Foto por Sílvio Santana

Ricardo Remédio é a banda-sonora dos teus pesadelos

O novo disco do músico português, "Natureza Morta", é tão encantador, como obscuro e assombrado. Fizemos uma viagem pelos seus oito temas e contamos-te como foi.

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abr 19 2017, 1:51pm

Foto por Sílvio Santana

Quando era pequeno tinha medo da escuridão. A minha coragem sumia enquanto atravessava as divisões escuras da casa dos meus pais, obrigando-me a correr. A incerteza do que o escuro poderia esconder assombrava-me. Nunca equacionei que, por outro lado, pudesse esconder coisas boas. No negrume do manto silencioso da ausência de luz até podem existir monstros assustadores, mas também podem descobrir-se coisas fascinantes. 

Natureza Morta, de Ricardo Remédio, é uma prova que as trevas não escondem só coisas tenebrosas como cadáveres, crime, ou pó que dá trabalho a limpar. Este disco, se calhar, até era capaz de conseguir meter os metaleiros do meu Secundário a defender que a música electrónica não é assim tão má, que "afinal não são todos pastilhados". Bem, não exageremos. A verdade está na parte do "não são todos", há muitos que curtem tomar cenas. Nada contra.


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Ricardo Remédio também é conhecido por ser dos LÖBO, uma banda que por si só tem um nome assustador. Reparem: O lobo é a versão selvagem do cão, um bicho que, em vez de querer festinhas, quer rasgar qualquer cara com as suas mandíbulas. E tem aqueles pontinhos em cima do O para piorar a coisa. É um lobo nórdico, nem do frio tem medo. Já eu - ou tu, não te armes em herói, meu conas! - não aguento um bocado de frio sem ter de vestir um casaquinho. E caras que já rasguei com as minhas mandíbulas até agora: zero. Assim de repente, também não me lembro de nenhuma situação em que isso tivesse de acontecer, mas deve ter ocorrido uma ou outra vez.

Depois do lançamento na Lovers & Lollypops do primeiro EP, Rancor, Ricardo Remédio regressa com este Natureza Morta. Também mudou o seu nome de artista de RA para o seu nome a sério, provavelmente porque já não está com vergonha que os seus colegas da escola e do trabalho descubram quem é. Eu percebo. só a seca que é explicar ao tipo que foi pai aos 20 que curtimos música que não dá na RFM já é uma chatice.

Desta vez o disco é recuperado na ressuscitada Regulator Records, uma editora que há 10 anos lançava discos de punk e hardcore nacional e que percebeu - tal como a maioria das pessoas que há 10 anos ouviam discos de punk e hardcore nacional - que é na boa ouvir outras merdas. Vou ouvir o disco e vou falando do que estou a sentir em cada música.

Imagem promocional de "Natureza Morta"

"Banquete"

O disco começa com umas vozes suspiradas, como que em sofrimento. Dispara logo uns drones assim todos distorcidos, que parecem anunciar a III Guerra Mundial. Calma, malta. Ela está quase aí, mas, felizmente, agora já tem uma banda sonora. É incrível como, até agora, tudo o que aconteceu de relevante em 2017 acaba por ter o nome do atrasado mental do Donald Trump associado à coisa. Agora até este disco.

Daniel O'Sullivan foi o general que não teve medo de carregar no botão vermelho e produziu este disco. Não sabem quem é? Conhecem Ulver? Æthenor? Pronto, também toca ao vivo com os SUNN O))), os tipos que gostam de música arrastada com volume exagerado e têm fetiche por roupa de padre. A masterização foi do James Plotkin, que também fez esta coisa que pouca gente sabe o que na verdade é, por bandas como os Earth, ISIS, Pelican, Nadja, entre outros. "Banquete" abre o apetite para este álbum, com os seus arpeggios a desencantarem um portal para a terra do medo.

"Ossos"

Um pouco de mistério, é assim que somos introduzidos neste tema. Em suspense. Faz-me lembrar uma noite em que um amigo meu tinha achado 20 euros no Mexefest e os gastou num instante, se é que me entendem. A noite parecia-lhe o princípio desta música. Estava tudo numa boa. Depois do festival, está a beber à porta de um bar no Bairro Alto e repara que uma rapariga parece estar a ser agredida - ou algo do género - por um tipo. Como nem queria arranjar muita chatice virou-se para o gajo e disse-lhe: "Aqui não". 

A rapariga foge e o indivíduo vira-se para ele e diz: "Polícia de Segurança Pública, a sua identificação se faz favor". Estava claramente bêbado, o meu amigo ficou incrédulo e pediu-lhe para o provar. Era mesmo. Sacou da identificação e o meu amigo teve que sacar da sua. Mas não a tinha. Resolveu puxar do cartão multibanco, afinal de contas também tinha o seu nome. O gajo atirou com o cartão para o chão. Quando o agarra e se vai a virar para o tipo, é esmurrado sem dó nem piedade. 

É um pouco assim que "Ossos" nos ataca. Sem darmos por ela. De repente, estamos com as mãos na cara ao som da música, a cambalear com a batida. É como se todo o nosso mundo desaparecesse e fossemos transportados para uma realidade mais cruel. Sim, como foi para o meu amigo levar aquele murro.

"Garça"

"Garça" dá-nos paz de alma. Harmonia quase baleárica. E estejam descansados, o tipo meteu-se em problemas e o meu amigo só esteve dois dias sem comer. Era eu, pronto. Admito. Já foi há muito tempo. Mas, voltando à música. É como que um separador. Muito curta. Muito bonita, como voltar a conseguir a comer.

"Caça"

Depois de uma pequena "Garça", temos uma "Caça" mais comprida. O eco assombra-nos. Esta música equipara-se a estar deitado a olhar para o céu num terraço a ver as estrelas, depois de um noite de muitos copos, ou muitas dessas coisas que vocês mandam. 

Só que, depois, surge um universo sintetizado mais misterioso. Universo que poria aquele amigo que acha que é muito nerd a dizer: "Porra, isto é bué de Stranger Things. Tem mesmo aquela vibe misteriosa do genérico". Isto até entrar uma linha de baixo poderosa que metia essas observações desnecessárias na gaveta. Rui, isto se fosse banda-sonora de alguma coisa, seria mais de um filme de terror a sério. Sem referências aos anos 80. Onde se viam pessoas a serem esfaqueadas e onde a dor parecia nossa, mesmo sem nunca termos sido esfaqueados. Porra, eu pelo menos espero nunca o ser, deve doer.

"Suor Nocturno"

O título desta música faz-me lembrar que há mais de 10 anos, ainda morava eu em casa dos meus pais, tive uma semana de insónia extrema. Conjuntamente com isso, os meus hábitos de televisão nocturnos aumentaram exponencialmente. Vi de tudo: vídeos de como as coisas são feitas em fábricas, anúncios a produtos revolucionários e documentários sobre fantasmas. 

Certo dia estava deitado e vejo, no meio do escuro do meu quarto, um vulto iluminado a caminhar e a passar junto à porta. O meu coração disparou como uma chita, acelerou tanto que quase me rasgou o peito a tentar voar. Teria visto um fantasma? O cansaço era tanto que nem sabia se estava acordado ou a dormir. Ouvindo a música até fico mais descansado, dado o seu fulgor transe. Não é transe como aquela malta que gosta de ouvir 140 BPMs de arpeggios e todas as músicas iguais. Tem uma energia confortante, hipnótica. 

Neste caso, o suor nocturno deve ter aquele emoji que põe safadeza em qualquer conversa, ou então quando estamos a transpirar a febre e isso faz-nos sentir melhor. Pronto, provavelmente nem era um fantasma. Era o meu irmão, ou os meus pais que se levantaram por qualquer motivo. Ou eu estava a dormir. Os fantasmas nem existem, não é?


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"Vigília"

Depois da música anterior, afundamos com "Vigília". É como se estivesses a dormir e, de repente, o tecto do teu quarto tivesse desaparecido. No meio do escuro da noite, uma nave aproximar-se-ia e transportar-nos-ia para outra dimensão. 

Claro que toda a gente sente a tentação de falar do Carpenter quando ouve este disco. Não conhecem o Hockumba, ou o Mangonsen. Nem eu, inventei agora. Até faz sentido a comparação, mas fazia mais sentido dizer: "Na verdade, Ricardo Remédio é o Carpenter de outra dimensão, uma ainda mais cruel. Somos transportados pelo impeto da mandibula sonora desta sua Natureza Morta, até nos rendermos à violência da sua crueza musical". Uma coisa destas.

"Enfermo"

O disco foi lançado em formatos mortos, como a cassete ou o CD, mas também está disponível digitalmente. O ano passado foi lançado o disco numa pen USB, com uma caveira impressa em 3D. Já "Enfermo" parece o momento antes do grande final. Esta analogia não funciona para homens durante o sexo, todos frustrados porque têm que aguentar o máximo de tempo.

"Rei Morto, Rei Posto"

Ricardo Remédio é rei sem matar nenhum outro. Este disco é a confirmação de que tem força para destruir o sono a muito boa gente internacionalmente. Já tocou no Jameson Urban Routes, Milhões de Festa, Amplifest, Mucho Flow e ouvi dizer que já confirmou presença no teu maior pesadelo. 

A última música do disco é, para mim, uma das melhores. Um apogeu cósmico e uma celebração auditiva. É quase como se Ricardo nos dissesse: "Calma, baby. Vai ficar tudo bem". E esteve sempre. É um disco de confirmação. Ricardo Remédio veio para assombrar.

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