Ramones
Todas as fotos cortesia Danny Fields/Real Art Press.
Entrevista

As fotos exclusivas dos Ramones durante os primórdios do punk

Depois de Danny Fields descobrir os Ramones, passou os cinco anos seguintes como empresário da banda... e fotógrafo.
02 May 2018, 11:13am

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

O punk rock podia nem sequer existir se não fosse Danny Fields. Nascido em Queens, o lendário magnata da música passou os anos 60 em East Village, a conviver com gente como Andy Warhol e outras estrelas da cena cultural. Revelou bandas como os Velvet Underground quando trabalhava como apresentador da rádio WFMU, fez "campanha" pelos Doors e Stooges e, nos anos 70, escreveu uma coluna influente para o Soho Weekly News. Fields também foi o gajo que descobriu os Ramones.

Em 1975, a banda implorou a Fields para os ir ver tocar ao CBGB e este ficou instantaneamente enamorado. Os Ramones queriam que Fields escrevesse sobre eles - em vez disso, decidiu tornar-se empresário do grupo. Passou os cinco anos seguintes a fechar contratos de discos, a tratar das filmagens do primeiro vídeo da banda e a marcar as suas primeiras digressões, incluindo uma viagem a Inglaterra para tocar com Sex Pistols, The Clash e Damned.

Cinco anos depois, sedentos por reconhecimento, os Ramones demitiram Fields e contrataram Phil Spector, o empresário e produtor que apontou uma arma a Johnny Ramone para que o músico tocasse um riff várias vezes seguidas. Durante a sua época, Fields documentou meticulosamente a ascensão da banda, juntando um arquivo inacreditável de fotos dos primeiros anos. Em 2016, lançou uma colecção dessas imagens em forma de livro de fotografia de edição limitada. My Ramones (Reel Art Press) vai agora finalmente ser republicado e ter a dimensão que merece.

A VICE encontrou-se recentemente com Fields para falar sobre como era ser empresário dos Ramones nos seus anos mais selvagens.

Ramones ao vivo no Phase V. © Danny Fields / Reel Art Press.

VICE: Podes descrever como era a cena no CBGB em 1975?
Danny Fields: Era uma confluência de talentos melódicos e líricos e havia esse desejo de ser diferente. Eras inspirado a levar isso mais além e Nova Iorque era um bom lugar para o fazer. O CBGB ficava no piso térreo de um hotel barato em Bowery. Era um bar longo, escuro e estreito que tinha aberto recentemente para o pessoal que frequentava a sala dos fundos do Max's Kansas City.

Os grandes heróis de Nova Iorque eram as pessoas que inventavam lugares fixes para as pessoas frequentarem. Hilly Kramer, o dono do CBGB, era um compositor e cantor country que tinha gravado alguns discos. Tinha um bom ouvido para música. E o CBGB era incrivelmente acústico. Sentias-te dentro de uma guitarra.

Uma vez não deixaram o Johnny Ramone entrar no Max's e ele nunca perdoou os gajos. Foi o começo da guerra de classes e conseguias ver a ascensão de um produto da feroz classe trabalhadora, que era insano e sensacional. Diria eu isto sobre eles na época? Não. Se me pedisses para os descrever na altura, diria, simplesmente, que eram rock n' roll. Os Ramones estavam a agitar as coisas com uma atitude excelente.

Ramones a tocarem no The Club, em Cambridge. © Danny Fields / Reel Art Press.

Como é que conheceste os Ramones?
Fui ao CBGB, porque o Tommy Ramone implorou-me para ver uma actuação da banda; eles queriam que eu os mencionasse na minha coluna semanal no Soho Weekly News. Eram insistentes, mas eu respeitava pessoas que não recuavam e iam atrás do que queriam.

Disse ao Tommy que iria ao concerto. Cumprimentei-os antes de tocarem e combinei encontrar-me com eles no final, à porta do clube. Tocaram e eu pensei “Uau, esta banda é perfeita. É incrível. Adorei. Mais alto! Mais alto! Mais rápido! Mais rápido!”.

Nas gravações do primeiro disco dos Ramones. © Danny Fields / Reel Art Press.

O primeiro disco deles soa muito singular, especialmente quando comparado com os últimos álbuns ao vivo. Eram um quarteto do acaso - mas, tinham consciência da importância da apresentação. Pensaram em tudo. Pareciam todos iguais e tinham o mesmo sobrenome. Os gajos que tocavam guitarra tinham o mesmo corte de cabelo. Vestiam-se impecavelmente com as mesmas roupas, que acabariam por se tornar uma espécie de uniforme. Eram indivíduos, mas tinham um sentido de grupo que era perfeito.

Ramones no CBGB, fotografados em Kodachrome. © Danny Fields / Reel Art Press.

Voltando à história: 12 minutos depois, tinham tocado 17 músicas e encontrámo-nos no passeio à frente do clube. Eles perguntaram: “Gostaste?”. Eram muito directos. Eu disse que tinha gostado muito. Perguntaram-me se ia escrever sobre eles e eu respondi: “Sim, vou escrever sobre vocês e mais, quero ser o vosso empresário”.

Então, o Johnny ripostou: “Precisamos de três mil dólares para uma bateria”. [_Risos_] Acharam que eu lhes daria dinheiro, o que, na verdade, não era um grande problema. Fui à Flórida e pedi o dinheiro à minha mãe, que assinou o cheque e disse: “Espero que saibas o que estás a fazer”.

Joey nos degraus da Roundhouse. © Danny Fields / Reel Art Press.

Como era a personalidade individual de cada membro original?
Johnny queria deixar de ser o pedreiro que casou cedo e - como ele diz na sua biografia - aquele tipo de pessoa que atira um tijolo a uma montra enquanto anda pela rua. Um dia parou e decidiu que queria fazer algo da vida, ser famoso, ser bom e deixar de magoar estranhos.

Joey era o mais sossegado de todos e quase nunca falava. Nessa época não queria cantar. Era um nerd no universo onde estava. Para ele, ficar parado num palco à frente de um monte de gente e fazer o que fazia era incrivelmente corajoso. Fiquei espantado com o seu sentido de humor e a sua habilidade em gozar, ridicularizar e repudiar. Uma gargalhada sua mandava as pessoas directamente para a guilhotina. Eu ao pé dele estava sempre um bocado nervoso.

Dee Dee com a sua guitarra Rickenbacker. © Danny Fields / Reel Art Press.

Dee Dee era o mais social. Morou comigo e queria que eu conhecesse outros músicos de outras bandas - e nenhum dos outros se importava com isso. Só queriam conhecer raparigas, mas Dee Dee queria ser parte da cena e ser uma rockstar.

Tommy era o mais tímido, mais estudado e mais consciente do que estava a acontecer no mundo da arte, dos filmes e da vanguarda. Os Ramones eram a banda de Tommy desde o início - ele e o Johnny tratavam da música e foi também ele com o Arturo Vega que pensaram no visual. Tommy não gostava de tocar para o público e preferia uma vida mais discreta, criada de uma forma diferente. Abandonou a banda em 78.

Ramones em Park Lane, durante um passeio guiado numa manhã em Londres. © Danny Fields / Reel Art Press.

Podes falar um pouco sobre algumas das tensões no grupo?
Eles nunca se deram bem - odiavam-se, na verdade. Eram diferentes e estavam sempre a discutir. E faziam-no abertamente, mas não à frente de estranhos. Depois de um concerto, trancavam-se no camarim. Eu tinha de ficar à porta, porque os VIPs queriam entrar e eu dizia “Eles estão a relaxar”.

Estavam lá dentro e podias ouvir o Johnny a esmurrar o Dee Dee e a empurrá-lo contra a parede, porque ele tinha perdido a abertura por 64 milésimos de segundo ou algo do género. Ele gritava muito. Depois bebiam uma cerveja, alguém abria a porta e dizia, “OK, podes deixar as pessoas entrar”. E lá estavam eles sentados, normalmente. O sangue já tinha secado [_risos_] e estavam prontos para receber as pessoas.

A gravação do primeiro vídeo dos Ramones no estúdio de TV M.P.C. O vídeo tinha oito músicas em 17 minutos e meio e nunca foi lançado oficialmente. © Danny Fields / Reel Art Press.

O mais importante eram os fãs que ficavam à espera na boca do palco - Johnny sabia que esses eram os fãs que trariam outros fãs com eles. Ele dizia para não começar o concerto enquanto não falasse com cada pessoa que estava a tentar sacar um autógrafo.

Ramones em 1977, no concerto de Ano Novo no Rainbow Theatre de Londres. © Danny Fields / Reel Art Press.

Porque é que saíste?
Eles demitiram-me. Não tinham vendido muitos discos. Todos achavam que as músicas eram tão boas que venderiam milhões de discos nos primeiros seis meses e que depois de três anos estariam ricos e poderiam reformar-se, o que começou a parecer bastante improvável logo de caras. Mas, só fui empresário da banda nos primeiros cinco anos.

Olhando agora para trás, fico chateado de não estar a bordo quando começaram a fazer concertos em estádios para 80 mil pessoas. Na Argentina, a polícia teve que fazer um cordão de isolamento no bairro onde estavam alojados, porque a multidão estava ensandecida. Nunca pude assistir a isso. Só voltei a falar com eles depois de Joey ter morrido.

Ramones a tocarem na Roundhouse © Danny Fields / Reel Art Press.

Como descreverias o legado dos Ramones?
Pararam de tocar, mas continuaram a ser os Ramones até morrerem. Inspiraram outras bandas da mesma forma que os Velvet Underground, os Stooges e os New York Dolls os inspiraram antes. Os Dolls não tocavam nada e era uma inspiração saber que não tinhas de ser o Eric Clapton, ou o Eddie Van Halen para teres uma banda. Era só tentares fazer um barulho novo que quisesses ouvir.

Nunca tiveram um grande sucesso. O primeiro álbum demorou 38 anos para conseguir um disco de ouro. Comparando com o sonho deles de se reformarem em três anos, a coisa foi bastante diferente. Mas, tenho que lhes dar o crédito. Anos depois, ficaram extremamente ricos com os anúncios de TV: “Hey! Ho! Let's Go!”. É algo melódico, directo e rápido. É um hino e algumas pessoas nem sabem de onde veio.


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