análise

Que tipo de velho punk você é?

De crossfiteiro a papai moderno gentrificador, uma lista de opções de existência para você que passou dos 30.

Matéria originalmente publicada no Noisey US .

Quando punks passam dos trinta, suas opções rareiam. Uma nova geração vem aí e você se sente cada vez mais distante de tudo e mais vulnerável que nunca. Não há mais aquele afã de lutar contra o sistema porque você se olha no espelho e percebe: agora você é parte dele! De forma a preeencher o crescente vazio que toma conta de sua vida e uma sensação cada vez mais próxima de irrelevância, você busca novos hobbies e interesses. Compilamos aqui uma listinha de possíveis opções de estilo de vida para um punk que trintou:

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Cervejeiro artesanal

Você transformou sua paixão por desperdiçar a vida enchendo a cara numa carreira em uma cervejaria em que sua pança de cachaça não é um “problema de saúde”, como diria seu médico, mas sim um currículo impressionante. Além disso, você tem uma barba enorme, sempre acompanhada de um pouco de espuma no bigode, sem contar as indefectíveis camisas de flanela com as mangas enroladas de forma a mostrar suas tatuagens old-school. Todo mês de janeiro você já pede folga adiantada no Halloween pra participar de algum Oktoberfest, sempre disposto a recomendar IPAs sazonais para os interessados.

Colecionador de buttons

A febre dos buttons bateu FORTE em você, que acaba comprando tudo de qualquer banda que esteja vendendo um destes, mesmo que nem curta o som dos caras em especial. Aquela tua jaqueta jeans chegou ao ponto de ter buttons demais, mas eles são ótimos pra puxar um papo naquelas matinês emo que tu frequenta mensalmente e que não tem nada de deprê. De repente você até começou a fazer os seus próprios buttons e vender no Etsy, sei lá, todos com aquele toque de ironia millennial niilista que está bombando agora, um deles é uma lápide com o texto “RIP, emoções”, o outro um Ceifador Sinistro dizendo “nem vem que não tem” e, bicho, pensando bem, isso é até preocupante. Cê tá bem, cara?

Redator de textão no Facebook

Todo mundo já debandou pro Instagram e Twitter, só você que continua na única rede social que ainda permite o envio de convites do Candy Crush: Facebook. Além do que, você usa o site exatamente como Mark Zuckerberg gostaria: longos textos sobre coisas que te enchem o saco, lotados de erros de digitação, erros gramaticais e informações errôneas vindas de fontes suspeitas, que invariavelmente caem no vácuo, visto que a maior parte do seus 287 amigos simplesmente te mutou. Sua noção de acompanhar o rolê punk consiste em compartilhar todo e qualquer post do The Hard Times , sempre marcando seus amigos que se encaixam ali. Cada meme postado por você já está com uma qualidade horrorosa depois de ter sido roubado e repostado incontáveis vezes ou é uma imagem horizontal da qual você tirou print na vertical. Você é o cara que considera este texto aqui “mal escrito”, e vai comentar no post que as traduções da VICE Brasil são todas uma bosta.

Riquinho das criptomoedas

Você gastou uma grana em bitcoin em 2014 e agora tem uma bolada te esperando na sua carteira virtual, tipo uns 300 mil, lógico que você poderia ter lucrado isso aí se tivesse arrumado aquilo que chamam de “emprego de verdade”, mas só otários trabalham. Opa, peralá, são 200 mil agora, que esquisito. Bom, daqui uns meses provavelmente vai dar pra juntar um trocado e comprar uma casa pra poder sair dessa vida de república e curtir seu cantinho. Vixi, 186 mil. O lance é que você não deu uma de coió, evitando usar o Coinbase pra fugir das taxas embutidas e aí — ai caceta, 34 mil, 1.500… Agora você tem cinquenta pilas e um monte de tempo perdido.

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CrossFiteiro

Um fim de relacionamento te afetou a ponto de você decidir entrar em forma pra dar um grau na autoconfiança. Das duas uma: ou você partiu pro crossfit ou escalada indoor, a não ser que você tenha medo de altura, nesse caso acaba indo pro crossfit fazer novos amigos. O lance é que agora você pode atirar pesos pra lá e pra cá enquanto sua aquela camiseta do Jane Doe do Converge, se sentindo ultradisciplinado e distribuindo cumprimentos aos colegas ao redor após uma série bem-sucedida. Todos esses músculos após anos de cerveja e assistir qualquer merda na TV jogado no sofá deixaram seu corpo com um estranho formato de batata, mas tudo bem porque o que importa é se sentir bem! Você ainda registra seus treinos do dia e posta vídeos no seu Instagram com a hashtag #EsmagaQueCresce. Seus peidos proteinados são HORRÍVEIS.

Ativista pelos direitos dos homens

Alguém deu um pito na sua banda por conta de letras terrivelmente misóginas e em vez de ficar quietinho e parar pra pensar nas merdas que falou, você foi assistir vídeos do Nando Moura e Flávio Morgenstern. Agora sim você é um cara esperto, valendo-se de estatísticas do tipo 50% dos casos de violência doméstica são de mulher contra homem, coisa que “ninguém ouve falar”. De forma a garantir a integridade do seu emprego, você posta memes com um perfil fake, a maioria fazendo gracejos sobre a cultura de estupro ou chamando de feias e gordas algumas escritoras feministas que odeia. Com o tempo, alguém vai te sacar e você vai acabar tomando no cu, atribuindo a culpa de tudo isso à “perseguição contra aqueles que não aderem à mentalidade de rebanho esquerdista”. No momento você é admin de uma fanpage do Bolsonaro no Facebook.

Colecionador de discos

Hoje em dia você não frequenta muitos shows porque é dureza ficar na rua até tarde, mas segue colecionando discos, cuidadosamente organizados em ordem alfabética em prateleiras da Tok&Stok. Você compra todos os lançamentos da Deathwish em todas as cores possíveis e passa a maior parte de seus dias no Discogs, onde toda sua coleção está milimetricamente catalogada, além de manter uma conta no Instagram dedicada aos seus EPs mais raros e vive correndo atrás de prensagens-teste antigas da Level Plane Records e da primeira tiragem de How Strange, Innocence do Explosions in the Sky.

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Frequentador de barbearia

Nada como dar aquele grau numa barbearia com jeitão de estúdio de tatuagem, num estabelecimento cujo nome geralmente remete à tradição etc e tal, com aqueles postes de barbearia em branco, azul e vermelho logo na frente. O interior é todo em preto e dourado, coisa fina mesmo, e ainda te oferecem uma cervejinha ao entrar. Um mano meio rockabilly fica na recepção, o carinha que fazia as ilustras da sua banda é responsável pelo logo deles na vitrine, o que é muito massa. Você vai lá a cada duas semanas, então o barbeiro já sabe o que você quer — um fade alto e um topetáço. Fora isso, você tem um canal no YouTube em que fala das diversas pomadas, ceras e fixadores que usa pra manter o visual.

Escrotinder

Você é aquele cara que sempre aparecer no Tinder, com um cachorro na maioria das fotos pra mostrar que é um cara sensível e que não vai mandar 31 mensagens seguidas pr’aquela mina e no final das contas ligar pra ela xingando caso ela não te responda e decida dar uma de Gasparzinho. Suas fotos também revelam tatuagens nos dedos, já seu Spotify conta com pelo menos três bandas da nova cena punk local nas mais ouvidas.

Podcaster

Olha só você, um podcaster. Você se ligou no que faltava no mundo: um cara branco dando suas opiniões! Você tem dois programas, um em que fala sobre as porcarias tem comido e outro em que entrevista pessoas “interessantes”. Passar tanto tempo editando áudio pode parecer cansativo, mas a Ortobom tem tudo que você precisa bem ali em seu site, tudo perfeitamente personalizável, entrega e montagem inclusas, não esqueça de usar o código LANCHESCAST pra ganhar um desconto, repito LANCHESCAST, tudo em caixa alta mesmo.

Rapper

Lá no começo dos anos 2000 você já metia essa mala de "rap de verdade é o Facção Central e Realidade Cruel", mas depois que seus pais assinaram internet banda larga você conheceu o Aesop Rock na comunidade do post-hardcore no orkut e foi realmente ouvir algo do Beastie Boys além do "No Sleep Till Brooklyn" e "Intergalactic". Com o tempo você percebeu que falar do Kanye West era muito mais efetivo com a mulherada do que discutir qual o melhor disco do Descendents, e a essa altura do campeonato até o Dado Dolabella se dizia punk. Hoje você tem uma coleção de adereços contrabandeados da Supreme, finalmente conseguiu fechar o braço com tatuagens e quer muito que façam tipo um Noisey Atlanta com os seus parças de trap do seu bairro de classe média.

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Papai de Pinheiros

Você e sua esposa mudaram para Pinheiros ou Santa Cecília após terem um filho. Seu filho tem um nome punkoso tipo Milo e tem uma roupinha diferente do Misfits pra cada dia da semana, que ele usa durante idas ao parque junto com o dog da família, onde você faz amizade com outros pais que tem tatuagens nas mãos. Você tem bastante tempo livre já que largou seu trabalho numa agência pra virar dono de casa enquanto sua esposa trabalha, mas ainda assim pega uns frilas que te tiram da tranquilidade do lar uma vez por mês. Os melhores cinco minutos da semana rolam na volta pra casa, quando você pega um mimo na doceria de sua escolha e come tudo sozinho e não conta nada pra ninguém.

Desconstruídaço

Sua presença na internet é uma verdadeira ode ao quão desconstruidão você é. Sua diversão é reescrever manchetes problemáticas dos outros, sempre acompanhadas de comentários do tipo “melhorem”. Muitas hashtags ligadas a causas e movimentos sociais na sua bio e “Sinto muito que isso tenha acontecido com você”, “Você é tão corajosa <3” e “Você se importaria se eu compartilhasse isso?” são algumas das frases que você mais utiliza ao comentar postagens de mulheres nas redes. Ninguém, ninguém mesmo, ficará surpreso quando umas DMs bizarras suas vazarem e tenha que tirar uma folga forçada da internet.

Fã de MMA

Você entrou nessa de punk quando a coisa bombou no mainstream ao final dos anos 90 e agora que esse lance todo passou, dá pra voltar a ser otário de novo. Você sempre convida a galera pra assistir Canal Combate e usa shorts da Tapout como pijama, sempre tentando brincar de lutinha com os outros, deixando todo mundo bem desconfortável.

Funcionário da VICE

A vida de artista que você queria acabou não dando lá muito certo, o que te levou a procurar um emprego normal, mas pô, pelo menos é um emprego “bacana”. Nele, você não precisa fazer a barba e ainda dá pra vir de berma de tactel. Talvez você pudesse fazer algo mais da vida e criar sua própria empresa de comunicação caso se esforçasse mais um tiquinho, fora que aí não precisaria mais aguentar piadinhas sobre a VICE ser tão “descoladona”, mas pensando bem, é legal ainda ter um emprego.

Dan Ozzi é um bom menino de coração puro que não se encaixa em nenhuma das categorias acima. Siga-o no Twitter .

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