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Indicação de Sandra Oh ao Emmy é uma grande vitória pra mulheres asiáticas

É um prazer agridoce celebrar a indicação da primeira mulher asiática a receber uma nomeação de melhor atriz no tradicional prêmio da TV norte-americana.
Foto: Araya Diaz/Getty Image.

Sandra Oh sempre foi uma pioneira, mas na quinta-feira dia 12, ela fez história ao se tornar a primeira mulher asiática a ser indicada ao Emmy como atriz principal de uma série .

Ela não ganhou (ainda), mas fãs como eu estão celebrando esse acontecimento com gostinho de vitória, e quem pode nos culpar? O significado da indicação de Oh a este Emmy é gigante para uma comunidade de espectadores que nunca vêem alguém como eles mesmos na tela, e para atrizes asiáticas que há muito tempo são relegadas a comerciais de carros sensuais, bordéis, e como mães rígidas ou gênios da tecnologia.

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Anteriormente Oh já havia sido indicada ao Emmy cinco vezes como atriz coadjuvante por sua interpretação de Cristina Yang em Grey’s Anatomy, seu papel mais famoso. Esse foi o tipo de papel asiático-americano que os espectadores merecem: Yang era uma médica ultra qualificada MD/PhD, mas também era um personagem deliciosamente complexo. A criadora de Grey’s Anatomy Shonda Rhimes, e Oh decidiram mostrar o custo emocional da ambição, em vez de denegrir Yang por escolher esse caminho. Yang era um tipo de personagem raramente visto no horário nobre da televisão: uma mulher asiática que era calculista sem ser uma megera.

Mais notavelmente, Yang foi uma das primeiras personagens do horário nobre televisivo a decidir fazer um aborto e seguir em frente. Isso é especialmente extraordinário devido ao histórico televisivo de retratar o oposto – ter uma mulher considerando um aborto apenas para ser convencida do contrário por seu parceiro, ou sofrendo um dano psicológico permanente e se arrependendo após passar pelo procedimento.

Em Killing Eve , Oh interpreta Eve Polastri, uma M15 DESK JOCKEY que vira detetive. É série é fenomenal e dá a Oh a oportunidade de brilhar mais uma vez, marcando Polastri com uma performance forte e profundamente humana. Existe um espaço de quatro anos entre Anatomy e Eve, o que parece estranho quando você pensa sobre o quão rápido os outros membros do elenco foram escalados para outras séries e filmes famosos . Oh, por sua parte, “trabalhou muito, muito duro para se afastar” das lembranças de todas as oportunidades que chegaram ou não a ela. Ela disse à Vulture que reconhece o racismo da indústria do entretenimento, mas que tenta não deixar que isso atrapalhe seu desenvolvimento artístico. Sua anedota sobre a audição para o papel de Eve em Killing Eve, fala sobre o impacto emocional mais profundo do racismo:

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Uma coisa que eu vou compartilhar com você – quando recebi o roteiro de ‘Killing Eve’, eu me lembro que estava andando pelo Brooklyn e estava no telefone com minha agente, Nancy. Eu estava rapidamente rolando o roteiro para baixo, e não sei dizer exatamente o que estava procurando. E foi quando eu disse “Então Nancy, eu não estou entendendo, qual é o papel que estão me oferencendo?” E Nancy respondeu “Querida, é a Eve, é a Eve.” Naquele momento, eu não tinha percebido que a oferta era para Eve. Eu penso muito sobre esse momento. Penso em coisas como, o quão profundo eu internalizei isso? [Tantos] anos sendo vista [de uma certa maneira], isso nos afeta muito, muito, muito profundamente. É tipo, como o racismo define seu trabalho?

Não é simplesmente culpa do comitê do Emmy que levou tanto tempo – esse ano é o 70º Primetime Emmy Awards – para uma mulher asiática ser indicada ao maior prêmio do drama televisivo. Em um cenário desprovido de grandes oportunidades de atuação para asiáticos e americanos asiáticos, a falta de indicações e de vitórias, não é surpreendente. Pra ganhar um prêmio você precisa ter um bom papel, e esses papéis são limitados para os asiáticos. Apenas dois atores asiáticos ganharam um Emmy – Archie Panjabi em 2010 como atriz coadjuvante em The Good Wife e Riz Ahmed em 2017 como ator principal na série da HBO, The Night Of.

Muitos foram ao Twitter para falar sobre o absurdo de uma “primeira” dessa magnitude em pleno 2018.

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Oh tem merecido esse tipo de reconhecimento há anos, e após anos de negligência é um prazer agridoce reconhecer que finalmente existe espaço nas telas para as mulheres asiáticas. Graças a programas como Killing Eve, o comitê de indicações do Emmy finalmente tem algo a mais para pensar sobre.

Eu vi em primeira mão como a discriminação pode funcionar. Minha mãe tem uma idade semelhante à de Oh e passou anos como uma atriz profissional trabalhando em comerciais e lutando por oportunidades na tv e em filmes que são limitadíssimas para as mulheres de descendência asiática. Ela era frequentemente escalada para “papéis do tipo stripper,” graças ao seu passado dançante, ou como uma funcionária de TI. Ela foi uma das dançarinas de fundo em Memoirs of a Geisha, um filme que foi muito criticado por atores e atrizes de todas as regiões da Ásia pela representação do povo japonês . A atriz chinesa Ziyi Zhang foi particularmente criticada na China por estrelar um filme sobre o Japão.

Foi bastante peculiar ver o desenrolar daquela repercussão. A crítica estava absolutamente correta – é perturbador escalar mulheres chinesas para papéis japoneses, especialmente devido ao histórico de crimes de guerra do Japão contra a China. Mas na prática, o chamado para que os diretores de elenco agissem eticamente significaria que mulheres asiáticas e americanas de descendência asiática teriam menos oportunidades em uma indústria de entretenimento muito americana branca. Se Geisha tivesse escalado um elenco exclusivo de atores japoneses, outros atores asiáticos teriam que esperar pela próxima oportunidade, e isso não acontece com muita frequência.

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Um blockbuster como Memoirs of a Geisha acontece apenas uma vez a cada dez anos –

Memoirs Of a Geisha saiu em 2005 e Crazy Rich Asians sai esse ano. Pense bem se houve alguma outra coisa nesse meio tempo. A ideia de que mulheres asiáticas conseguiriam trabalho fora do estereótipo era uma fantasia, especialmente nos tempos em que a indústria do entretenimento costuma escalar atores brancos, o famoso whitewhashing , para interpretar papéis asiáticos . Só agora estamos entrando na era em que séries de televisão e filmes estão escalando mulheres asiáticas para o elenco principal – como Awkwafina em Ocean’s 8 ou Jameela Jamil em The Good Place – em vez de serem escaladas para papéis secundários ou situações que são explicitamente sobre ser asiático.

Minha mãe deixou a indústria porque nos mudamos de Los Angeles, mas não fez esforço nenhum para voltar a atuar de novo. Depois de anos de aulas de teatro, um período com os Groundlings e um tempo em um grupo de comédia local – no qual seu personagem mais comum era a japonesa Yoko Ono (minha mãe é taiwanesa), quem pediam para ela interpretar em quanse todas as apresentações públicas – ela se cansou de ser o “token asiático do recinto.” Ela desabafou para mim, incontáveis vezes, sua exaustão de saber que seus agentes a enviaram para um teste pra parecer que o projeto não era racista e de saber que qualquer papel que não havia sido escrito especificamente para uma mulher asiática iria para uma das mulheres brancas da sala composta quase completamente por mulheres brancas. E eles quase sempre iam.

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Imagem: BBC America.

Oh precisou lidar com essa disparidade ao longo de sua carreira. Ela é perfeitamente consciente dos espectadores que torceram por ela e de seus colegas atores e atrizes que tiveram que lidar com esse racismo por anos. “Eu sei que eu sou parte da minha comunidade. Eu realmente me apego a isso, não tanto como a linha de frente que move meu trabalho, mas eu sei disso,” disse Oh à Vulture após sua indicação. “Estou extremamente honrada por ser capaz de passar por esse momento, não só por mim, mas pelo que isso significa para nossa comunidade,”

Essa é a maior alegria da indicação de Oh – o fato que de foi aberto esse espaço para ela, e o possível espaço que pode garantir à nossa comunidade. Oh disse ao New York Times :

Estou feliz de estar passando por isso, porque o que eu espero que aconteça é que no próximo ano e no ano seguinte e no ano seguinte, marcaremos presença. E a presença vai crescer não só para os americanos asiáticos, sabe, desde os amarelos aos negros, para todos nossos irmãos e irmãs. Nossas irmãs e irmãos de diferentes tamanhos e diferentes formas. Se eu posso fazer parte dessa mudança, então sim, vamos celebrar.

Estou muito feliz que a indicação de Oh esteja sendo tão celebrada. Muitas das minhas amigas asiáticas – independente de suas descendências étnicas – me enviaram mensagens ou fizeram um raro post sobre seu entusiasmo. Na noite da indicação, minha mãe até me mandou mensagem, “Eu morreria para interpretar um papel real, uma detetive como a Sandra Oh.” Mais que tudo, eu espero que ela tenha essa chance. Com esse momento, e com doses pesadas de sorte, mais mulheres asiáticas podem ter a oportunidade.

Matéria originalmente publicada na VICE US.

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