Que tipo de velho punk és tu?

De crossfitter a pai moderno gentrificador, há toda uma lista de opções de existência para ti. Sim, para ti que já passaste dos 30!

Por Dan Ozzi; ilustração por Seth Laupus
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fev 16 2018, 2:43pm

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Noisey US.

Quando punks passam dos 30, as opções começam a escassear. Há uma nova geração a chegar e sentes-te cada vez mais distante de tudo e mais vulnerável que nunca. Aquela ânsia de lutar contra o sistema desapareceu. Olhas para o espelho e percebes que, agora, és parte desse mesmo sistema!

De forma a preencheres o crescente vazio que toma conta da tua vida e combateres uma sensação cada vez mais próxima da irrelevância, procuras novos hobbies e interesses. Compilamos abaixo uma pequena lista de possíveis opções de estilo de vida para um punk trintão.

Cervejeiro artesanal

Transformaste a paixão por desperdiçar a vida a "encher a cara", numa carreira à frente de uma cervejaria. Aqui, a tua pança de cerveja não é um “problema de saúde”, como diria o teu médico, mas sim um currículo impressionante. Além disso, tens uma barba enorme, sempre acompanhada de um pouco de espuma no bigode, sem contar com as indefectíveis camisas de flanela com as mangas enroladas, de forma a mostrares as tuas tatuagens old-school. Em Janeiro programas logo a folga no Halloween para poderes participar num qualquer Oktoberfest, onde estarás sempre disposto a recomendar IPAs sazonais aos interessados.

Coleccionador de crachás (ou pins, como quiseres)

A febre dos crachás bateu-te FORTE. De tal maneira que acabas por comprar tudo de qualquer banda que os esteja a vender, mesmo que nem curtas particularmente a música em questão. Aquele teu casaco de ganga chegou ao ponto de ter demasiados pins, mas, por outro lado, são óptimos para puxar conversa naquelas matinés emo que frequentas mensalmente e que não têm nada de depressivo.

De repente até começaste a fazer os teus próprios pins e a vendê-los online, todos com aquele toque de ironia millennial niilista que agora está a bombar. Um deles é uma lápide com o texto “RIP, emoções”, o outro um Ceifador Sinistro a dizer “nem vem que não tem” [assim mesmo em português com sotaque, que soa melhor] e, pá, pensando bem, isso até é preocupante. 'Tás bem?

Redactor de dissertações no Facebook

Já toda a gente fez as malas e zarpou para o Instagram e Twitter, só tu continuas na única rede social que ainda permite o envio de convites do Candy Crush: Facebook. Além do mais, usas o site exactamente como Mark Zuckerberg gostaria: longos textos sobre coisas que te chateiam, carregadinhos de gralhas, erros gramaticais e informações erróneas oriundas de fontes suspeitas, que invariavelmente caem no vácuo, visto que a maior parte dos teus 287 amigos simplesmente te meteu em mute.

A tua noção de acompanhar a cena punk consiste em partilhar todo e qualquer post do The Hard Times e a marcares todos os amigos que achas que se encaixam. Cada meme postado por ti já vai com uma qualidade horrorosa, depois de ter sido roubado e repostado incontáveis vezes, ou então é uma imagem horizontal da qual tiraste print na vertical. És o gajo que consideras este texto “mal escrito” e que vai comentar no post que as traduções (e tudo o resto) da VICE Portugal são todas uma merda.

Magnata das criptomoedas

Gastaste uma nota em bitcoins em 2014 e agora tens uma bela maquia à tua espera na carteira virtual, tipo uns 100 mil. Lógico que até podias ter isso na conta se tivesses arranjado aquilo a que chamam de “emprego a sério” e tivesses poupado algum ao longo de tempo, mas a verdade é que só os otários trabalham. Eh pá, espera lá, agora são 50 mil, que estranho.

Bem, daqui uns meses provavelmente vai dar para juntares uns trocos e comprares uma casa para sair dessa vida de república estudantil e curtires o teu cantinho. Raios, 23 mil. A cena é que não quiseste usar o Coinbase para fugires às taxas embutidas e depois... 17 mil, mil e 500... Agora tens tem 50 paus e um monte de tempo perdido.

CrossFitter

Um fim de uma relação afectou-te ao ponto de quereres recuperar a forma e, assim, aumentares a auto-estima. Das duas uma: ou embarcaste no crossfit, ou na escalada indoor. Se és daqueles que tem medo de alturas, foste mesmo para o crossfit com o objectivo de fazeres novos amigos.

Agora, podes atirar pesos para lá e para cá, vestido com aquela tua t-shirt de Jane Doe, dos Converge, a sentires-te ultradisciplinado e a distribuir cumprimentos aos colegas à volta depois de cada série bem-sucedida. Anos de cerveja e de horas no sofá a veres merda atrás de merda na televisão, deixaram o teu corpo com um estranho formato de batata. Mas, tudo bem porque o que importa é que te sintas bem! Continua a registar os treinos do dia e a postar vídeos no Instagram com a hashtag #NoPainNoGain. Os teus peidos cheios de proteínas são HORRÍVEIS.

Activista pelos direitos dos homens

A tua banda foi acusada de ter letras terrivelmente misóginas e, em vez de ficares quietinho e parares para pensar nas merdas que disseste, puseste-te a ouvir Milo Yiannopoulos a dissertar sobre como o feminismo é um cancro no podcast de Joe Rogan [ou a ler o acórdão daquele juiz da Relação do Porto que acha que o problema das mulheres que levam na tromba é não terem lido a Bíblia como deve ser].

Agora sim és um tipo esperto, a apoiares-te em estatísticas do tipo 50 por cento dos casos de violência doméstica são de mulheres contra homens, coisa de que “ninguém fala”. De forma a garantir a integridade do teu emprego, postas memes com um perfil fake, a maioria com "piadas" sobre a cultura de violação, ou a chamar feias e gordas a algumas escritoras feministas que odeias. Com o tempo, alguém te vai apanhar e vais acabar por ouvir o que não queres, atribuindo a culpa de tudo está a acontecer à “perseguição contra aqueles que não aderem à mentalidade esquerdista de rebanho" [de momento és admin de uma fanpage do André Ventura no Facebook].

Coleccionador de discos

Hoje em dia, não vais a muitos concertos, porque é tramado andar fora de casa até tarde, mas continuas a coleccionar discos, cuidadosamente organizados por ordem alfabética em prateleiras do IKEA. Compras todos os lançamentos da Deathwish, em todas as cores possíveis e passas a maior parte dos teus dias no Discogs, onde toda a tua colecção está milimetricamente catalogada, além de manteres uma conta no Instagram dedicada aos EPs mais raros e correres atrás de prensagens-teste antigas da Level Plane Records e da primeira edição de How Strange, Innocence, dos Explosions in the Sky.

Entusiasta da cultura das barbearias

Nada como dar aquela aparadela numa barbearia com pinta de estúdio de tatuagem, cujo nome geralmente remete para a tradição etc e tal, com aqueles postes de barbearia em branco, azul e vermelho na fachada. O interior é todo em preto e dourado, cena fina mesmo à séria e ainda te oferecem uma cervejinha quando entras.

Um gajo meio rockabilly na recepção, o tipo que fazia as ilustrações da tua banda é o responsável pelo logo na montra... uma cena do caraças. Vais lá a cada duas semanas, portanto o barbeiro já sabe o que queres - um fade alto e uma super popa. Fora isso, tens um canal no YouTube em que falas dos diversos cremes, ceras e fixadores que usas para manter o visual.

Creep do Tinder

És aquele gajo que no Tinder aparece com um cãozinho na maioria das fotos, para mostrar que é um homem sensível, que não vai mandar 31 mensagens seguidas àquela miúda e acabar por lhe ligar a insultá-la caso ela não responda e decida dar numa de Fantasminha. A tuas fotos também revelam tatuagens nos dedos, já o teu Spotify conta com pelo menos três bandas da nova cena punk local nas mais ouvidas.

Podcaster

Como é que é pessoal, és um podcaster! Descobriste o que faltava ao Mundo: um tipo branco a debitar opiniões! Tens dois programas, um em que falas sobre as porcarias que tens comido e outro em que entrevistas pessoas “interessantes”. Passar tanto tempo a editar áudio pode parecer cansativo, mas a Ortobom tem tudo o que precisas logo ali num site à maneira, tudo perfeitamente personalizável, entrega e montagem incluídas. Não te esqueças de usar o código LANCHESCAST, para teres um desconto, repito LANCHESCAST, tudo em caixa alta.

Pai de família nos subúrbios

Tua e atua companheira mudaram-se para os subúrbios [Amadora, Santo António dos Cavaleiros, Margem Sul, Gaia, o que seja] depois de terem um filho. O teu filho tem um nome apunkalhado tipo Milo e uma roupinha diferente dos Misfits para cada dia da semana, que usa durante as idas ao parque com o cão da família, onde travas amizade com outros pais que têm tatuagens nas mãos.

Tens bastante tempo, livre já que deixaste o trabalho numa agência para seres dono de casa enquanto a tua mulher trabalha. Ainda assim aceitas umas cenas em modo freelancer, que te obrigam a sair da tranquilidade do lar uma vez por mês. Os melhores cinco minutos da semana acontecem no regresso a casa, quando compras um miminho na boulangerie da tua preferência, comes tudo sozinho e não contas nada a ninguém.

Fã de MMA

Entraste nessa do punk quando a coisa bombou no mainstream no final dos anos 90 e, agora que tudo já passou, já podes voltar a ser otário. Convidas a tua malta para ver combates na televisão, usas calões da Tapout como pijama e estás sempre a tentar brincar à cachaporra com os outros, deixando toda a gente bastante desconfortável.

Funcionário da VICE

A vida de artista que almejavas acabou por não resultar muito bem, o que te levou a procurar um emprego normal, mas foda-se, pelo menos é um emprego normal “cool”. Não tens de fazer a barba e ainda podes ir de t-shirt e casaco de malha para o escritório. Talvez pudesses fazer algo mais da vida e criar a tua própria empresa de comunicação, caso te esforçasses mais uma beca. Já para não falar que deixarias de ter de aguentar piadinhas sobre a VICE ser tão “cooollllll”. Mas, pensando melhor, é bem bom ainda ter um emprego.

Dan Ozzi é um bom menino, de coração puro, que não se encaixa em nenhuma das categorias acima. Segue-o no Twitter.


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