Onde termina a liberdade de decidir sobre os filhos?

O recente surto de sarampo abriu o debate em Portugal sobre obrigatoriedade da vacinação, colocando alguns pais e a comunidade médica em confronto. Nesta questão, como ainda na alimentação, na medicação ou nos partos, até onde vai a liberdade individual?

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03 Maio 2017, 4:31pm

Foto por Ricardo Graça

Este artigo foi originalmente publicado no JORNAL DE LEIRIA e a sua partilha resulta de uma parceria com a VICE Portugal.

O recente surto de sarampo, que levou já à morte de uma jovem de 17 anos, desencadeou uma alargada discussão pública sobre os direitos e deveres dos cidadãos, neste caso específico relativamente à obrigatoriedade, ou não, da vacinação. Muitas pessoas não seguem o plano nacional de vacinas, por entenderem que os riscos são maiores que os benefícios, podendo colocar em causa, segundo os defensores do sistema, a saúde dos seus filhos e a própria saúde pública.

O JORNAL DE LEIRIA tentou ouvir cidadãos que tomaram as suas decisões de forma informada e especialistas sobre estes assuntos. Segundo a revista Visão, a jovem que faleceu vítima de sarampo sofreu um choque anafiláctico aos dois meses. Depois, não voltou a ser vacinada. Se este é um caso que pode colocar vários pais a pensar, "E se fosse comigo, também voltaria a vacinar o meu filho?", há outros em que sofrer de uma doença cuja vacina existe, pode não significar ser do movimento antivacina.

Por exemplo, Alexandra Silva "apanhou" sarampo, rubéola e papeira. "Como estava sempre doente, acabava por não ser possível levar a vacina". Neil Violante não vacinou os filhos por opção. "Antes do nosso primeiro filho nascer, dedicámos três anos de estudos e pesquisas sobre a informação disponível no que dizia respeito aos benefícios das vacinas, assim como aos riscos relacionados com a sua administração. Concluímos que não havia provas científicas sólidas suficientes para sujeitar os nossos filhos ao risco relacionado com os efeitos secundários possíveis das vacinas presentemente disponíveis no mercado", revela o médico quiroprático, sublinhando que não tem uma "atitude antivacinas". "Esperamos umas vacinas mais seguras para os nossos filhos", sublinha.


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A Direcção-Geral de Saúde tem apelado à vacinação, considerando tratar-se de uma questão de saúde pública e de garantir a imunidade de grupo. Neil Violante lamenta a falta de "estudos científicos para assegurar a protecção do povo português e mundial sobre a eficácia e segurança das vacinas disponíveis". Segundo o médico de Leiria, "existem várias formas de assegurar uma forte imunidade e, infelizmente, não se tem falado dessas opções".

"Penso que devemos todos respeitar a forma como cada um deseja proteger-se e manter-se saudável. Não há uma forma única de criar imunidade. Noventa e cinco por cento dos casos de sarampo têm ocorrência nos países menos desenvolvidos, onde a higiene, a água e a alimentação são escassos. A probabilidade de morrer de sarampo para um país como Portugal é de 0,0003972%, o que equivaleria a 39 mortes por ano. Em comparação às 4600 mortes por infecções hospitalares, deveríamos dar mais importância a esta "epidemia", pois há maior probabilidade de a contrair ao visitar um hospital do que de contrair sarampo", constata Neil Violante.

DECISÃO INFORMADA

Baseando-se em dados americanos recolhidos no Vaccine Adverse Events Reporting System, uma vez que o "Infarmed não disponibiliza esses dados", existe "0,002608% de probabilidade de sofrer de uma complicação grave ou morte pela administração da vacina do sarampo, o que corresponderia a 261 casos em Portugal", reforça. Por isso, Neil Violante afirma que se lhe pedirem conselho sobre este assunto sugere "que conversem com os seus médicos sobre os prós e contras, que pesquisem a informação válida e científica na internet ou livros de referência e que leiam os folhetos que acompanham qualquer medicamento ou vacina, a fim de tomarem uma decisão bem informada".

Não é só o tema das vacinas que é polémico. Alimentação vegan ou macrobiótica, sobretudo em crianças pequenas, ou parir em casa, são outros temas pouco consensuais na sociedade portuguesa. Neil Violante e a sua família adoptaram também uma alimentação mais cuidada e saudável. "A decisão de melhorar a nossa alimentação veio dos vários conhecimentos e estudos que viemos a adquirir na área da saúde, ao longo dos últimos 25 anos. Sabemos que o corpo humano é composto de três componentes básicas: a parte física, química e mental/emocional/espiritual. Os vários stresses ditos 'mais negativos' da vida irão influenciar estas três componentes", adianta, considerando que a nutrição tem "uma grande influência sobre a parte química".

Tendo em conta que "podem existir alimentos que causam mais stresses ao organismo", a sua família decidiu "reduzir ou eliminar esses alimentos, de forma a permitir ao corpo uma melhor resistência às doenças e manter um nível de energia mais elevado".

Praticam uma alimentação de tipo mediterrânico, ou seja, comem de tudo, à excepção de carne (vermelha ou branca) e leite. "Limitamos o nosso consumo nos lacticínios, açúcares refinados, farinhas refinadas, álcool, café e gorduras de origem animal. Como não comemos peixe todos os dias, substituímos as proteínas animais por tofu, seitan, leguminosas e frutos secos". O médico entende que este tipo de alimentação trará "a curto e longo prazo mais vitalidade e saúde".

Em casa há livre escolha. Apesar da existência de uma "disciplina alimentar", Neil Violante nunca impediu os filhos de comer carne, por exemplo. "Expliquei-lhes as razões fisiológicas de nós não incorporarmos carne na nossa alimentação e, por eles próprios, por raciocínio mental, decidiram seguir as nossas recomendações."Especialista em quiroprática, tem conhecimentos em nutrição que advêm de "estudos e centenas de horas investidas em cursos de pós-graduação". "Sigo uma alimentação com as proporções seguintes: 60% de hidratos de carbono, 25% de gorduras, principalmente insaturadas, e 15% de proteínas. A única desvantagem que encontra na alimentação praticada é "querer almoçar ou jantar num restaurante e ter de comer sempre peixe por não haver uma escolha de prato vegetariano".

Dentro desta filosofia de vida, Neil Violante afirma que há 26 anos que não toma medicamentos receitados por um médico ou farmácia (químicos). "Mantenho um estilo de vida onde dou importância à prevenção em vez da cura. A quiroprática tem-me valido muito, pois assegura-me uma manutenção do sistema nervoso, sistema mestre do corpo humano. Também recorro a massagens, acupunctura e reiki para manter a minha energia e músculos no seu máximo", revela. Além disso, cuida da "parte mental, emocional e espiritual através de técnicas quiropráticas, meditação, leitura, formações de desenvolvimento pessoal e retiros". Para Neil Violante, "todos estes elementos, assim como a alimentação equilibrada e alguns suplementos alimentares, ajudam a manter uma boa saúde e evitar a necessidade de recorrer aos medicamentos farmacêuticos".

VEGETARIANA DÁ LIVRE ESCOLHA À FILHA

Em casa de Sofia Ferreira todos são vegetarianos, incluindo a filha de quase cinco anos. Há cerca de dois anos Sofia Ferreira iniciou uma alimentação "vegetariana restritiva" a pensar na saúde. "Há muito tempo que já vinha diminuindo a quantidade de carne que comia, embora ainda mantivesse o peixe. Um dia o meu marido, depois de ver um documentário deu o passo que faltava. A minha razão tinha mais a ver com a saúde e a dele estava mais relacionada com o ambiente", conta.

Hoje, Sofia Ferreira também considera que ter uma alimentação vegetariana faz sentido, também para contribuir para um melhor ambiente e para a defesa dos animais, que devem ser tratados "como qualquer um de nós". Além disso, afirma que "não é possível confiar no que chega aos nossos pratos". Os animais ingerem químicos, assim como os vegetais crescem à base de produtos não naturais, por isso, só consome o que é biológico.

A filha de quatro anos também é vegetariana, mas não tem as restrições dos pais. "Deixamo-la decidir. Em casa come o mesmo que nós, mas na rua faz a sua opção. Por exemplo, em casa dos avós não há restrições", refere Sofia Ferreira, salientando que tem conhecimento para garantir que não faltem os nutrientes e vitaminas essenciais ao crescimento da filha. "O principal problema poderia ser a B12, mas acaba por ir buscá-la quando come em casa dos avós. Aos dois anos ainda era muito pequena para fazermos um corte radical, mas, por exemplo, não bebia leite de vaca nem consumia produtos lácteos".

O queijo é uma excepção. "Ela adora e deixamo-la comer, embora advertindo que tem de ser pouco para não ficar doente". A menina é "saudável" e "cheia de energia". Este ano apenas ficou doente uma única vez. "Mudámos do Porto para Fátima e, mesmo com a mudança de clima, não houve qualquer ressentimento".

Sofia Ferreira também evita o uso de medicamentos. "Claro que se a pediatra disser que tem mesmo de tomar antibiótico, não tenho conhecimentos científicos para dizer que não. Mas ainda agora quando teve febre, controlámos e no dia seguinte acordou bem". Não é antivacinas, mas respeita as opções dos outros, que "certamente também se informaram para decidir". Esta mãe acredita que a alimentação biológica e vegetal que pratica, aliada ao exercício físico e a um estilo de vida saudável irá evitar muitas doenças.

Joana Moutinho, nutricionista, admite que a "escolha de um padrão alimentar vegetariano e, em particular vegano, pode ser uma opção saudável e nutricionalmente adequada em todas as fases do ciclo de vida, desde que apropriadamente planeada". Contudo, alerta que "esta adequação deve ser acompanhada por um profissional de saúde". Segundo a especialista, "um período particularmente importante é o da diversificação alimentar durante o primeiro ano de vida", por isso, e de forma a "adequar a todas as fases do ciclo de vida, esta dieta deverá ter em conta o valor energético dos alimentos, os macronutrientes e os micronutrientes - vitaminas, minerais e oligoelementos, presentes, bem como a sua biodisponibilidade".


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"Com cada vez maior acesso à informação, a maioria dos pais tem consciência que este tipo de alimentação necessita de um acompanhamento profissional e personalizado, principalmente numa fase de vida precoce, de forma a garantir um bom crescimento e desenvolvimento dos seus filhos. Neste acompanhamento, os pais são alertados para as carências nutricionais deste regime alimentar", frisa Joana Moutinho.

Deverá ser dada uma atenção especial para a "adequação da ingestão proteica e de alguns micronutrientes, nomeadamente a vitamina B12, ferro, zinco e cálcio". Isto porque "a população vegetariana poderá estar em risco de deficiência em vitamina B12, dado que esta apenas está presente em alimentos de origem animal, ou em alimentos fortificados".

Para a nutricionista Ângela Carvalho, "é sempre importante privilegiar os alimentos sazonais e regionais em detrimento de produtos excessivamente processados". Esta médica revela ainda que "existem vários estudos que reportam que um regime alimentar vegetariano (rico em fruta, produtos hortícolas, leguminosas, cereais integrais e frutos gordos) está associado à prevenção e redução de algumas patologias, nomeadamente doença oncológica, obesidade, doença cardiovascular, dislipidémia, hipertensão e diabetes; bem como a uma maior longevidade".

As nutricionistas realçam que é "necessário ter em consideração que uma dieta vegetariana poderá estar associada a um estilo de vida saudável, como por exemplo, ausência de tabagismo, ingestão de álcool e prática de actividade física", situações estas que "estão relacionadas com benefícios para a saúde em geral, pelo que poderão ser confundidores".

No entanto, Ângela Carvalho adverte que um regime alimentar vegetariano "não é sinónimo de ser 'mais saudável'", pois "dentro deste é necessário efectuar escolhas adequadas, tais como redução de gorduras saturadas/trans, sal, açúcares refinados… e incluir esta opção num estilo de vida saudável abrangente".

TER FILHOS EM CASA HUMANIZA PARTO

Respeito, conforto e humanização são três das palavras-chave que as mulheres que escolhem ter o filho em casa entendem que esta opção lhes oferece. Susana Fialho é doula e teve o segundo filho em casa. E o que é uma doula? Uma técnica que acompanha a grávida e lhe transmite uma visão holística da gravidez. Apoia, esclarece dúvidas e tem um trabalho emocional importante durante a gestão, no parto e no pós-parto.

Aliás, vários estudos, citados na página da Rede Portuguesa de Doulas indicam que as mulheres que foram atendidas por doulas durante o trabalho de parto tiveram significativamente menos uso de anestesia epidural, menos episiotomia e cesarianas. "Vimos de uma geração de muitos medos e o sítio seguro para muitas mulheres é o hospital. Não há que recriminar isso, mas aceitar. Cada mulher deve saber qual o seu espaço de conforto para poder ter o seu parto o mais humanizado possível", salienta Susana Fialho, que considera que a humanização do parto "passa muito pelo empoderamento da mulher".

Para esta doula, isto baseia-se no "respeito pelas decisões da mulher", seja em ambiente doméstico, seja em ambiente hospitalar". Susana Fialho defende que os médicos informem as mulheres das opções que existem. "Porque é que as pessoas são obrigadas a ter os bebés no hospital? Porque as pessoas não sabem que existe outra opção. Tal como pensam que têm de levar epidural ou ocitocina e têm de ser cortadas. Mas elas podem dizer que não.


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"A sua experiência pessoal de parir em casa foi "maravilhosa". "Contratei um enfermeiro parteiro e uma doula e tudo fluiu naturalmente até ao fim. A minha filha nasceu quase de 42 semanas e correu tudo bem", afirmou. Mas revela que quando conta que fez o parto em casa as pessoas lhe chamam "maluca". Segundo explica, o papel da doula é "acompanhar e orientar as decisões da grávida, esclarecendo as suas dúvidas". Esta técnica pode acompanhar grávidas em contexto hospitalar ou doméstico. "Se virmos que a grávida está a ter um comportamento arriscado alertamos e se, por exemplo, não quiser ter um parteiro, nós, doulas, recusamos estar presentes.

"Um dos aspectos fundamentais é o "trabalho emocional" que é feito durante a gravidez e no pós-parto, o que ajuda a reduzir "as cesarianas e a depressão pós-parto e a aumentar as taxas de amamentação", exemplificou, explicando que "as mães estão mais bem preparadas e conscientes daquilo que vai acontecer". Esta é uma função que Susana Fialho admite que poderiam ter os médicos de família, mas afirma que estão "sobrelotados". "Muitas vezes, o receio de ter um parto normal é o receio da dor. Há que trabalhar o que é a dor para essa mulher e o que sentem, pois, provavelmente, são coisas relacionadas com a sua infância", adianta a doula.

Susana Fialho recusa o termo de "correu mal e foi para o hospital". Segundo esta mãe, ir para o hospital é sinal que correu bem, porque houve consciência de que era necessário essa assistência.

VACINA DA TOSSE CONVULSA EM GRÁVIDAS PROTEGE BEBÉ

O obstetra João Gomes discorda e ainda tem presente alguns casos "muito complicados" que deram entrada no hospital de Leiria, resultado de "tentativas de partos no domicílio", com "consequências lamentáveis". A última situação que se recorda terminou com a morte do bebé. "Claro que quando corre bem é tudo muito fantástico… Mas os riscos são superiores aos benefícios. Fazemos uma avaliação da gravidez, há uma vigilância e uma previsão do tipo de parto. Mas é um cálculo de probabilidades. Nada nos garante que durante o trabalho de parto tenhamos de tomar uma decisão que não está ao alcance no domicílio", afirma João Gomes.

O especialista lembra ainda a importância das vacinas, nomeadamente do tétano, que é recomendada na gravidez, porque se verificava uma "grande percentagem de casos de tétano neonatal". João Gomes recorda que há algumas décadas, os partos ocorriam em casa, "não por opção, mas porque se vivia longe do hospital ou não se tinha transporte" e as crianças nasciam com a ajuda de parteiras ou por pessoas com mais idade, mas com condições que deixavam muito a desejar".

Com a administração da vacina do tétano diminuiu a frequência do tétano neonatal. Agora surgiram correntes do parto domiciliário, por opção, que vêm do estrangeiro. Mas, por exemplo, a Holanda já está em retrocesso com essa corrente, pois aumenta a mortalidade materno-fetal". João Gomes destaca ainda a vacina da tosse convulsa que, recentemente, começou a ser dada às grávidas para "dar imunidade ao bebé", enquanto ele não é vacinado. O obstetra explica que o sistema imunitário da criança não fica logo apto após o nascimento, pelo que a forma de proteger o bebé é vacinar a mãe, que transmite os anticorpos ao feto.


No âmbito deste artigo, o JORNAL DE LEIRIA entrevistou ainda o médico pediatra Bilhota Xavier, director do serviço de Pediatria do Centro Hospitalar de Leiria-Pombal.

"Falecer por recusa em administrar vacinas não é um acto de amor"

JORNAL DE LEIRIA: Concorda com o sistema actual de vacinação ou deve passar a ser obrigatória?

Bilhota Xavier: O Programa Nacional de Vacinação (PNV) completou recentemente os seus 50 anos e, sem carácter obrigatório, atingiu uma taxa de vacinação das mais altas do Mundo. Podemos pois dizer que, neste aspecto, temos os melhores pais do Mundo, evidenciado não só na taxa de cobertura do PNV, mas também na elevada percentagem de crianças vacinadas com vacinas extra PNV, importantes, mas não comparticipadas, e que, por vezes, com algum sacrifício financeiro, são administradas aos seus filhos.

A sua obrigatoriedade iria criar o movimento do contra, associando-a a uma imposição do Governo, sem qualquer ganho em saúde. Além disso, mas não é o factor primordial, como seriam aplicadas as penalizações e a quem? À mãe, ao pai, divorciados ou não. Ao profissional de saúde, que, deslocando-se a criança ao centro de saúde, encontrou falsas contra-indicações para a vacina, como "está constipada, são muitas picadas, ainda não comeu ovo e pode ser alérgico, ainda faltam uns dias para data marcada, etc", ignorando neste caso que, por uma questão de saúde pública, não devem ser perdidas oportunidades para a administração das vacinas. Dificuldades logísticas relativas à sinalização de crianças, que por motivo de doença grave, e não terem defesas contra as infecções - não confundir estas situações com as habituais "doenças das crianças", não têm indicação para realizar algumas vacinas.

Que papel têm os pediatras em convencer os pais que não querem vacinar a mudarem de posição?

Sensibilizar para as vantagens e esclarecer as raras complicações. Em 40 anos de prática médica nunca vi uma reacção grave a uma vacina. Sugerir que se pergunte aos avós como é que acontecia no passado, que vizinhos ficaram deficientes ou faleceram. Os pediatras podem ainda sugerir que se vá à internet e se visualizem imagens de crianças que viram amputados parte dos seus membros, ou com paralisias graves, ou que ficaram totalmente surdas, etc. E agora que se fala tanto de sarampo é preciso ter presente que, se a jovem de 17 anos que faleceu tivesse feito a vacina, não teríamos tido a perda de uma vida. Relembrar também que no caso do sarampo, acontece por vezes que o vírus fica alojado no cérebro, indo destruindo lentamente as células, acabando a pessoa por vir a falecer muitos anos mais tarde. As pessoas devem ter bem presente que uma criança ficar deficiente ou falecer por recusa em administrar vacinas não é um acto de amor, mas sim de negligência.

Qual o risco para as crianças quando os pais trocam os medicamentos do pediatra por medicamentos naturais/homeopáticos?

A grande maioria das doenças nas crianças são benignas e têm uma evolução natural para a cura, independentemente dos medicamentos administrados. Na medicina "natural" há medicamentos para combater todo o tipo de doenças? Esse é o grande risco. Podem os pais optar por medicação homeopata e a criança ser portadora de doença grave. Nestes casos, os medicamento ditos "naturais" são totalmente ineficazes e comprometem a evolução da doença, deixando muitas vezes lesões irreversíveis e mesmo levando à morte. Não foi por acaso que, no passado, em que a investigação sobre medicamentos estava a dar os primeiros passos, ou era mesmo inexistente, a taxa de mortalidade era incomparavelmente maior do que a actual.

O risco de não medicar uma criança - por exemplo recusa de dar antibiótico - é tão grave como exagerar na prescrição, ou optar por automedicação?

Muitas vezes ainda se prescrevem antibióticos sem clara indicação, embora actualmente o panorama esteja a mudar de forma significativa para melhor. De qualquer modo, na dúvida, os pais devem partilhar essas angústias com o seu médico e esclarecê-las. Podemos estar perante a tal doença grave e a comprometer a sua cura.

Hoje em dia a informação está mais acessível a todos. É bom ter pais mais informados e que questionam?

A questão que se coloca é relativa à qualidade da informação, às contradições existentes sobre a orientação perante uma mesma situação. Ter a informação, não é o mesmo que conhecimento e muito menos sabedoria para a aplicar. Essa informação deve ser sempre discutida com um profissional de saúde.

Qual o papel do pediatra junto de pais que optam por dar uma alimentação vegan ou vegetariana aos filhos?

Esclarecer os pais, respeitar as suas decisões, estar ao lado dos pais, complementando muitas vezes a alimentação com suplementos vitamínicos e minerais. O período mais crítico é o primeiro ano de vida, mas, como geralmente também são grandes defensores do aleitamento materno, o problema é relativo. De referir que este é o período da vida em que a velocidade de crescimento é a mais rápida de toda a vida, acompanhado de um crescimento e maturidade cerebral, que a não acontecerem vão comprometer o crescimento e, principalmente, as funções cognitivas da criança.

Na religião Jeová, as transfusões de sangue não são permitidas. Há alternativas?

Felizmente, vivemos numa sociedade que tem vindo a melhorar muito no que diz respeito à promoção dos direitos das crianças. É preciso ter bem presente que os pais não têm direitos sobre os filhos, mas sim deveres que venham a promover o superior interesse dessas crianças. Tanto quanto possível os profissionais de saúde devem respeitar a cultura e religião de cada um. Agora, se os pais tomarem uma decisão que claramente vai prejudicar o seu filho, quer seja ou não numa situação que implique transfusão de sangue ou uma intervenção cirúrgica ou outra, o médico, em conjunto com o tribunal, tomam a decisão no sentido do interesse da criança, mesmo que seja contra a vontade dos pais.


Elisabete Cruz é jornalista do JORNAL DE LEIRIA.

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