Shane Dorian a surfar uma onda gigante na Nazaré. Foto cortesia WSL.

Morte ou Glória. Como uma vila de pescadores se tornou no destino de surf mais perigoso do Mundo

Breve história da Nazaré e dos surfistas de ondas gigantes que arriscam as suas vidas a cada Inverno.

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27 Novembro 2018, 2:46pm

Shane Dorian a surfar uma onda gigante na Nazaré. Foto cortesia WSL.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Amuse.

"Tinha caído, virei-me para trás e vi a maior onda que já vi na vida a vir na minha direcção. Tinha pelo menos 15 metros de altura". Como surfista de ondas grandes e duplo, Dylan Longbottom não se assusta facilmente. Mas isto, diz-me, era outra escala. E realça: "Era alta como uma pirâmide e caía na vertical. Não havia tempo para mergulhar ou nadar para longe. Rebentou e a crista da onda aterrou em cima da minha cabeça. Parecia que tinha levado com um comboio em cima".

Conheço Longbottom há 20 anos e já o vi em situações difíceis. Mas, nenhuma delas tão traumática - ou presenciada de tão perto - como esta. De onde eu estava, se quisesse complicar as coisas ao meu amigo, podia ter atirado uma pedra para a sua localização exacta. Estava tudo a acontecer a 30 metros de mim, mas foi como ver um amigo a ser amarrado aos carris antes do comboio lhe passar por cima.


Vê: "Surfar às cegas: um treinador muito especial"


Eu não era o único a assistir àquilo sem poder fazer nada. Ao meu lado, no Forte da Nazaré, sobranceiro ao infame spot português para surfar ondas gigantes, a Praia do Norte, estavam milhares de fãs de surf e turistas. Entretanto, o WSL, o órgão dirigente do surf mundial, estava a passar em directo as imagens para toda uma audiência pelo Mundo fora.

Dois dias antes, a competição de surf de ondas gigantes "Nazaré Challenge" tinha sido realizada ali mesmo e, como se previam ondas ainda maiores, a equipa de filmagens deixou-se ficar para captar um potencial momento histórico de "free surfing" (ou seja, não competitivo) no domingo.

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Este ano, na Nazaré. Dylan Longbottom olha em pânico para a onda que começa a quebrar por cima dele. Foto por Paul Dudley

Depois de estar preso debaixo de água durante 30 segundos, Longbottom surgiu à superfície perigosamente perto das rochas. Se não fosse a coragem do condutor do jet ski que o salvou, provavelmente não teria sobrevivido. Mais tarde, descreveu a experiência como tendo sido o mais perto que já esteve de morrer no oceano.

Longbottom está longe de ter sido a única pessoa em risco de vida na Nazaré. Em 2014, a surfista brasileira Maya Gabeira teve de ser salva após ter sido encontrada a flutuar inconsciente, de cara para baixo, depois de um wipeout. O seu parceiro de surf, Carlos Burle, salvou-lhe a vida ao fazer-lhe reanimação na praia. No Inverno seguinte (altura em que as ondas estão maiores) ela voltou e conquistou o recorde do Guiness para a maior onda já surfada por uma mulher - registada com mais de 20 metros.

Foram vários os que se safaram por pouco. Em 2017, o surfista inglês Tom Butler perfurou o pulmão e quase se afogou. Andrew Cotton, um veterano da Nazaré, lesionou-se na coluna no Outono do ano passado.

"Quando chegámos à Nazaré em 2011, descobrimos que os locais não eram assim muito simpáticos", diz Nicole McNamara, mulher do pioneiro da Nazaré, Garret McNamara, "mas foi só depois de lá termos passado alguns invernos que descobrimos porquê. Eles não se queriam afeiçoar muito ao Garret, porque estavam convencidos de que ele ia morrer".

Era uma presunção justa. Afinal, os habitantes desta histórica vila de pescadores, situada a 130 quilómetros a Norte de Lisboa e parte do distrito de Leiria, estão profundamente familiarizados com o poder do oceano. A forma de esculpir as proas finas e curvas dos seus barcos de pesca de madeira são uma herança directa dos primeiros pescadores da zona, os fenícios, que ali se instalaram antes de Cristo.

Desde aí que cada geração tem sofrido a perda de entes queridos levados pelo Atlântico. Por isso, quando viram McNamara a remar pela primeira vez para surfar ondas que eram quase tão altas como as falésias contra as quais batem, estavam convencidos de que era morte certa.

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Vista do Forte da Nazaré a partir do mar. As ondas aqui são, por vezes, tão altas como a falésia. Foto cortesia Billabong Europe

O que eles não sabiam era que McNamara, um bem conhecido surfista de ondas gigantes, tinha experiência em condições como estas. Fazia-se surf na Nazaré desde o início dos anos 1960, mas nunca quando as ondas estavam no seu auge de tamanho. Até que, há 10 anos, um local enviou um e-mail com uma fotografia das ondas a Garret. Esta pessoa sabia que as ondas eram enormes, tinha-as visto toda a sua vida, mas sem um humano ao lado para comparar a escala não sabia o quão grandes eram exactamente. Achou que talvez Garret pudesse ser esse humano.

McNamara apareceu em 2011 e viu imediatamente o potencial da zona. Ao contrário dos outros sítios de ondas gigantes, como Jaws, em Maui, ou Mavericks na Califórnia, a Nazaré é um beachbreak. "A diferença aqui é que o swell passa por um desfiladeiro debaixo de água e depois junta-se com as ondas que vêm da costa", explica McNamara. E acrescenta: "Criam estes tubos gigantes e quando tudo se junta, a magia acontece".

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Russell Bierke, a domar um monstro da Nazaré. Foto cortesia WSL.

Nos primeiros anos, McNamara era o único a experimentar a magia - enquanto Nicole assistia desde o Forte. Contudo, a notícia espalhou-se. A McNamara juntou-se um pequeno grupo de entusiastas das ondas gigantes, como o inglês Andrew Cotton, o alemão Sebastian Stuednter e o pescador local, Hugo Vau. Naquele primeiro Inverno, McNamara foi arrastado por uma onda que tinha mais de 23 metros de altura - um novo recorde mundial. De repente, a Nazaré estava no radar do surf.

Nesta altura, os McNamara regressavam a cada Inverno, quando as ondas eram maiores e iam ficando cada vez mais enraizados. Casaram-se na vila e, na transmissão em directo da Nazaré desse ano, Garret explicou (talvez com demasiados pormenores) como os seus dois filhos tinham sido concebidos na praia. Depois, em 2013, a lenda havaiana, Shane Dorian, chegou para fazer a sua primeira tentativa séria de remar pelas ondas no break. Dada a maneira como as ondas se formam e o seu beachbreak natural, muitos pensaram que a única forma de as surfar era com assistência de jet ski. No entanto, os esforços de Dorian abriram caminho a uma nova maneira de tentar domar a besta.

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O brasileiro Rodrigo Koxa é o actual detentor do recorde mundial, com uma onda de 24 metros... por agora. Foto cortesia WSL.

"A Nazaré era muito assustadora, mas tinha tudo. Era super intensa, super técnica, grande, desagradável, arrepiante; sabes, tudo aquilo que amo no surf de ondas gigantes", relembra Shane Dorian. E realça: "Na altura, disse que é possível remar uma onda de 30 metros aqui. Depois de assistir ao Nazaré Challenge na sexta-feira [16 de Novembro] estou ainda mais convencido". O recorde actual é de 24 metros, uma onda surfada pelo brasileiro Rodrigo Koxa, em Novembro de 2017.

Desde a chegada de McNamara, a vila tem vindo a transformar-se num núcleo crucial a nível global para o surf de ondas gigantes. E, apesar de os locais terem pensado, inicialmente, que Garret era louco, hoje acolhem-no - a ele e ao seu gang - de braços abertos. "Estamos totalmente comprometidos em receber bem os surfistas e em fazê-los sentirem-se bem-vindos", garante-me Walter Chicharro, presidente da Câmara Municipal. E acrescenta: "Foram eles que puseram a nossa pequena vila no mapa".

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Os jet skis usados pelos surfistas fazem, hoje em dia, parte da paisagem local, ao lado dos tradicionais barcos de pesca. Foto cortesia Billabong Europe.

Chicharro supervisionou a transformação do Forte, que esteve fechada ao público durante anos a fio e é agora um grande museu dedicado ao surf. Em 2017, McNamara tornou-se no único estrangeiro de sempre a ter recebido a Medalha de Honra Vasco da Gama da Marinha portuguesa, pela seu contributo para o desenvolvimento de Portugal.

O porto local, onde os pescadores operam há séculos, é hoje o sítio de armazenamento e desenvolvimento de surf de ondas gigantes mais avançado do Mundo. Empresas como a Mercedes Benz e Red Bull patrocinam hangares especializados, nos quais os surfistas guardam o seu equipamento especial, pranchas caras e jet skis.

A vila também fornece instalações de ultima geração para treinos de fitness para os atletas. Alojamentos como o Zulla têm também surgido, com apartamentos modernos com uma certa onda de surf camp e localizados a poucos minutos a pé das famosas ondas. A vila, que antes era visitada praticamente apenas como destino de Verão, é agora uma atracção durante todo o ano.

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Público a observar a acção na Praia do Norte. Foto cortesia WSL.

"Percebemos que estes surfistas loucos iam sobreviver", diz Celeste, dona do A Celeste, o restaurante de peixe à beira-mar, um dos locais preferidos pelos McNamaras e todos os surfistas internacionais, para relaxarem a cada Inverno.

"Hoje em dia, o Garret e a Nicola são como se fossem meus filhos. Somos todos uma grande família. Qualquer surfista, de qualquer parte do Mundo, é bem-vindo na Nazaré", conclui a nazarena.

Ben Mondy é um escritor e comentador da WSL baseado em Londres.


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