Leia: "Uma geração de DJs que não manja muito de música, mas é fera nas redes sociais"

Dentre os artistas do lineup do TML Bélgica, há algum de quem você gosta ou em quem se inspira muito?
Tem. Tem muito DJ que eu gosto pra caramba. Na verdade, eu acompanho o trabalho de praticamente todos ali. São artistas muito consagrados, muito legais. Um cara que vai tocar esse ano que foi o responsável por boa parte da minha entrada na música eletrônica é o Deadmau5. Ele nunca tocou no Tomorrowland, vai tocar esse ano, e ele foi o primeiro artista [de música eletrônica] que eu escutei na vida. E foi a partir dali que eu comecei a pesquisar, comecei a ver vídeos do que ele fazia no estúdio, do que ele usava, e comecei a entender mais ou menos como funcionava. Então, ele é um cara que eu admiro bastante. Apesar dele ser hater, né? (risos)

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