Entretenimento

Assistir filmes de terror me ajuda a lidar com minha ansiedade

Ficar assustada é uma maravilha para tratar meu transtorno.
11.10.17
Miramax

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US .

Sempre gostei de filmes de terror. E na época em que fui diagnosticada com um transtorno de ansiedade aos 20 e poucos anos, meu relacionamento com esses filmes começou a mudar. Você pode pensar que ficar nervosa o tempo todo ou viver com uma sobrecarga de adrenalina no dia a dia, me faria passar longe de algo que disparasse deliberadamente minha já hiperativa resposta ao medo — mas quanto mais ansiosa me sinto, mais quero assistir filmes de terror. É mais que só um desejo de me esparramar no sofá na frente da TV e me desligar do mundo: procuro propositalmente a coisa mais indutora de pesadelos que consigo encontrar, e se fico muito tempo sem um bom susto, sinto minha estabilidade emocional já tênue ficar ainda mais comprometida.

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Isso não é contraintuitivo quando você percebe que o enredo padrão de filmes de terror é basicamente um sonho de alguém com ansiedade se tornando real. No começo é o medo: o protagonista, geralmente uma mulher, muitas vezes sem poder de alguma maneira significativa, vê algo assustador. Ou ouve algo assustador. Ou talvez ela sinta que algo está errado de uma maneira que ninguém mais pode. Geralmente ela tem algum trauma no passado que a torna hipersensível aos sinais vermelhos, mas, ao mesmo tempo, permite que as pessoas ao seu redor desconsiderem sua intuição como histeria.

Os detalhes podem variar, mas no primeiro ato de um filme de terror (especialmente sobrenaturais), uma mulher tem medo e ninguém acredita nela.

Não só ela é desacreditada, muitas vezes ela é convencida a não confiar em si mesma. As pessoas tentam convencê-la de que ela está exagerando. Viver com ansiedade é assim: a cada esquina tem algum som ou sombra que indica um monstro que mais ninguém consegue ver. Você está sempre vendo alguma coisa com o canto dos olhos, e vê apenas o suficiente para saber que tem algo ali, mas não o suficiente para provar. Todo mundo fica te dizendo que não é real, que você só precisa relaxar, talvez fazer ioga. Aí você fecha os olhos à noite e escuta a coisa respirando.

Na vida real, não há encerramento ou catarse. Às vezes o monstro está longe, às vezes perto. Às vezes você acha que conseguiu vencê-lo, mas o filho da puta pode voltar para a sequência. Não há grandes vitórias, só a luta longa e exaustiva contra o medo que te esgota. Ninguém entende por que você está tão cansada, porque ninguém vê do que você está fugindo.

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Mas para as protagonistas dos filmes de terror, tem sempre um momento quando o monstro emerge das sombras. Quando ele está parado na frente dela, a questão não é mais se ela está imaginando coisas. É quão rápido ela consegue achar uma arma. A luta é sangrenta e geralmente alguém morre, mas pelo menos os antagonistas podem reconhecer a luta de vida e morte de que estão participando. O medo é revelado, o monstro é real, e pode ser combatido.

E no final — mesmo agora, 25 anos depois que Carol Clover publicou Homens, Mulheres e Motosserras — quase sempre, a Garota Final emerge coberta de sangue, marcada, mas bem viva. Podemos não gostar de pensar em filmes de terror como fantasias de desejo realizado, mas para quem tem ansiedade, há algo irresistível na ideia de que a coisa que você mais teme pode se tornar sólida: que isso pode ter um corpo, um nome e, melhor de tudo, uma fraqueza. Que isso pode sangrar.

Alguma coisinha dentro de mim se cura quando assisto um filme de terror e vejo a protagonista conquistar um triunfo que nunca estará disponível para mim. Essa é uma parte da equação de ansiedade e filmes de terror: a catarse. Mas tem outra faceta também, o que posso descrever como efeito equalizador.

Parte da razão para doenças mentais serem tão terrivelmente isoladoras é que o que está acontecendo com você não se alinha com a realidade externa. Você pode estar se sentindo mal sem conseguir apontar exatamente o que na sua vida está errado, ou por que você está com o coração disparado quando está segura na própria cama à noite. É difícil, cansativo e muito, muito solitário saber que o que sente no seu corpo é errado. Mas quando você assiste a um filme de terror, você deve estar com medo. Se você coloca algo assustador na TV quando está entrando em pânico, então o pânico não é mais uma aberração.

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É um alívio ver um monstro na tela em vez de senti-lo no seu peito. Assistindo a um filme de terror, o medo não é mais uma coisa quebrada e sem rosto dentro de você — é o Leatherface, o Freddy, fantasmas, demônios e bonecas de porcelana macabras.

Filmes de terror transformam seus piores medos em realidade, e mostram como derrotá-los. É uma satisfação num nível emocional que não tem nada a ver com quão bem a história é contada. Gosto quando um filme de terror tem um bom roteiro, mas não preciso disso, porque no final o que quero de um filme de terror não é uma narrativa surpreendente ou a exploração profunda de um tema.

É um monstro realmente assustador — ou pelo menos um monstro a que posso associar o meu medo.

Sei que isso não substitui um tratamento. Sei que não posso viver num mundo de "monstros são reais, vamos socá-los" o tempo todo. Mas essa é uma forma incrivelmente necessária de escapismo. Às vezes pesadelos são a única coisa que pode me ajudar a ter uma boa noite de sono.

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