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Homens que curtem ser traídos explicam-nos a sua tara

“Quero que a minha mulher pine com outros gajos, mas isso deixa-a de coração partido”.

Por Mahmood Fazal
28 Março 2019, 11:44am

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Austrália.

O meu pior pesadelo é pensar na minha parceira na cama com outro homem. O ciúme é uma fraqueza minha, algo que facilmente me consome. Mas, há por aí pessoas com o chamado "fetiche de corno", que se excitam com esses pensamentos. Eles querem que outros homens satisfaçam as companheiras à sua frente. E, mesmo que para mim isso pareça um pesadelo, tenho de admitir que este é um daqueles casos em que o horror de uns é o prazer de outros.

Um “corno” ou "cuckhold" [na expressão em inglês] é um homem numa relação que retira intensa gratificação sexual a ver ou a saber que a sua parceira está a fazer sexo com outras pessoas. Segundo David Dey, psicólogo e autor de Insatiable Wives, mais de 20 por cento dos homens nos EUA fantasiam sobre “esposas infiéis”. E os neurocientistas Ogi Ogas e Sai Gaddam descobriram, como descrevem no livro A Billion Wicked Thoughts, que o chamado "cuckhold porn" é o segundo termo mais procurado em inglês - depois de jovem - por heterossexuais.


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Há um tipo muito particular de ódio que ferve dentro de mim quando considero a possibilidade de a minha parceira fazer sexo com outra pessoa. E é esse influxo cerebral específico de adrenalina que excita esses homens; é a natureza tabu da fantasia, combinada com um choque sexual de endorfinas, que forma um masoquista psicológico. O “corno” experimenta uma sinfonia de emoções contrastantes; ciúme, gratidão, vergonha, desejo, inadequação e luxúria. Queria falar com pessoas que se sentem assim para saber se havia uma intimidade subjacente ou se se tratava apenas de gratificação sexual desfigurada.

Por isso, fui a uma reunião de viciados em sexo para entrevistar três homens para quem o "fetiche de corno" se tornou um problema. Encontrei-os à porta de um salão comunitário. Um deles tinha um isqueiro com luzes de LED que brilhavam sempre que o acendia, outro estava sempre a enfiar o dedo no seu copo de café e o último não parava de passar a mão nervosamente no cabelo endurecido pelo gel. Os três estavam vestidos com as suas melhores roupas de domingo.

Lá dentro, entrevistei-os sentados em cadeiras de plástico desconfortáveis para tentar entender a raiz de um impulso sexual que parece tão estranho.

David, 37 anos, contabilista

"Na primeira vez, menti à minha mulher e disse-lhe que a tinha traído. Esperava que ela me traísse de seguida. Não lhe conseguia contar a verdade. Adoro vê-la de diferentes ângulos em espelhos. Comecei com os espelhos a olhar para mim próprio, depois fiquei obcecado em vê-la a ela. Acabei por confessar e contei-lhe os meus desejos. Estava muito bêbado e foi preciso muita coragem para falar. Ela concordou em tentar, se fosse algo que pudesse fortalecer a nossa relação e fazer com que as coisas voltassem a ser como eram.

Organizei as coisas para um tipo ir ter connosco a um bar através do site Backpage. Andavam por lá muitos indianos a apresentarem-se como negros. Tive que filtrar esses e os pervertidos. Nada contra, mas a minha mulher não estava interessada. E isto era algo que devia ser tanto para ela como para mim. Combinei encontrar-me com um 'mochileiro' da África do Sul num motel em St. Kilda. Bebemos no bar da esquina e ainda antes de acabarmos o primeiro copo já estávamos num Uber a voltar para casa.

Fui meter uma música e quando regressei eles estavam nus um em cima do outro. Ela repetia 'Tens a certeza que é isto que queres?'. E isso deixou-me chateado, mexeu com a minha cabeça. E o gajo a dar-lhe forte. Fiquei apenas ali sentado. A deixar as as sensações tomarem conta de mim. É como se a tua cabeça soubesse que não deveria estar a ser exposta àquilo, não está pronta e de repente acontece. E a nossa vida sexual tornou-se outra coisa. Agora ela é complexa e está em erupção contra si mesma.

Quero que a minha mulher pine com outros gajos, mas isso deixa-a de coração partido”. Ela superou o fetiche bastante depressa. Portanto disse-lhe: 'Sabes uma coisa? Sei que não curtes isto e vou fazer algo a respeito'. Porque acho justo. E ela está em primeiro lugar. É suficiente para ela contar-me sobre encontros sexuais com outros homens, histórias que inventa, quando estamos juntos. É também suficiente para mim. Só estou a tentar tirar isto do meu sistema, essa coisa de tentar convencê-la a encontrar-se com outros tipos quando estou bêbado, porque no fundo ainda o quero".

Vince, 34 anos, funcionário de entregas

"Costumava pensar em outros homens a fazer sexo com a minha esposa quando estava preso. Sempre que ela me visitava, ficava excitado quando ela me dizia que achava outros gajos atraentes. Ela nunca o dizia directamente. Era sempre algo como 'Ele deve dar-se bem com as mulheres'. E eu dizia que sim, o gajo é bonito, não é? E ela dizia 'É, ele é muito jeitoso'. Nunca fui uma pessoa ciumenta.

Fiquei viciado em metanfetamina na cadeia. Isso também me ajudou a assumir-me. Percebi que era bi e experimentei. Entrava noutras celas e ficava a ver outros homens terem sexo. Depois, comecei a pensar em diferentes gajos a foderem com a minha mulher. Pensei que ela se estava a sentir solitária. E eu amo-a, mas não podia estar lá para ela. Tinha que ser com alguém que eu conhecia. Para saber que a pessoa não ia fazer merda tudo e que ninguém a ia magoar.


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Nunca quis estar presente quando acontecesse. Só queria organizar tudo lá dentro e ela contava-me depois. Nas noites em que acontecia, ficava a pensar como tudo se ia desenrolar e quando ela me contava o que realmente tinha acontecido era sempre melhor. Isso também me ajudou a assumir-me. Experimentei com a minha sexualidade na prisão. E isso ajudou a que me abrisse quando ela marcava as nossas 'viagens' com outros homens. Ela não tinha problemas com a minha sexualidade. Acho que estar preso abriu-me os olhos. É algo que te faz pensar na vida e como viver de maneiras diferentes".

Sebastian, 35 anos, mestre de obras

"Fui abusado pela minha madrasta quando era garoto. Cresci em Bacchus Marsh e, na época, era um sítio merdoso. Ainda é. E, depois disso, era frequente ficar acordado até tarde, a ver vídeos porno que encontrava no quarto dos meus pais, ou a ouvi-los pinar. Ficava excitado quando encontrava lubrificante ou preservativos no quarto deles, escondidos na gaveta das meias. Fui uma criança muito perturbada. Sexo não é para crianças.

Conheci a minha mulher pela Internet. Ela ensinou-me sobre direitos das mulheres. É uma pessoa forte e livre. Conhecemo-nos online, éramos abertos sobre as nossas vidas sexuais e tentávamos encontrar pessoas com as mesmas inclinações. Ela já tinha feito isto antes. A coisa da fantasia de 'corno'.

Primeiro, frequentámos festas de swing, havia uma num bairro perto de casa. Honestamente, foi a minha primeira vez. Conhecemos pessoas de mente muito aberta. Fiquei a vê-la pinar com dois tipos musculados atrás de uma piscina nessa primeira vez. Um deles usava anéis de prata enormes. Os olhos dela estavam em mim. Foi uma emoção incrível. Quando ela geme, soa diferente com outros homens. Não sei, não é a distância, é só diferente quando não estás envolvido. Era surreal. Pensar nisso é uma coisa, mas quando acontece na vida real pensas 'o mundo é um lugar maravilhoso'. Estávamos todos a partilhar e tudo tinha a ver com respeito em primeiro lugar, eles pediam com educação. Depois a coisa começa. Não conseguia tirar o sorriso da minha cara.

Agora, conhecemos toda a gente nos círculos certos. Também há cenas chatas. Às vezes eles não querem falar contigo depois do sexo. Mas, a maioria quer e é interessante conhecê-los. No entanto, acabámos por nos separar e acho que foi por causa de todas as festas de sexo em que participámos. E é por isso que eu queria explorar a situação e falar com pessoas que tiveram as mesmas experiências. Não sou viciado em sexo, mas às vezes acho que sou um pouco pervertido e sinto-me culpado. Converti-me recentemente e realmente fico perturbado quando penso em explorar a sexualidade. Isso mantém-te na linha e acho que é por uma boa razão. Mas, não é tão divertido".


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