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Ouça ‘Corpo Fundo’, o quinto disco do Afro Hooligans

O projeto de música eletrônica xamanista é feito em cima de vibrações místicas e do compasso house.

O projeto xamânico de música eletrônica experimental Afro Hooligans apresenta o seu quinto álbum: Corpo Fundo, que sai pela Fluxxx, é uma extensão da proposta que começou no EP Prelúdio, nasce do princípio de que somos todos parte de um todo, e que o todo é uma coisa só: cosmos, corpo, natureza. Formado em 2011, o grupo conta com Marcos Felinto (Noala, Abske Fides), Everton Andrade (Relax For Men) e Guilherme Henrique na linha de frente. Juntos, eles produzem sonoridades com o mote transcendental de conectar o ouvinte à essa energia primitiva que movimenta as coisas da vida e da morte.

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Isso explica as vibrações místicas impostas ao compasso do house, temperadas com climáticas drone. Menos ácido do que nas primeiras produções, o Afro Hooligans ressurge apostando na leveza das melodias labirínticas. Nesse exercício criativo, a construção das seis novas faixas em estúdio teve as colaborações de Muep Etmo e Ivan Chiarelli. Foi no processo de mixagem empreendido por eles que algumas ideias acabaram tomando forma.

Na entrevista a seguir, Marcos Felinto, o fundador do projeto, dá mais detalhes de todos esses lances. Ouça o disco enquanto lê a conversa:

THUMP: Para começar, gostaria que você traçasse um comparativo entre este novo trabalho e as produções anteriores do Afro Hooligans. Digo, em termos de novas tentativas e elementos.
Marcos Felinto: As diferenças entre este novo trampo e os anteriores são muitas, acho que vou focar na que mais me faz sentido, que são as intenções impressas no processo de composição, gravação e entrega desse quebra-cabeças ao ouvinte. Para além da música, acho que finalmente estamos lançando um tipo de vibração, que se desdobra em uma atmosfera onírica que sempre esteve andando conosco. As composições têm um peso especifico, mas também leveza, que vem dessa atmosfera onírica da qual falei. Em termos de composição ele é uma continuação do último EP que lançamos, Prelúdio. As músicas que compõem aquele disco e este que soltamos agora fazem parte de um só período e de uma mesma experiência de gravação. Isso também me faz pensar que se fossemos gravar Corpo Fundo agora, ele teria outras feições. O que alcançamos neste álbum novo é o seguinte: a pessoa olha para mim e identifica minha pessoa, do Gui e de Everton com a música, ele [o álbum] é meio que uma extensão de nós, por mais que eu já não aguente mais escutá-lo [risos]. Foi também a primeira vez que tivemos coragem de abrir nossos erros para que outras pessoas se fodessem tentando arrumar. Foram elas os compositores e artistas Ivan Chiarelli e Muep Etmo, que mixaram o álbum.

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Por último tem um lance engraçado, nos ambuás anteriores, posso dizer, já seguíamos num caminho torto, tipo, andando na diagonal esquerda. Para expressar a diferença em relação a este novo, acho que estamos seguindo para cima e de ponta cabeça.

Como o nome do álbum, Corpo Fundo, exprime o seu conceito musical?
Posso contar histórias? O nome veio de um passeio na calda do cogumelo. Ele veio da percepção de que a natureza é grande e abundante, se desdobra no universo e reflete em igual proporção tudo o que somos e temos dentro de nosso próprio corpo. Vivemos dentro desta casa que é nosso corpo, tão mágico e misterioso quanto a própria selva ou o espaço. Já nossa mente, é manifestação da própria força una que é o cosmos, temos um infinito dentro de nós e nos cabe, se boa aventura quisermos, aprendermos a caminhar dentro de nós… Isso não é tão difícil, visto que se somos espelho do exterior e temos tudo o que está fora para tomarmos como parâmetros de entendimento e voltar para esta fração do corpo fundo que somos nós. O Lucas Rampazzo conseguiu traduzir essa ideia muito bem na arte que criou para o álbum.

O tipo de som que vocês fazem pode ser considerado uma espécie de indução a algum tipo de transe, uma viagem?
Nos últimos tempos temos conversado muito no projeto sobre o que queremos da música, o que queremos provocar ou evitar a todos custo. Causar mal por meio dos sons, por exemplo, é o que menos queremos e, em alguns momentos, já até criamos um tanto de bad vibe com os padrões de ondas, samples e velocidades que usávamos nos sons. Hoje, porém, procuramos os bons lugares, os confortáveis (mas complexos), quentes e amorosos…Talvez até um gelo de amor valha dizer. Às vezes, quem faz música consegue encontrar a seriedade e a responsa que é mexer com isso. Acho que estamos nesse estágio e procuramos levar para as pessoas as experiências de imersão que vivemos nos melhores ensaios. Procuramos o encanto e é muito difícil mexer com isso, pois de um passo para outro, no descuido, o encanto vira baranguismo. Há duas experiências que propomos ao público, diametralmente diferentes, mas extremamente complementares. Uma é as pessoas desligarem-se de si mesmas por um tempo, darem vazão para que o ego dê lugar ao self… Esse tipo de vivência ocasiona a segunda tentativa daquilo que propomos com o som, um bom retorno a si mesmo e uma reconexão com o ser de cada um. O som ou a música é um convidado extra, ninguém o percebe como pessoa, mas ele é o anfitrião que trabalha uma conexão sensorial e vibracional entre todos. Penso que se houver uma filosofia, seria essa da diplomacia entre os campos energéticos de cada participante das apresentações, no sentido de guiá-los para a unidade. Talvez isso seja o xamanismo.

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Como funcionou na prática a construção dessas faixas?
As faixas foram compostas há muito tempo. Guardam um frescor, mas já estamos com novas paisagens aí no papel. No geral, eu as compus e gravei todas, instrumento por instrumento. Estava de férias no momento em que estavam tomando forma e me perguntei: "Viajo ou gravo um álbum?". Escolhi a infernal missão de botar esse álbum no mundo. Na época, não conhecia alguns recursos que tinha à mão e fui fazendo tudo dentro dos meus limites. A finalização do trampo em si levou uns seis meses ou mais, graças a Deus já não me lembro direito, pois pode ter levado um ano, também.

Gravava uma faixa, um esqueleto dela, e mil ideias vinham e viravam camadas. O esforço maior é o de parar de adicionar. O Everton, por exemplo, sempre diz o quanto somos barrocos e que precisamos fazer menos, às vezes. Pois bem, o desafio do processo foi parar de acatar novas ideias e novas músicas que surgiam no decorrer das gravações.

Neste álbum, acho que o Muep Etmo merece um crédito enorme, pois foi ele quem alterou a sala das músicas todas enquanto trabalhava a miragem. E, na verdade das verdades, ele foi um dos compositores do disco, pois pedimos para ele mixar livremente, e ele remixou tudo… Isso nos empurra a procurar soluções para os lives, pois ele criou texturas e uma carrilhada de coisas que não fazemos a mínima ideia de como reproduzir.

Que tipo de equipamento foi usado e em quanto tempo o trabalho foi finalizado?
Basicamente usamos uma série de osciladores Monster Drone, do Vinícius Brazil, uma RC 30 da Boss, um R3, micro korg, e uma electribe, tudo da Korg. Eles, por sinal, deveriam nos patrocinar. Fica a dica aí, hein Korg!

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O que cada integrante faz nas apresentações?
Ao vivo eu costumo ficar com os ritmos em beats e os baixos (funcionamos um pouco como uma banda de rock nesse sentido). Acho que tomo para mim a parte de puxar as pessoas para o nosso mundo, usando procedimentos de contato e cura, aromatizadores e harmonizadores de ambiente, palo santo, caxixi e outros instrumentos xamânicos. Isso cria uma boa recepção e induz a estados de abertura, as pessoas deitam, fecham os olhos e nos recebem. Se um dia tocarmos num mega festival, estarei fodido. O Eveton é o cara dos leads, nosso guitarrista das teclas. Compõe frases que vão para regiões mais altas. É ele também quem manda alguns sons de sinopses com o Monster Drone. Geralmente é ele quem sugere o set list e o caminho que devemos seguir nas apresentações. Fora isso, sempre bebe muito, fica bêbado e não ajuda a carregar o peso depois dos shows. Ele é o nosso mimo e amamos ele. O Guilherme é o nosso departamento harsh, noise, drone. Ele usa dois osciladores de frequência ligados nuns pedais que até hoje não entendemos direito. Ele também vai para o lugar das sinopses, dos micro tons, dos ruídos brancos e dos sons que atropelam todos os outros sem aviso prévio. É nosso búfalo.

O público de vocês é uma galera mais do metal ou do eletrônico mesmo?
Então, isso é difícil dizer. Certa vez ouvimos que éramos eletrônicos demais para o metal e metal demais para o eletrônico. Talvez cativemos as pessoas que se permitem viver no caminho do meio, pessoas que consigam cruzar referências e que, no geral, procuram buscar em nossa música algo de essencial que há em todos os outros gostos delas. Posso dar um exemplo? Neste fim de semana ouvi "Juizo Final", do Nelson Cavaquinho, e tudo em que eu pensava era no doom metal. Mas mando outra real, nem sei se temos um público muito além de nossos amigos, e estes são bem diversos. Imagino que o restante das pessoas que curte seja igual a esses amigos, então.

É possível dizer que o Afro Hooligans tem influências? Ou tudo nasce do livre experimento, sem partir de referências?
Tem influência pra caralho, uma chuva. Mas são mais fluidas e difíceis de restringir, vai desde obras de artistas plásticos até filmes, a experiência de um dia bom ou ruim, uma nova descoberta em algum dos equipamentos que usamos ou um som novo que conhecemos. Fora isso, nos autorreferenciamos bastante. Nossas conversas geram muita influência sobre os passos que planejamos seguir.

Quais são os planos para este ano, após o lançamento do álbum? Clipe, apresentações, alguma coisa que já possam adiantar?
Olha, já temos pelo menos umas oito músicas novas e alguns rascunhos de riffs (pode falar de riff no eletrônico?), outro caminho, novos recursos. Porém, acho que no momento estamos mais estudando como nos apresentar, como tornar cada instrumento mais maleável no diálogo com o todo. Estamos pensando uma nova estética visual e isso refletirá no tipo de atmosfera que levaremos para as apresentações. Também estamos trabalhando para que o projeto circule em mais lugares e com mais frequência. Lançaremos nossa primeira camiseta e temos uns pôsteres dos mais lindos criados por Oga Mendonça, do coletivo Sistema Negro. Tô tipo prefeito, um clipe também está sendo rascunhado, mas vamos com calma, pois isso move gente e, às vezes, é bem difícil bater agendas. Enfim, nosso plano maior é não parar de movimentar a força.

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