Viver em Lisboa

Queremos sair de casa dos pais, mas não há ordenado que aguente uma renda em Lisboa

Somos a geração dos cursos, dos mestrados, dos Erasmus. Somos qualificados, mas temos ordenados de um País "em recuperação". E agora, quem é que nos paga a renda?
04 July 2018, 11:45am
Deixem-nos viver aqui! Foto por Sérgio Felizardo/VICE

Era uma vez Portugal, onde as rendas sobem a pique. Bairros locais, que tinham mercearias, padarias e papelarias, cujos donos tratavam a clientela pelo nome e se mantinham a par de como a vida vai difícil, "mas a gente vai andando”, foram agora substituídas por cafés com nomes estrangeiros, dedicados à pastelaria típica dinamarquesa – vá-se lá saber quem era o tuga que andava à espera de tal oferta no mercado – bica a dois euros e onde, qual cereja no topo do bolo, o tipo atrás do balcão nem sequer fala português.

Isto é a nossa Lisboa em 2018. No coração da cidade, damos por nós a ter que cumprimentar o senhor do café em inglês, a ter que subir a rua por entre os gritos e o alvoroço que sai das janelas escancaradas de mais um Airbnb e, se andamos a pé pela cidade, já sabemos que isso implica parar pelo menos duas vezes a cada 20 metros para dar indicações a um casal francês perdido entre as ruelas inclinadas das sete colinas.

Incentivámos o investimento estrangeiro, abrimos os braços para os receber, vimos o País a embelezar-se para eles e os restaurantes a encherem-se, achámos que a vida era outra e que era melhor assim - mas, agora que estamos lotados e cansados de nos esquivarmos de chineses no passeio, os turistas não param de chegar. O metro quadrado em Lisboa e no Porto disparou sem dó nem piedade e a capital portuguesa chegou, inclusive, à posição 93 no ranking das cidades com o custo de vida mais elevado do Mundo, tendo subido 44 lugares desde o ano passado, segundo um estudo global conduzido pela Mercer.


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Portugal tem salários baixos e não andamos propriamente a nadar em ofertas de emprego. Olhamos à volta e vemos o centro da cidade a ser comprado, pessoas a terem de trocar as suas casas de uma vida por um apartamento na periferia, porque a oferta de um qualquer empresário americano foi irrecusável. Sim, nós paramos para explicar aos casais estrangeiros com as caras manchadas de protector solar 50 qual é o caminho mais rápido para o Chiado, aturamos as gritarias dos Airbnb em cada esquina e até damos o benefício da dúvida ao café dinamarquês – mas esta é a nossa Lisboa do nosso Portugal e, apesar de tudo e de gostarmos muitos de os cá ter, queremos também poder alugar uma casa aqui, na nossa Lisboa do nosso Portugal.

Alugar, já nem digo comprar. Já ninguém diz comprar – a ordem do dia é vender, vender, vender. Ao turista, ao estrangeiro, ao Visa Gold e, porque é dinheiro fácil e bom, escarrapachar a casa no Airbnb. Mas e por nós, quem luta? Pela minha geração, por nós que estamos nos nossos primeiros empregos com salários de um Portugal a recuperar da crise, nós os dos cursos superiores, dos mestrados de oito mil euros, dos Erasmus, dos estágios profissionais. Nós, que fizemos tudo o que nos foi exigido para podermos brincar ao mundo dos adultos com vocês, geração das vacas gordas – agora, que chega a nossa hora de sair de casa dos pais e entrar na brincadeira, não há salário que sustente uma renda em Lisboa.

Estas são as nossas histórias.

Teresa, 24 anos

Foto cortesia Teresa

VICE: Olá Teresa! Trabalhas há quanto tempo e em que área?
Teresa: Há três anos. Comecei em marketing, passei por auditoria e agora estou em consultoria.

Tens uma poupança destinada ao futuro, ou poupas apenas a curto prazo, por exemplo para viagens? Que percentagem do teu ordenado consegues poupar?
Não é possível poupar a longo prazo com os ordenados de hoje, por isso, por enquanto, só penso no curto prazo, para poder desfrutar ao máximo e viajar. Do ordenado consigo poupar um máximo de 20 por cento. As contas da casa e a renda levam 50 por cento e o restante gasto principalmente em restauração.

Já saíste de casa dos teus pais, que tal foi a odisseia da procura de casa? Conseguiste encontrar na zona que querias?

Já saí sim, mas só este ano, com quase três anos de experiência profissional, mas com muito pouco dinheiro poupado. Eu e o meu namorado procurámos casa durante quatro meses e achámos os preços surreais: para viver numa zona minimamente central, tem que se estar disposto a pagar 800 euros por 40 metros quadrados. A primeira casa que alugámos era numa boa zona, pensámos que nos tinha saído o Euromilhões... Quando nos mudámos percebemos porquê – prédio sem isolamento e com uma família com quadrigémeos a viver no andar de cima. Tivemos de desistir, o barulho era insuportável. Tive de aceitar ir viver para a Penha de França pelo mesmo preço, mas com mais 100 metros quadrados.

O problema da disparidade entre ordenados e custo de vida assusta-te, ou ainda não tinhas pensado muito no tema?

Assusta-me e não é pouco. Não percebo como é que as pessoas, com estes ordenados miseráveis que quase nem dão para se sustentarem a si mesmas, ainda sustentam filhos. E nem falo só do preço das fraldas, cremes e etc para quando são bebés - uma creche custa à volta de 400 euros, mesmo sendo IPSS. É o equivalente a metade de uma renda de uma casa, sem contas! Os senhorios pedem preços absurdos, porque sabem que a procura é maior do que a oferta e que não temos outra hipótese senão aceitar, uma vez que a alternativa é ir viver para os arredores. E, se ninguém aceitar, põem-nas no Airbnb e ainda facturam mais. Assusta-me principalmente porque não prevejo uma reviravolta nos próximos tempos.

Manuel, 28 anos

Foto cortesia Manuel

VICE: Olá Manuel! Quando eras mais novo e sonhavas com o dia que fosses adulto, com que idade te imaginavas a sair de casa dos teus pais?

Manuel: Imaginava sair quando começasse a trabalhar, de duas formas: ou se casasse, ou se saísse para ir viver com amigos. Acabei por decidir ficar em casa dos meus pais, onde ainda vivo, ao fim de quatro anos a trabalhar na área de consultoria financeira. De momento já estou numa posição em que conseguiria ser financeiramente independente, pelo menos a dividir casa, mas decidi aguardar pelo próximo ano, 2019, para sair de casa e ir viver com a minha noiva.

Tens uma poupança destinada ao futuro, ou poupas apenas a curto prazo, por exemplo para uma viagem?

A nossa geração é muito diferente da dos nossos pais, que eram bastante mais poupados. Com as facilidades que temos em viajar, ir a festivais e até viver numa cidade com muita coisa a acontecer, tornou-se muito mais difícil poupar. No entanto, tenho dois tipos de poupança: uma destinada ao futuro, onde faço vários tipos de investimentos para rentabilizar o dinheiro poupado para objectivos muito específicos, como comprar casa, um eventual problema de saúde, para o caso de ser preciso ajudar alguém da minha família, ou outro tipo de urgência. E outra, destinada ao curto prazo, que gasto essencialmente em viagens, concertos, etc. Do meu ordenado consigo poupar cerca de 20 por cento, mas porque também gosto de o usar para aproveitar a vida.

Dadas as perspectivas de empregos e ordenados – ainda que a vida dê muitas voltas e quem sabe se amanhã não inventas o próximo Facebook - o que achas que vais conseguir ter/comprar na vida? Casa própria, casa de férias?

Com os preços actuais, torna-se um pesadelo pensar em comprar casa. Eu diria que, hoje em dia, para comprar uma casa com três quartos no centro de Lisboa demoraria, provavelmente, entre 30 a 40 anos a conseguir pagá-la. E, no mundo em que vivemos, nunca sabemos o dia de amanhã. A nossa geração não se quer comprometer com grandes investimentos, porque só pensamos em ir viver para fora, trabalhar em vários sítios e andar a viajar pelo Mundo. Gostaria de ter uma casa própria, mas sempre com o pensamento de que poderia rentabilizá-la no Airbnb, ou noutra plataforma do género.

O problema da disparidade entre ordenados e custo de vida assusta-te?

Esta pergunta é muito interessante e tenho pensado bastante neste tema, porque depois da crise financeira que ultrapassámos, sinto que entrámos numa crise social profunda. A economia está a crescer, mas os salários das pessoas estão congelados, não acompanham a subida do custo de vida e muito menos a subida do preço do metro quadrado. Há uma amplitude muito grande entre a classe alta e as classes mais baixas. Esta situação leva a que as pessoas tenham um sentimento de injustiça social, o que ajuda a que surjam movimentos de extrema-direita ou de extrema-esquerda, pessoas com ideias radicais que se aproveitam desse sentimento de injustiça, em quem as pessoas mais desesperadas acabam por acreditar e por dar espaço de manobra a que estes mais radicais, como o Trump, mudem o Mundo de forma errada.

Isabel, 26 anos

Foto cortesia Isabel

VICE: Olá Isabel. Trabalhas há quanto tempo?

Isabel: Trabalho há três anos, como médica dentista.

Que percentagem do teu ordenado é que consegues poupar?

Uma percentagem muito, muito, muito irrisória. Com o ordenado que ganho e depois de contas de casa e renda, é complicado conseguir poupar alguma coisa decente. Tenho uma conta poupança, mas só chega para o curto prazo. Adoro viajar e é para isso que poupo. Adoraria ter uma poupança para o futuro, mas, hoje em dia, é demasiado complicado, o ordenado não chega para tudo e o dinheiro não estica.

Foi fácil conseguires sair de casa dos teus pais?

Não. Saí de casa com 24 anos. Juntei o útil ao agradável, andava à procura de trabalho no Porto – de onde sou –, mas não havia oferta na minha área. Falaram-me de um trabalho em Lisboa, de onde o meu namorado é e decidi debater o tema com os meus pais - isto porque, sem a ajuda financeira deles, sabia que seria impossível fazer a mudança de cidade. Depois de obter o OK paternal, tive muita dificuldade em arranjar casa em Lisboa: era tudo extremamente caro e extremamente pequeno.

Através de contactos de gente minha conhecida, acabei por conseguir casa numa zona que gostava e sem ter que dividir. Mas, ainda assim, a casa não valia o que eu pagava por ela e, ao fim de uns tempos, decidi que era melhor procurar outra para ir viver com o meu namorado, dividir custos. Mais uma vez, conseguimos casa numa boa zona, desta vez a um preço mais justo, com a ajuda de contactos conhecidos. No entanto, mesmo agora, a dividir casa e a gostar da casa em que vivo – não te iludas, está longe de ser a minha casa ideal, mas serve por agora –, confesso que os meus pais ainda me ajudam financeiramente, caso contrário ter qualquer tipo de poupanças ou luxos seria impossível para já.

Dadas as perspectivas de empregos e ordenados, que tipo de bens é que achas que vais conseguir ter?

Antigamente, aos 26 anos a grande maioria das pessoas já vivia fora de casa, com filhos e muitas com casa própria. Crescer e aperceber-me de que os objectivos que tinha, de ser mãe cedo, de ter uma casa, uma casa de férias e o carro que quero, são afinal muito complicados de atingir tendo em conta os ordenados, é algo que me custa a engolir. Sinceramente, apesar de estar a lutar ao máximo para chegar onde quero, dou por mim a tentar afastar estes pensamentos sobre o futuro, porque me deixam assustada. Acredito que vou conseguir ter uma casa minha e até uma de férias, mas provavelmente só estarão pagas quando estiver nos meus 50 ou 60 anos.

É um assunto que me importa principalmente pela questão de constituir familia, porque tenho um grande desejo de ter filhos e gostava muito de lhes poder dar as condições de vida que os meus pais me deram a mim. Nesta idade, os meus pais já me tinham, mas eu não vejo como é que seria possível, agora, eu ter um filho. Junta-se isso às perspectivas de comprar uma casa e, quando se faz contas à vida de quanto consigo poupar por mês e de quantos anos levaria a pagar uma casa, os joelhos até tremem. Não é impossível, mas não o é principalmente porque tenho pais que me podem ajudar financeiramente. Custa-me saber que nada acontecerá na altura em que idealizei.

José, 25 anos

Foto cortesia José

VICE: Olá, Zé! Trabalhas há quanto tempo e em que área? E, já agora, quanto do teu ordenado é que consegues poupar?

José: Trabalho há dois anos e há um ano na minha área de formação, que é a de Fitness e ginásios. De momento, consigo poupar cerca de 25 por cento do meu salário.

Já saíste de casa dos teus pais? Como foi a procura de casa?

Já sim, aos 25 anos, oito meses depois de começar a trabalhar na minha área de formação. Demorei três meses a encontrar casa, os preços estavam complicados e não consegui ficar na zona que inicialmente queria. Divido casa. Para já tem que ser, mas pretendo viver sozinho e gostaria de o conseguir num futuro próximo, talvez daqui a oito meses ou um ano já disponha de dinheiro suficiente para arrendar uma casa por minha conta.

Quantos anos achas que uma pessoa da tua idade demorará a juntar ordenados suficientes e pagar empréstimos para ter a sua própria casa?

Sendo que os T2 estão à volta dos 140 mil euros para cima e que as rendas estão à volta de 700 euros para cima, não esquecendo o valor dos juros dos bancos, penso que à volta de 30 anos. Isto com base nas rendas e possibilidades de encargos fixos dos dias de hoje. Claro que, se a vida melhorar, é expectável que os salários aumentem e, consequentemente, será possível amortizar maior valor mensal e reduzir o número de anos do empréstimo. No caso de que nada mude, acho que temos uns bons 30 anos pela frente.

A questão da disparidade entre ordenados e custo de vida assusta-te, ou nem por isso?

Assusta um bocadinho, porque é muito fácil gastarmos um pouco mais do que podemos ou devemos e, de repente, ficarmos apertados. Contudo, acho que se formos organizados e pensarmos em gestão de gastos, tudo (ou quase) se consegue. Mas, também sei que tenho esta opinião, porque no meu trabalho existe uma relação directa entre número de horas de trabalho e ordenado (não é um salário fixo), por isso quando estou mais à rasca tento trabalhar mais horas e tudo se resolve. Se vai resultar para sempre, não acredito... por isso é que, na minha cabeça, debato muitas vezes formas alternativas de ganhar dinheiro no futuro e conseguir ter o estilo de vida que sempre tive e que quero ter.

Afonso, 24 anos

Foto cortesia Afonso

VICE: Trabalhas há quanto tempo? Em que área?

Afonso: Trabalhei durante dois anos e pouco, em Informática, no sector de Telecomunicações. Despedi-me há cerca de dois meses, para me concentrar em terminar o mestrado devidamente.

Achas que a decisão de tirar mestrado atrasa a saída de casa dos pais?

É possível que a muita gente sim, porque tirar mestrado e trabalhar ao mesmo tempo pode ser duro. Mas, no meu caso, só atrasou uma questão de meses. E, na verdade, com o mestrado terminado no currículo, vai-me permitir – em teoria, pelo menos – ser melhor remunerado, ou seja, ter mais possibilidades para sair de casa.

Quando é que planeias sair de casa dos teus pais?

Já tentei várias vezes, durante meses, porque quando trabalhava esforcei-me para poupar 40 por cento do meu ordenado. Mas, ainda assim, nunca foi suficiente para pagar uma renda sozinho e, à falta de companhia para dividir custos, mantive-me em casa dos meus pais. Agora, acabo o mestrado e em Setembro regresso ao trabalho, por isso segundo as minhas contas espero estar a sair do ninho algures entre Setembro e Dezembro e conseguir ser independente financeiramente – a dividir casa, claro está – entre daqui a seis meses a um ano.

O problema da disparidade entre ordenados e custo de vida assusta-te, ou ainda não tinhas pensado muito no tema?

Claro que já tinha pensado no assunto, aliás, estou constantemente a fazê-lo. Lisboa está, de momento, a viver um boom em termos turísticos, com o custo de vida a subir drasticamente – mas os ordenados não estão a acompanhar a subida. É um cenário muito positivo para o nosso País, visto que atrai investidores e sedes de empresas, até porque apesar da subida os preços de espaços ainda são relativamente mais baratos comparando com muitos países europeus, tal como a mão-de-obra. Mas, quem sofre são os portugueses, principalmente os habitantes de Lisboa e do Porto. É uma situação bastante complicada e acho que o governo tem que ter cuidado a regular, porque se não os jovens não vão ter outra hipótese se não emigrar para países em que os salários estejam de acordo com o custo de vida e, desta forma, Portugal perde mão-de-obra qualificada.


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