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O Planeta está em risco de entrar num estado apocalíptico e irreversível

Novo estudo diz que temos menos de 20 anos para corrigir isto.

Por Stephen Leahy; Traduzido por Madalena Maltez
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ago 24 2018, 1:07pm

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Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Motherboard.

Este Verão, as pessoas estão a sofrer (e a morrer) por causa das ondas de calor e dos incêndios florestais em várias partes do Mundo. Os últimos três anos foram os mais quentes já registados e é provável que 2018 siga o mesmo padrão. Aquilo que fizermos nos próximos 10 a 20 anos vai determinar se o nosso Planeta continuará bom para a vida humana, ou se nos encaminharemos, de modo irreversível, para o que, num recente estudo de larga escala, os cientistas apelidaram de condições de "Terra Estufa".

A Terra Estufa é um pesadelo apocalíptico em que as temperaturas globais médias estão entre 4 a 5 graus Celsius mais altas (em regiões como o Ártico, a temperatura média será de 10 graus a mais) do que hoje, de acordo com o estudo, “Trajectories of the Earth System in the Anthropocene” [“Trajectórias do Sistema da Terra no Antropoceno”], publicado no final de Julho na Proceedings of the National Academy of Sciences. Os níveis do mar estarão entre 10 a 60 metros mais altos, depois de todos os glaciares do mundo derreterem. Nessas condições, grandes porções de terra do Planeta tornar-se-ão inabitáveis.


Vê: "Shane Smith investiga o verdadeiro custo da negação das alterações climáticas"


"Cortar as emissões de carbono para limitar as alterações climáticas em dois graus Celsius, conforme proposto pelo Acordo de Paris, não será suficiente para evitar a Terra Estufa”, afirma o co-autor do etudo, Johan Rockström, director executivo do Centro de Resiliência de Estocolmo, na Suécia. A realidade é que as temperaturas globais não são causadas unicamente pelas emissões de carbono decorrentes das acções dos seres humanos, afirma Rockström - sistemas naturais, como florestas e oceanos, também têm um papel importante.

Se o aquecimento global chegar a dois graus Celsius, isso poderá desencadear um ponto crítico, também chamado de “tipping point”, em um ou mais dos sistemas naturais, causando mais aquecimento. Para colocar em perspectiva, as ondas de calor recentes e incêndios florestais estão associados às mudanças climáticas que aumentaram a temperatura média global em um grau Celsius.

O degelo do permafrost (solo encontrado no Ártico e constituído por terra, gelo e rochas permanentemente congelados) é um dos 10 pontos críticos estudados no artigo. O permafrost existe em praticamente um quarto da área de terra do hemisfério norte. Se áreas grandes descongelarem, vão libertar grandes quantidades de carbono e metano, aumentando o aquecimento.

Outros pontos críticos incluem a floresta amazónica e o desaparecimento das florestas boreais (quando uma floresta inteira morre subitamente por causa da seca ou outra causa); a redução da cobertura de neve no Hemisfério Norte, do gelo antártico e das calotas polares; e a perda do gelo de Verão do Ártico. “Estes elementos de viragem podem agir como uma fila de peça de dominó. Quando uma peça é derrubada, leva todo o Planeta consigo”, afirma Rockström. É praticamente impossível parar este processo depois de que ele se inicie e a etapa seguinte é entrar no caminho de uma Terra Estufa. “Temos de nos tornar administradores planetários nos próximos 10 anos. Este é o maior problema de segurança global de todos os tempos”, garante Rockström.

Não se sabe se um aumento de temperaturas de dois ou mesmo de 1,5 graus Celsius desencadeará um ou mais desses pontos críticos, mas quanto mais quentes as temperaturas ficam, maior é o risco. A boa notícia é que sabemos o que fazer para evitar a futura Terra Estufa, afirma a co-autora do estudo, Katherine Richardson, da Universidade de Copenhaga, na Dinamarca. “Temos o conhecimento e a capacidade de agir. Está no nosso controlo”, afirma.

Os cientistas realçam três áreas cruciais de acção. A principal, para as próximas décadas, é cortar de modo agressivo as emissões de carbono e descarbonizar os nossos sistemas de energia o mais rapidamente possível. Isso está a começar a acontecer, porque energias alternativas, como a eólica e a solar, são hoje mais baratas do que a energia fóssil em muitas partes do Mundo, não poluem o ar e criam mais empregos.

A segunda prioridade é combater o desmatamento e a conversão de áreas naturais para produção agrícola. Florestas e outras áreas naturais absorvem 25 por cento das nossas emissões de carbono e isso tem de aumentar. A terceira prioridade é continuar a desenvolver tecnologias, de forma a retirar carbono da atmosfera e armazená-lo de modo seguro por milhares de anos. A Carbon Engineering, uma empresa canadiana, desenvolveu recentemente um processo que retira o carbono da atmosfera e transforma-o em combustível líquido neutro. Entretanto, os seus custos permanecem altos, bem como os custos das demais tecnologias para remoção de carbono.

Muito disto já está a acontecer sem a liderança de governos nacionais. Indivíduos, comunidades e empresas compreendem que há coisas novas a fazer e que precisamos de limitar o nosso impacto na Terra. Uma coligação de estados, cidades e organizações representando mais da metade da economia dos EUA está unida para cumprir os objectivos do Acordo de Paris, independentemente do que a administração Trump faça.

Outra grande mudança para a sustentabilidade planetária diz respeito à diminuição das taxas de fertilidade em praticamente todos os lugares do Mundo, afirma outra das co-autoras do estudo, Diana Liverman, do Instituto do Meio Ambiente na Universidade do Arizona, nos EUA. Se as escolhas das mulheres continuarem a ser apoiadas, a população mundial vai estabilizar em breve, reduzindo a necessidade de alimentação. Assim, será possível sustentar ainda mais pessoas.

O grande desafio agora passa por reduzir o consumo de materiais e de energia em países ricos e garantir que países pobres e em desenvolvimento sigam um caminho de progresso com cada vez menos carbono. Estudos globais revelam que as pessoas, especialmente os adultos jovens, estão conscientes e dispostos a tomar atitudes e desejam que os seus governos trabalhem mais nesse sentido. “Mas não podemos ser complacentes. Se escolhermos não tomar as atitudes devidas, vamos ter grandes problemas”, alerta Liverman.


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