Politică

Maconheiro conservador: empresário canábico declara apoio a Bolsonaro

Apesar do boicote proposto por clientes e distribuidores, o criador da marca Sediña afirma que as vendas aumentaram.
24.10.18
Maconheiro conservador: empresário canábico declara apoio a Bolsonaro
Montagem sobre foto da Agência Brasil

A treta chegou no incipiente mercado canábico brasileiro. Num post deletado pouco tempo depois, o empresário carioca Fabio Bastos, criador da marca Sediña, declarou voto no presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) e falou sobre seu sentimento anti-petista. A declaração gerou pedidos de boicote à marca e Jorge Morenno, distribuidor da Sediña no Brasil, anunciou seu desligamento por divergência política. “Votar no Bolsonaro significa ir contra toda forma de ativismo", escreveu em uma publicação no Instagram.

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Morenno citou o vídeo em que Bolsonaro fala que vai acabar com qualquer ativismo no país. "Só que você, brasileiro, esquece que todos os direitos que tem conquistado até hoje, são graças aos ativistas que estavam na rua sofrendo alguma forma de opressão”, falou. Ele disse também que não é apenas um ativista canábico, mas que luta “pelos pobres, pretos, pelas comunidades, mulheres, crianças, comunidade LGBT e outras minorias que sofrerão imensamente nas mãos deste governo fascista”.

Lojistas por todo Brasil literalmente queimaram o estoque. O empresário e rapper Johnny Sahell, da Stuffa CoffeShop, postou um vídeo destruindo material publicitário da Sediña em seu estabelecimento, no coração da favela do Jacaré, na zona norte carioca. “O cara que é usuário busca construir um futuro sem essas regras antigas que só serviam para manter o preto e pobre longe da zona de conforto que o rico tanto gosta", disse. "A ideia do Bolsonaro é totalmente contrária ao que um maconheiro prega: a paz, o amor e a harmonia. A partir do momento que um empresário do movimento da maconha se posiciona a favor dele [Bolsonaro], a gente começa a ficar muito preocupado e a favela não pode compactuar com isso", justifica Sahell.

"A partir do momento que um empresário do movimento da maconha se posiciona a favor dele [Bolsonaro], a gente começa a ficar muito preocupado e a favela não pode compactuar com isso" - Jonny Sahell, rapper e dono da Stuffa CoffeShop

Questionamos Fabio Bastos a respeito do boicote. Em um email de sete páginas, que você pode ler na íntegra clicando aqui, o empresário, que mora na China (onde fabrica a seda), mantém o voto no militar e se apresenta como um “maconheiro conservador”, que, segundo ele, seria maioria no universo canábico. “Tudo dentro do armário, fumando escondidinho", enfatizou.

Para o empresário, o maior problema trazido pela tentativa de boicote foi a reposição de estoques "pois as vendas aumentaram de maneira surpreendente".

Bastos explica que para cada pessoa que o agrediu por se posicionar politicamente, surgiram duas ou três novas pessoas o defendendo. Ao fim do e-mail, o empresário pede que os leitores da VICE tratem bem os maconheiros conservadores. "Não somos uma ameaça, absolutamente, e estamos loucos para debater e fazer agora a nossa parte rumo ao tão esperado Dia D da legalização no Brasil", finalizou.

Nas raras entrevistas em que foi perguntado sobre a regulamentação das drogas, Jair Bolsonaro sai pela tangente com respostas como “Vamos perguntar a qualquer pai se ele é favorável a legalizar as drogas”, e se enrola quando perguntado a respeito da questão medicinal. Se por um lado ele deixa claro ser contra a legalização, mesmo se esta for aprovada pelo Congresso, suas políticas de repressão ao tráfico são bem claras. Ao Jornal Nacional, o candidato cravou que o policial que matar 10, 15 ou 20 pessoas “tem que ser condecorado e não processado”.

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Não demorou para ativistas e entidades canábicas se posicionarem e, surpresa geral, receberem críticas de pessoas declaradamente maconheiras. Num post que viralizou, Henrique Oliveira, administrador da página “Direito das Drogas”, fala sobre os “maconheiros de bem". Segundo um comentário na fanpage que administra, uma pessoa que “trabalha, estuda, tem família, fuma em casa e as pessoas não precisam saber que ela é usuária”.



Quem tem travado conflitos quase diários contra esses maconheiros Bolsomitas é o rapper Marcelo D2, abertamente #EleNão, e que se posiciona quase diariamente contra o candidato. D2 chegou a responder seguidores e postar “Tô de volta no Twitter pro seu terror, fascista filho da puta".

A discussão continua nas redes e nas ruas com o país dividido em dois blocos. A base da democracia prevê que pessoas têm direito a ter opiniões divergentes desde que respeitem as diferenças. Respeito que está longe de acontecer nos discursos de Jair Bolsonaro. Apoiar o candidato sendo usuário de drogas, negro ou LGBT só pode significar duas coisas: ignorância daquele que não se informou ou não leva a sério as propostas do candidato, ou egoísmo, daquele que, sim, entende, mas acha que está acima pois é “de bem”.

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