Rosalía Malamente El mal querer
Foto cedida por Sony

Rosalía: "Dançar tem a ver com soltar os males. Uma comunhão. Um ritual"

Sentámo-nos à conversa com uma das propostas musicais em língua castelhana mais importantes da década.
16 January 2019, 6:08pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Espanha.

Lembro-me da primeira vez que ouvi Oasis, quando era pequeno. Também me vêm à cabeça, às vezes, as tardes em casa dos meus pais quando se ouvia Héctor Lavoe durante metade do dia, enquanto a minha mãe fazia o almoço. Ultimamente tenho debatido com uma amiga sobre o significado que Fito Páez teve nas nossas vidas e dos últimos traços do grande rock em espanhol. Também não me esqueci das viagens de carro no banco de trás da pickup do meu avô, que o meu pai pedia emprestada para viajarmos até às montanhas, com Más de Alejandro Sanz em altos berros.

Estes artistas foram uma espécie de abre-olhos na minha vida: desde os meus primeiros contactos com o rock de guitarras, ou de perceber que nunca poderia tirar a salsa da cabeça de cada vez que bebo um rum, é o que ponho a tocar até honrar os meus avós espanhóis ao cantar o último artista que conseguiu fazer pop com o flamengo. Mas, estamos em 2019 e já nada disso importa.


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A primeira vez que ouvi Rosalía aconteceu-me o mesmo, a mesma sensação de que a música que me entrava nos ouvidos estava, também, a mudar-me a vida. Sabia que era um sotaque espanhol. Sabia que a sua música tinha melodias pentatónicas refinadas. Sabia que estava a usar o auto-tune de uma forma que eu nunca tinha ouvido e que me fazia sentir como se estivesse dentro de uns aquários de água digitalizada. Sabia que a sua voz me acalmava. Mas, não sabia absolutamente mais nada dela, nem do que estava a ouvir.

Não conseguia encaixar "Malamente" numa caixa de género específica. Não conseguia localizar em que secção, "rock", "pop" ou "reggaetón", ela estaria numa loja de discos imaginária. E, quando acabei de ouvir El mal querer, continuei com essa sensação de não ter compreendido que álbum tinha ouvido. Falava com amigos e todos pareciam perceber o que era. Eu não. Podia assinalar muito do que ali ouvia. Sim, R&B. Sim, pop. Sim, flamengo. No entanto, acho que não me cabe a mim entrar nessa discussão. Importa-me mais que El mal querer seja o disco em que os géneros deixaram de importar.

Vivemos numa sociedade em que, historicamente, gostamos de rotular. Emociona-nos a facilidade de termos tudo organizado. Rosalía fez um disco que tem uma mensagem clara do principio ao fim. É um disco conceptual na era do simples e dos streams, do Spotify e do seu domínio sobre o que as pessoas consideram ou não um hit. Um disco conceptual que une tudo o que se passou na cabeça de Rosalía até hoje e está pensado para este novo mercado. E não importa se é música de ABBA, Camarón, J Balvin, The Rolling Stones, Los del Río ou Rubén Blades. O que importa é a obra e, para a ouvir, é preciso deixar de lado a organização. Sobre El mal querer vai continuar a falar-se. Vão passar os anos e as pessoas cujo ordenado advém de escrever sobre música (como eu) continuarão a assinalar este disco como um "abre-olhos".

Encontrei-me com Rosalía num hotel caro da Cidade do México. Sentados em duas cadeiras douradas e bonitas - com uma mesa redonda à nossa frente que tinha todo o tarot de El mal querer - para conversar sobre o disco e qualquer outra coisa que me ocorresse nesses minutos. E isto foi o que aconteceu.

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VICE: Cresci com Alejandro Sanz e o disco Más como banda sonora. Lembro-me de como ele foi um dos grandes responsáveis por começar a tornar o flamenco mais pop, pelo menos para a minha geração. Li e ouvi quase toda imprensa a dar-te agora a ti essa responsabilidade. E que a nível internacional és do mais importante que aconteceu em Espanha ultimamente. Sentes-te pressionada com esta responsabilidade?

Rosalía**:** A minha música bebe muito do flamenco. Não teria sentido sem o género. Por isso, sinto que tenho tanto amor a esta música [flamenco] que, se puder ser embaixadora do género, sentir-me-ei muito feliz. Tal como me apaixonei por esta música na rua, ao ouvi-la por acaso, se a minha música puder ser uma porta de entrada para que mais gente conheça o flamenco (porque nunca diria que a minha música é flamenco, só que bebo dele) e sirva como porta de entrada para artistas como Capullo de Jerez, Estrella Morente, Camarón, La niña de los peines, isso faz-me feliz.

Vi muitas pessoas da comunidade LGBTQ e mulheres heterossexuais que assumiram o teu disco como uma espécie de arma de empoderamento. O disco é baseado num romance do século XIII. Há simbolismo de sobra. Era tua ideia ser uma referência para esse empoderamento?

Vou sempre reivindicar a imagem da mulher, de uma mulher forte. Acho que em tudo o que faço e no conteúdo do mesmo há uma reivindicação da mulher. Com poder. Houve tantas mulheres que me inspiraram nesse sentido e que se tornaram referências. Lembro-me de Missy Elliot quando eu era adolescente. De ver como ela se apresentava, à sua música e a si mesma como artista. Essa força, a mim, inspira-me. Sinto-me agradecida e muito orgulhosa se o meu trabalho puder contribuir dessa maneira.

O teu primeiro disco, Los Ángeles, é guitarra e voz. Um disco nu. Folk. Interpretei-o como um statement: esta sou eu, venho daqui. Mas, estamos em 2019. Há poucas semanas estiveste nos MTV Europe Music Awards e montaste um espetáculo incrível com "Malamente". Dançaste como um ídolo pop. Uma mudança bastante brutal. É esta a maneira como o folclore de qualquer país pode tornar-se pop ou chegar a muitas mais pessoas?

Não. (risos) Acho que há muitas maneiras de fazer música. Muitas maneiras de fazer essa música chegar a qualquer cenário. Há, inclusive, muitas maneiras de entender a musica de raiz do século XXI e tudo o que ela envolve. Acho que a nível visual há tantas maneiras de traduzir uma proposta musical que isso faz com que o contexto dessa musica mude. Que crie a ilusão de que é algo novo. Que é outra coisa. Por isso é que o jogo com o contexto é tão importante para mim, no processo criativo. Penso que há tantas maneiras de entender a música enquanto artistas e pessoas no Mundo.

No meu caso, o posicionamento em cena é algo com que jogo muito e que adoro experimentar. Agora, propus-me investigar com o corpo, com o dançar. Quando era muito pequena dançava, até antes de cantar. Mas, a partir dos 13 anos foquei-me na música e em desenvolver-me como cantora. No entanto, agora reconecto-me com essa parte de mim e inquieta-me. Acho que a minha música é como um híbrido de várias músicas que me influenciaram dentro dessa inspiração flamenca. E gosto que em palco isso esteja bem marcado.


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Isso que dizes do valor visual na arte é importante. Não há uma só maneira de comunicar. E acho que parte do êxito que estás a ter é esse; e por isso é que o vês nos vídeos e no palco. As pessoas apercebem-se. Vê o que te acontece nas redes sociais, procuram simbolismos em tudo o que fazes: do disco aos vídeos. Isso é importante para as pessoas e, cada vez que há uma conversa sobre ti, é geral: música, videos, símbolos, conceitos.

Sim. Gosto de pensar em projectos. Tudo gravita à volta da música. Mas, gosto de cuidar de tudo ao seu redor. Todos os satélites. Todas as partes. E o visual é uma parte. Cresci com o Youtube. Cresci a ver musica, não só a ouvi-la e acho que é o natural. Se calhar chegará o dia em que perco a cabeça e só quero fazer música sem que haja mais nada à volta. No entanto, por agora é assim que me sinto confortável, é assim que aprendo muito como artista e na vida em geral. Gostava de, um dia, poder realizar um dos meus videos. Interesso-me por tudo, qualquer disciplina. Tratar de todos os detalhes da minha arte faz-me crescer e faz-me pensar na minha música de outra forma. De outra perspectiva. E isso é sempre enriquecedor.

Claro. Imagino que em algum momento pensas numa imagem e, com base nela, te sai a música.

Sim, totalmente assim. E é isso que, afinal de contas, é a amplitude. Essa visão ampla que te faz compor e se reflecte de forma positiva na música.

Sigo-te no Instagram e parece que todos os dias tens uma nova boa notícia. Cada dia há um novo recorde ou assim, é uma loucura.

(risos).

A sério, se fosse a ti, precisaria de uma corda para me prender à terra. Como é que isto não te sobe à cabeça?

Eu penso sempre que o meu ofício é como qualquer outro. E que todos os ofícios têm uma parte boa e uma má. O meu é ser música. E sei porque é que comecei a fazer isto e sempre pensei que não havia plano B. Sou apaixonada por música. Adoro estar no estúdio e investigar sons e ter a ilusão de que vou encontrar algum novo. Isso motiva-me. Tanto o estúdio como o palco são os meus lugares preferidos no Mundo e isso serve-me de âncora, faz com que não me esqueça nunca de ser música e de que é esse o meu oficio: compor, interpretar. Executar, produzir, ter uma visão clara dos projectos, imaginar música na cabeça e saber levá-las a cabo. Isso não é fácil, requer uma vida. Sei que vou estar sempre a aprender. Sei que haverá vezes que vou acertar e outras que nem por isso. Mas, aceito-o. Gosto de fazer música arriscada. Acho que a música também é uma professora e te obriga a agir com humildade. Por isso é impossível que te suba à cabeça, se tiveres estes valores claros como artista. Eu aprendi-os quando comecei a estudar música e espero nunca os perder.

Antes de El mal querer e tudo o que aconteceu depois, achas (como espanhola) que o flamenco em Espanha era algo visto como conservador?

Acho que para outras gerações podia ser. Mas, sinto que para a minha é como se o flamenco fosse algo novo. Despojado de qualquer conotação que pudesse ter tido no passado. Penso que é uma música muito especial e que a nível de prestígio está ao nível da musica clássica, brasileira ou do jazz. O flamenco está aí. É património da humanidade, no Mundo inteiro há festivais com esta música. No Japão estudam-na e é um dos países com maior tradição de flamenco, depois de Espanha. Na Catalunha também se estuda muito. Por isso acho que está a viver um momento forte. Até o Ozuna no ultimo disco diz "flamenco y tu sonrisa", em "Ibiza", pensei logo "meu Deus, o flamenco está bem forte". É uma musica que nos toca directamente, no coração e na emoção.

Acho que o folclore nunca morre. Está sempre lá. Intrínseco. Relembra-nos de onde vimos e quem somos.

Claro que sim. As musicas de raiz têm agora muita força, porque te relembram de onde vens. São as músicas do povo, inamovíveis, que demoram muito a modificar. Gostamos delas para sempre, porque se contraem pouco a pouco e, o que se constrói pouco a pouco, geralmente dura.

Não te irrita toda esta conversa da apropriação cultural? A mim parece-me uma idiotice, mas quero saber se te incomoda. A mim, pessoalmente, incomodaria.

Eu sou sensível. Quer dizer, acho que um artista que te diga que não é afectado por uma critica te estará a mentir. Tu o que tens que decidir é quanto é que essa critica te afecta e tentar concentrar-te sempre na parte positiva. Tal como acho igualmente importante estar constantemente a aprender. Absorver. Também somos, muitas vezes, aquilo que elegemos ser. Aquilo que absorvemos e aprendemos. É assim que podemos dar a nossa visão ao Mundo.

El mal querer é um disco conceptual, apesar de eu ter alguns problemas com essa palavra. Não percebo bem o que muita gente chama "conceptual" hoje em dia.

Porque é que dizes isso?

Estamos numa era em que temos pouco tempo para tudo: trabalho, relações, até a comer temos pressa. Somos a geração do imediato, queremos tudo já. Até o acto de ouvirmos uma música sentimos que é tempo que estamos a investir. Porque é que, sabendo tudo isto, editas um disco inteiro, em vez de soltares single a single?

Exactamente por ter crescido num mundo em que se consomem tantos singles e a mésica se ouve por streaming, em que o formato fisico cada vez tem menos sentido, acho que torna mais latente a necessidade de um disco que comece e acabe em si mesmo. Que seja redondo. Que se feche. E que não seja só mais uma colecção de canções.

Uma espécie de "Grandes Êxitos".

Isso! Percebes? E de repente, se te apetece, fazes. Mas, no meu ponto de vista sempre me inquietou a ideia de um conceito concreto: daquele que musicalmente quero investigar e também a nível lírico, de letra. Por isso, consequentemente, faz com que as pessoas ouçam o disco do principio ao fim. El mal querer está conectado canção a canção, cada letra ajuda-te a compreender a próxima. Consoante o contexto, cada canção vai tendo um seguimento. Uma historia que há por detrás que, no fim, cada um entende à sua maneira. Coisa que me parece maravilhosa.

Y eso es lo bonito del arte.
¿Verdad? Que cada quién se haga su historia. Me gusta dejarlo lo suficientemente abierto como para que así sea.

E isso é o bonito da arte.

É não é? Que cada um faça a sua história. Gosto de deixar tudo suficientemente em aberto para que assim seja.

O reggaeton e as redes sociais dominam o Planeta. Vão de mãos dadas e sinto que um é consequência do outro. Já fui a bares, festas, casas de amigos e vejo que as pessoas dançam "Malamente" como se fosse reggaeton. A abanar o rabo.

(risos).

100 por cento. Acho que estamos num momento crucial como sociedade e temos uma necessidade enorme de dançar. Precisamos de dançar mais do que nunca. Vejo que trabalhaste com El Guincho como produtor. Tens canções com J Balvin. Fotos com Ozuna. Queres fazer música mais dançável e continuar a investigar essa corrente?

Bem, o disco foi composto a meias com El Guincho. Compus "Brillo" e ele [Balvin] quis entrar. Adoro a música de Ozuna e acho que tens muita razão quanto a hoje em dia termos muita vontade de dançar.

De soltar os males.

Sim! Dançar tem a ver com isso. É uma comunhão. Um ritual. E acho que isso sempre esteve na história. A música pode ter muitas funções e, afinal, essa pode ser uma delas. E como penso que pode ter muitas funções, penso que a música latina está muito conectada com o flamenco. Parece-me óptimo que haja uma ponte tão evidente e, claro, adoraria explorá-la. Todavia, também gosto igualmente da música electrónica, folk, música experimental: gosto de tudo. Por isso, acho que a música latina usa a mesma linguagem com a que cresci, por isso é mais natural para mim. Mas, não sei, não penso muito em géneros concretos. Não é assim que penso nos meus projectos. Penso mais em "O que é que me apetece fazer neste momento?". Depende de como me sinta e do que quero explorar. A música latina é maravilhosa e está, hoje, a viver um momento para celebrar. E acho que o flamenco, de alguma maneira, faz parte dela.

Continuando com o que dizes dos géneros, penso o mesmo: posso ter no Spotify J Balvin, Pixies, Héctor Lavoe ou o teu disco, é indiferente.

Olé! (risos). Adoro.

É que acho que os géneros desapareceram. Isso de classificar tudo o que ouvimos já não tem cabimento. É música e, dependendo do que sentimos, procuramos um artista ou outro. Achas que é isso que acontece contigo? Não sei dizer de que género é El mal querer, nem quero perder tempo a decifrá-lo. Sei que há R&B, samples, melodias pentatónicas, flamenco e mais. Mas, para mim é mais divertido ouvi-lo. É disto que mais artistas precisam? De deixar os géneros para trás?

Acho que é o que eu preciso e oxalá que a minha necessidade possa emocionar as pessoas. Porque, quando faço música, faço-a desde aí. E oxalá possa acontecer com os outros. Gosto que num disco possam conviver melodias pentatónicas, como dizes, com ritmos flamencos, africanos. Harmonias que estejam inspiradas no R&B ou musica contemporânea ou musica clássica, antiga ou cânticos gregorianos. E, para quê pensar em géneros? Hoje, mais que nunca, estamos expostos a muitas músicas e distintos tipo de expressão. E, se podes ser transparente e que tudo isso conviva na tua arte, podem surgir coisas que não terias imaginado.


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