Paula Lamont e Ella Gilbert fundaram a Solstar em 2016. Todas as fotos por Jake Lewis.

Aprender a lutar contra o fascismo numa academia feminista e antifa de artes marciais

A Solstar, localizada no norte de Londres, é descrita como uma academia baseada em princípios anti-fascistas.

Por Ayoola Solarin; fotos por Jake Lewis
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jul 27 2018, 2:25pm

Paula Lamont e Ella Gilbert fundaram a Solstar em 2016. Todas as fotos por Jake Lewis.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Broadly.

Ao mesmo tempo que usufruem da oportunidade de aproveitar um pôr-do-sol de Verão antes de uma noite de sessão de boxe, as fundadoras da Solstar, Ella Gilbert e Paula Lamont trocam socos e esquivas à luz do dia num parque da zona norte de Londres. Mesmo sendo um combate amigável, os golpes dão-me arrepios. Pelo canto do olho vejo quatro tipos a rir a uns metros de distância, mas as lutadoras estão focadas apenas uma na outra. Gilbert dispara um soco de direita que rapidamente acerta no nariz de Lamont, que surpreendida, devolve com uma pancada no rabo de cavalo de Ella. Riem-se juntas.

Enquanto academia de boxe e artes marciais gerida por mulheres e com princípios anti-fascistas, a Solstar é a primeira do género no Reino Unido. Quando abriram, em Fevereiro de 2016, Gilbert e Lamont estavam determinadas a construir um espaço onde mulheres pudessem aprender capacidades práticas de luta sem a presença do machismo. Lamont já competiu em MMA, treinou boxe e jiu-jitsu e foi a primeira mulher a conquistar um cinturão preto de taekwondo na sua academia. Gilbert, que iniciou os treinos de boxe em 2012 na universidade, combate agora em nome da Islington Boxing Club e foi vencedora na sua categoria no prestigiado London Development Championships em 2017.

Gilbert é blasé ao recordar a sua primeira experiência num clube de boxe amador: “Fui a primeira mulher em 100 anos e não tiveram mais nenhuma desde então. Mas, fui teimosa, persisti e recusei-me a ir embora. A dada altura tiveram que reparar em mim". E continua: “É a cultura no geral. Mesmo na minha actual academia competitiva, que tem o maior grupo de mulheres do país, ainda há seis ou sete homens para cada mulher”.

Embora seja um clube relativamente pequeno, o Solstar ainda assim tem uma média de género equilibrada. As aulas acontecem num centro comunitário local, com dois treinos por semana – boxe às terças-feiras e Muay Thai às quintas. Gilbert toma as rédeas nas aulas de terça, enquanto a vencedora oficial do World Muay Thai Council, Anna Zucchelli, lidera às quintas. Às vezes compareciam 30 alunas, mas, hoje, o número médio é mais fácil de gerir, estabelecendo-se entre as 10 e as 15.

Lamont lembra-se da recepção nada amigável que teve por parte de um instrutor, que apenas reforçou o seu desejo de uma academia mais inclusiva para mulheres. “Telefonei ao instrutor de uma academia assim que entrei para o MMA. Foi muito indiferente para comigo. Disse-lhe que tinha experiência, que já tinha praticado e ele não se mostrou minimamente entusiasmado. Para mim, se uma mulher pisa uma academia de luta, independentemente do seu nível, eles deveriam recebê-la com o dobro do entusiasmo”, conta.


Vê: "Como treina uma lutadora de MMA"


A academia Solstar distingue-se das outras academias pelos seus princípios interseccionais feministas e anti-fascistas. “Descrevemo-nos como um 'red gym', ou academia de esquerda”, explica Lamont. “É um espaço para as pessoas treinarem, sindicalistas, activistas ou pessoas que se considerem politicamente progressistas”. É sobre solidariedade, acrescenta Gilbert: “Existe um espírito de equipa quando entras numa sala e sabes que partilhas dos mesmos princípios que as pessoas com quem treinas”.

Embora existam outras academias com uma tendência de esquerda no Reino Unido, as duas repararam que esses espaços nem sempre eram inclusivos. Nenhum deles era liderado por mulheres. “Como é que vais promover essas coisas junto das pessoas, se não as representas?”, questiona Gilbert.

Paula Lamont.

Lamont concorda acenando com a cabeça. E acrescenta: “Acho que todos os movimentos progressistas deveriam ser liderados por mulheres. Deveria, pelo menos, ser igualitário. Não sei como podes chamar a algo de progressista se as mulheres não estão à frente de nada do que se diz de esquerda”.

Solstar está ligada a academias de esquerda, tanto no Reino Unido como a um nível mais global – as duas fundadoras, inclusive, voltaram recentemente de uma conferência de boxe anti-fascista em Ghent, na Bélgica. Academias de boxe e artes marciais são tradicionalmente anti-fascistas, explica Lamont, “porque se trata de treinar pessoas para ficarem atentas quando andam na rua. É sobre equipar as pessoas com a capacidade de se defenderem a si próprias”.

Auto-defesa é algo que a Solstar está a integrar nas suas aulas, especificamente para benefício das participantes mulheres. “Estamos a ensinar as pessoas a sobreviverem", explica Gilbert. Lamont diz que a melhor coisa que aprendeu com a prática de artes marciais não foi necessariamente como bater em alguém, mas sim como “levar pancada e não ficar desfeita em pedaços”.

Gilbert e Lamont treinam no parque.

“Já ouvi tantos relatos de mulheres que foram sexualmente ou fisicamente assediadas e que disseram ‘fiquei tão petrificada que congelei,’” diz. E salienta: “Se pudermos acabar com isso e ensinar as pessoas a não caírem nesse estado mental, então acho que conseguimos alguma coisa”. Mas, não sentirão elas medo de que a extrema-direita se infiltre no espaço que lhes custou tanto a construir? “Eles sabem sobre nós”, diz Gilbert. E sublinha: “Dizem que a esquerda está a tornar-se organizada!”.

As duas fundadoras têm um longo histórico de activismo. Lamont está envolvida em movimentos de protesto desde os anos 90 e, actualmente, é sindicalista. Como sabotadora de caçadores, interrompe caças a raposas no Reino Unido. O trabalho diário de Gilbert é na área da ciência climática – estuda o degelo do Ártico como parte do seu doutoramento Em 2016, escapou por pouco à prisão por protestar contra a adição de uma terceira pista para a expansão do Aeroporto de Heathrow.

No entanto, Lamont e Gilbert fogem da ideia de que a Solstar seja uma forma de protesto. “É uma forma de resistência, o oposto de uma forma de protesto,” diz Lamont firmemente. E adianta: “Para mim, protesto é uma reacção a algo em particular, enquanto resistência é sobre criar uma força e construir algo na comunidade em que as pessoas possam confiar. É sobre unir mais as pessoas, é sobre tornar a esquerda mais forte, tanto física como mentalmente".

Ella Gilbert.

O clube também conta com inusitados aliados das comunidades turca e curda. Actualmente, a Solstar leva a cabo as actividades num centro comunitário dirigido por Gik-Der, a Associação Cultural de Trabalhadores e Refugiados (RWCA), uma organização fundada em 1991 “por imigrantes fugidos da perseguição política e racial nos seus próprios países, Turquia e Curdistão”. Tal como Lamont e Gilbert, Gik-Der apoia a actual revolução democrática curda em Rojava.

Lamont está grata pelo suporte da comunidade local: “Esta é a parte efectivamente importante de tudo isto – trabalhamos num centro de refúgio de imigrantes. Eles disseram-nos, venham e utilizem o espaço gratuitamente, ficaremos lisonjeados se o fizerem. Portanto, tínhamos esse espaço que era de esquerda, anti-fascista, progressista e feminista, por isso quisemos fazer algo que reflectisse tanto a sua política, como a nossa.

"Membros da Solstar ajudam nos festivais da comunidade e com aulas de inglês e matemática para as crianças locais e o clube ainda oferece aulas de artes marciais para as mulheres locais. “Vamos angariar fundos para providenciar uma creche com uma educadora, já que as mulheres turcas e curdas disseram-nos que não podiam frequentar as aulas", revela Lamont. “[O projecto] é realmente sobre enfrentar os obstáculos que estão a impedir as mulheres de treinar e remover esses obstáculos”.

Acessibilidade é tudo – as aulas custam apenas cinco libras [cerca de 5,60 euros à cotação actual] por essa razão e os alunos podem negociar, caso não possam arcar com os custos. “No início, tomámos uma decisão e questionámos: queremos ser um clube de artes marciais underground, onde ninguém saiba quem somos e não publiquemos as nossas fotos e nomes na Internet? Vimos que isso não condizia com todo o propósito, por isso decidimos ser totalmente abertas”, revela Lamont.

“Acho que, para nós, é importante sermos vistas, pois estamos à frente de um movimento progressista”, afirma Gilbert por sua vez. E conclui: “Nós somos a primeira academia de esquerda liderada por mulheres e é importante que isso fique claro. Porque, além de tudo o resto, isto mostra que é possível. As mulheres podem liderar academias de artes marciais”.


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