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Sexo

Sou uma virgem de 29 anos e estou grávida

“Estou, basicamente, a mostrar o dedo do meio às pessoas que disseram que eu não podia ter um filho, porque ainda não sou casada”.

Por Sarah Berman
15 Fevereiro 2018, 1:42pm

Imagem via Pixabay.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Canadá.

Se filmes de adolescentes (ou os filmes de Steve Carell) nos ensinaram alguma coisa sobre virgindade, é que o rótulo é acompanhado de uma tremenda bagagem emocional. A expectativa é que virgens de determinadas idades vivam atolados em vergonha e angústia, que não queiram que o resto do mundo saiba do seu grande segredo, mas, ao mesmo tempo, que queiram desesperadamente acabar com a seca sexual.

Tratando-se de uma virgem de 29 anos, Lauren parece em paz com o seu rótulo de “virgem”. Não está propriamente aos gritos em cima de um telhado, mas também não está com pressa para fazer sexo. Na verdade, parece bastante tranquila com a ideia de viver a vida inteira sem sexo. Parte disso vem do facto de ter crescido com um transtorno glandular que afecta a produção de hormonas do seu corpo, mas também há um elemento genuíno de se estar pouco marimbando para a condição de virgem aos 29 anos.

Enquanto moradora numa comunidade profundamente religiosa de Manitoba, Canadá, foi essa atitude que levou Lauren a procurar um doador de esperma e tornar-se mãe solteira - contra os conselhos de médicos e amigos. Foi esta a passagem só de ida de Lauren para fora do mercado dos encontros românticos. Isto porque, defende, as aplicações de encontros permitem que os homens sejam completamente idiotas.

“As pessoas dizem coisas horríveis”, conta à VICE. E realça: “Lembro-me quando fiz um perfil num site de encontros e o primeiro comentário que recebi foi 'Queres sentar-me na minha cara?' Primeiro, isto alguma vez na vida funcionou mesmo com alguém? Segundo, não, obrigada. Pessoas destas enojam-me”.

A VICE encontrou-se com Lauren para falar de indirectas por DM, hormonas de gravidez e o tipo especial de fobia que vem com a sua recusa de sexo para o resto da vida (para que fique registado, o bebé deve nascer em Junho e, actualmente, ela está a pensar em nomes inspirados em Game of Thrones).

VICE: Lembras-te de te sentires diferente desde muito cedo?
Lauren: Desde que me lembro que sei que sou diferente. Nasci com hipopituitarismo, o que significa que a minha glândula pituitária não se formou da forma correcta. Não envia as mensagens hormonais correctas para as outras glândulas do corpo, como a glândula da adrenalina e os ovários. Por causa disso tive que tomar substitutos hormonais para me desenvolver da maneira certa. Tenho o transtorno sob controlo há muitos anos e hoje já não é um problema. Mas, era óbvio que eu era diferente, porque tomava comprimidos para tiróide e injecções de hormonas de crescimento todos os dias.

Por causa da minha glândula pituitária, passei pela puberdade muito tarde. Nem teria passado por essa fase sem altos níveis de estrogénio. Só comecei o tratamento, porque gozavam comigo por causa do meu peito liso, já que toda a gente já tinha mamas naquela época. Foi muito chato, porque me obrigou a fazer uma coisa para a qual não estava necessariamente preparada.

Foi difícil não passares pela puberdade, como os teus amigos? As outras crianças eram cruéis contigo?
No preparatório senti o pior disso. Provocavam-me por não ter mamas e ter os dentes separados. As crianças atacam qualquer coisa que seja diferente. Essas piadas ainda hoje me causam ansiedade social. A minha vida começou a melhorar quando passei a parecer-me com toda a gente. Comecei o secundário numa escola com apenas 100 alunos, mas depois fui para uma com mil e 500 e mais de 500 no meu ano de formatura. Era mais fácil esconder-me e misturar-me num grupo diferente.

A coisa mais difícil foi, provavelmente, engravidar. Inicialmente, o meu endocrinologista disse que era impossível, que precisaria de um óvulo de uma doadora e gastar milhares de dólares em fertilização in vitro. Senti-me bastante mal. Mas, ainda assim, indicou-me uma clínica de fertilidade. Passei um ano numa lista de espera a pensar que não ia acontecer, mas, depois de uma consulta de cinco minutos com um especialista de fertilidade, tudo mudou.

Fico impressionada como aparentemente não sentes que estás a perder nada no que respeita ao sexo. Sentes isso por vezes?
Desde que fiquei grávida, houve alguns momentos em que senti que talvez fosse bom ter alguém para isso... para sair e fazer sexo... Às vezes, por curiosidade, pensava se poderia tentar um encontro aleatório, mas esse sentimento passou depressa - percebi que não estava a agir como eu mesma.

Se decidisses aceder a esses raros sentimentos, como seria o teu encontro ideal? Um jantar? Netflix e ver o que acontece?
A melhor situação possível seria com alguém que eu conhecesse há algum tempo. Sem jantar nem nada disso. Queria ver sobre o que realmente é essa coisa do sexo. Acho que não conseguia se antes tivesse um grande evento. Sou uma pessoa bastante ansiosa, portanto acho que se fosse jantar com alguém, provavelmente ia tentar encontrar razões para não gostar da pessoa, ou convencer-me a fugir.

Dizes que os encontros te parecem inúteis. Podes falar um pouco mais sobre isso?
Não sei. Tentei conhecer pessoas aqui e ali. Tive um namorado quando era estudante e andávamos de mãos dadas e tudo. A dada altura, concordámos que não funcionava. Ainda somos amigos e nunca houve nenhum sentimento negativo entre nós. Não tenho pensamentos negativos sobre as pessoas com quem saí, só que essa coisa de romance não é para mim. Tentei sites de namoro. Mas nunca me pareceu que valesse a pena. O último encontro que tive foi por volta do último Natal. Uma amiga tentou impingir-me o irmão. Hoje em dia só faço o que quero fazer. Não ter que me importar com outras pessoas é mais fácil.

O beijo na boca é algo que te atrai?
Já fui beijada e foi muito estranho. Não é algo que queira reviver.

A masturbação é parte da tua vida?
Já tentei, mas não gostei. Portanto, não repeti.

O que é que os teus amigos acham de tudo isto? Há muita gente que sabe?
Entre o grupo de amigos com que cresci, nunca foi um problema, o que era bem fixe, porque não me sentia pressionada para fazer o que não queria. Hoje em dia falo mais sobre a vida sexual deles do que sobre a minha. Não é que não me apoiem, só sinto que, se eu não mencionar, eles também não me vão pressionar.

É difícil perceber quem sabe. Vivo numa comunidade religiosa bastante pequena. Agora, as coisas são um pouco mais modernas, mas até há alguns anos era uma cidade muito secante. Portanto, isto não é algo sobre o qual fale abertamente. As pessoas sabem que sou solteira e vou ter um filho. Mas, não sabem necessariamente a parte de que sou virgem.

Queres ser mãe por alguma razão religiosa?
Faço piadas com isso, mas estou, basicamente, a mostrar o dedo do meio às pessoas que disseram que eu não podia ter um filho, porque ainda não sou casada. É o oposto de uma razão religiosa. Se me disseres que não posso fazer alguma coisa, vou fazê-la.

Há alguma coisa que aches que os não-virgens podem aprender com a tua situação?
Acho que é só uma questão de te conheceres a ti mesmo. Quanto mais te conheces, mais ficas confortável com as escolhas que fazes. Sei com o que fico confortável, sei o que quero. Estão sempre a dizer que é preciso que cada um tenha um tempo para se amar a si próprio. Parece um tremendo cliché, mas é a melhor coisa que podes fazer. Quando sabes o que queres, que se foda o que os outros pensam, certo?

Achas que um dia podes mudar de ideia? Talvez acordares aos 35 anos e decidires tentar?
Sinto que isso seria mau. Só de pensar em ter 30 anos e contar a alguém que sou virgem, seria como aquele episódio de Seinfeld. É muito constrangedor. A dada altura, se queria ter alguma coisa com alguém, nunca mencionava a parte de ser virgem... Talvez me arrependa daqui a 10 anos. Quem sabe?

A entrevista foi editada para maior clareza.


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